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Exposição

"Adoração dos Magos", de Domingos Sequeira: ver além da visão

Numa sala pequena, a do Mezanino do Palácio Alvor, estrategicamente situada em frente ao Gabinete de Estampas do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, apresenta-se uma pequena exposição de 15 desenhos (estudos), mais um cartão grande (98 x 136 cm) situado mesmo ao fundo da galeria, o estudo de composição, ou o modelo, para o trabalho final, uma "Adoração dos Magos" que Domingos Sequeira (Belém, 1768 - Roma, 1837) pintou em Castel Gandolfo, em 1828, bem dentro do seu último período, depois de regressado à sua cara bella Italia e à Roma que lhe dera a sua formação académica a partir de 1788 e o acolhera muitos anos depois não como o refugiado político do miguelismo, que também era, mas como um filho longamente ausente que regressa à sua casa espiritual.

Dos 15 estudos, a maioria (8) pertence ao MNAA, mas é bom vê-los com os outros que se encontram dispersos por vários museus (Soares dos Reis no Porto, Machado de Castro em Coimbra, Anastácio Gonçalves em Lisboa e Casa-Museu Egas Moniz em Avanca), num conjunto inédito até hoje.

Estudos de figura, nem todos aproveitados, eles são também estudos de luz a partir de utilização do giz branco e do sábio contraponto deste com o carvão e com a cinzentura do suporte; não é por acaso que no século XIX apodaram Sequeira de "Rembrandt do claro".

A penumbra, indispensável em qualquer exposição de desenhos, reforça o efeito do giz, que, peça a peça, se transforma em luz até atingir uma espécie de exaltação no grande estudo final, todo ele uma batalha da forma e do informe, onde a luz vence transformando a história dos reis magos na plena manifestação do divino que é a Epifania e num cabal comentário à leitura canónica desse dia: «Levanta-te e resplandece, Jerusalém,/ porque está a chegar a tua luz!/ A glória do Senhor amanhece sobre ti!/ Olha: as trevas cobrem a terra,/ e a escuridão os povos,/ mas sobre ti amanhecerá o Senhor" (Isaías, 60, 1-2). (...)

No que diz respeito à fé católica, Sequeira nunca vacilou, foi sempre fiel; é, aliás, dessa mesma fé que ele parte, no período final da sua vida e carreira, para se transformar num visionário que prolonga a sua arte para lá dos limites da ortodoxia académica, bem como da pura visualidade, exprimindo coisas, como escreveu Raczynski em 1847, «para as quais não há modelos fornecidos pela natureza real».

Nos seus derradeiros anos romanos, considerado por todos, decano da Academia de São Lucas, Sequeira utiliza tal situação para experimentar continuamente, com uma desenvoltura que nunca antes tivera, num final de percurso em que o risco se transforma na «melhor das liberdades» e é parte integrante da obra, num fulgor contínuo, procurando sempre ver além da visão e dos sentidos, apenas interrompido pela doença.

Esta é mais uma das "pequenas" exposições que são um dos melhores segredos do MNAA; pequena, discreta, eficaz, belíssima, longe das "trombetas da fama" que exaltam tantas vezes mostras sem mérito e de qualidade inferior.

Imagem"Adoração dos Magos": desenho a carvão e giz de Domingos Sequeira

 

Adoração dos Magos "Adoração dos Magos", Domingos Sequeira

 

José Luís Porfírio
In Expresso, 11.1.2014
12.01.14

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Adoração dos Magos

 

 

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