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Arcebispo e ativistas católicos protestam contra visita de Trump ao santuário S. João Paulo II

«Considero desconcertante e repreensível que qualquer instalação católica se permita ser tão flagrantemente usada e manipulada de uma maneira que viola os nossos princípios religiosos, que nos apelam a defender os direitos de todas as pessoas, mesmo aquelas com quem possamos discordar.»

Foi com esta declaração que o arcebispo de Washington se pronunciou esta terça-feira, 2 de junho, em relação à visita que o presidente dos EUA, Donald Trump, realizou, no mesmo dia, ao santuário nacional S. João Paulo II, localizado na capital do país, onde se concentraram cerca de dois mil manifestantes, alguns dos quais empunhavam cartazes e rezavam o terço.

A visita seguiu-se ao surgimento de Trump diante da igreja episcopal de S. João - a chamada "igreja dos presidentes", próxima da Casa Branca -, na segunda-feira, onde posou com uma Bíblia na mão. As autoridades policiais recorreram a meios de dissuasão para dispersar manifestantes que protestavam, de forma pacífica, diante da residência presidencial, antes de Trump sair.

«O papa João Paulo II foi um fervoroso defensor dos direitos e dignidade dos seres humanos. O seu legado é testemunha vívida dessa verdade. Ele, certamente, não toleraria o uso de gás lacrimogéneo e outros meios para os silenciar, dispersar ou intimidar por uma oportunidade fotográfica diante de um local de culto e paz», acrescentou.

No domingo, o prelado tinha-se juntado ao coro de vozes que, dentro da Igreja, manifestaram revolta pela morte de George Floyd, sufocado por um agente da polícia em Minneapolis, no dia 25.



«S. João Paulo II afirmou que o racismo é um pecado. E nós pensamos que o presidente está a promover políticas racistas. Estamos aqui para dizer “Black lives matter”»



«Muitos de nós lembram-se de incidentes semelhantes na nossa história que acompanharam o Movimento dos Direitos Civis, nos quais vimos repetidamente na televisão e em fotografias de jornais negros americanos brutalizados pela polícia. Esses momentos históricos contribuíram para despertar a nossa consciência nacional para a experiência afro-americana nos Estados Unidos, e agora, em 2020, ainda continuamos a ver incidentes repetidos de brutalidade policial contra afro-americanos. Deparamo-nos novamente, neste momento nacional, com o despertar da nossa consciência através de fotos e vídeos desoladores que confirmam claramente que o racismo ainda persiste no nosso país», apontou.

O diretor executivo da Rede de Ação Franciscana, Stephen Schneck, também reprovou a visita de Donald Trump: «É absolutamente inapropriado o presidente dos Estados Unidos estar a usar uma instalação católica como p santuário para uma foto com vista à sua reeleição. Temos de insistir que a Igreja católica nos Estados Unidos deve manter distância de uma pessoa que não representa nada do que a nossa Igreja representa».

«S. João Paulo II afirmou que o racismo é um pecado. E nós pensamos que o presidente está a promover políticas racistas. Estamos aqui para dizer “Black lives matter”; estamos aqui para dizer que, a menos que as coisas mudem, vamos ser destruídos como país», vincou a Ir. Marie Lucey, que se juntou aos manifestantes reunidos diante do santuário visitado por Trump, evento planeado antes da morte de George Floyd.

A diretora-executiva da Network, lóbi católico ligado à justiça social, Ir. Simone Campbell, declarou que Trump «está agora a usar a fé católica noutra operação fotográfica para defender a sua recusa horrível de combater o racismo e a violência policial nos Estados Unidos. Ele está a tentar criar uma falsa dicotomia entre manifestantes pacíficos e a Igreja. Isso não pode estar mais longe da verdade, e qualquer cristão que acredita nisso não entende a mensagem de Jesus».



Imagem Donald Trump diante da igreja episcopaliana de S. João | Washington, EUA | 01.06.2020 | © Reuters


O papa sublinhou hoje que se une à oração «pelo repouso da alma de George Floyd e de todos os outros que perderam a vida por causa do pecado do racismo»: «Rezemos pelo conforto das famílias e dos amigos dilacerados, e rezemos pela reconciliação nacional e a paz a que aspiramos. Nossa Senhora de Guadalupe, Mãe da América, interceda por todos aqueles que trabalham pela paz e a justiça na vossa terra e no mundo», disse aos peregrinos de língua inglesa no final da audiência geral realizada no Vaticano.

«Não podemos tolerar nem fechar os olhos a qualquer tipo de racismo ou de exclusão e pretender defender a sacralidade de cada vida humana. Ao mesmo tempo, temos de reconhecer que "a violência das últimas noires é autodestrutiva e contraproducente. Nada se ganha com a violência, e muito se perde"», destacou.

O prefeito do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Integral, o cardeal ganês Peter Turkson, frisou, também esta quarta-feira, que «quando se verificam situações que vão radicalmente contra a dignidade humana, que se lhe opõem ou a matam, isso torna-se fonte de grande proecupação».

«É neste contexto qu eo presidente da Conferência Episcopal dos EUA, ao refletir sobre esta situação, afirma que as desordens nas cidazdes dos EUA refletem a justificada frustração de milhões de irmãos e irmãs que, ainda hoje, vivem a humilhação, a mortificação, a desigualdade de oportunidades só por causa da cor da sua pele», assinalou.

O responsável apoia a atitude do irmão de George Floyd, que defende o protesto civil não-violento, e recordou o legado de Martin Luther King, lembrando que é também necessário «o perdão»: «Creio que esta é a maneira com a qual podemos enobrecer a memória de George Floyd».


 

Rui Jorge Martins
Fontes: Arquidiocese de Washington, National Catholic Reporter, Sala de Imprensa da Santa Sé, Vatican News
Imagem: Donald Trump e primeira-dama, Melanie Trummp | Santuário Nacional S. João Paulo II, Washington, EUA | 02.06.2020 | © Patrick Semansky, AP
Publicado em 03.06.2020

 

 
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