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Palavra de D. Manuel Clemente na entrega do prémio Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes a Luís Archer

O Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes é atribuído este ano ao Padre Luís Archer. Não só nem tanto para comemorar os seus oitenta anos, mas para sublinhar a importância cultural duma vida que há-de continuar a enriquecer-nos com múltiplos dons de grande e lúcida sabedoria, isto é, de cultura propriamente dita.

Já é muito que seja um sacerdote exemplar, tão exemplificativo do que a Companhia de Jesus tem oferecido a Portugal e ao Mundo, nas fronteiras árduas da missão científica, tanto ou mais do que a territorial. Já é muito e muitíssimo que a sua alma sacerdotal se desdobre em actuações pastorais específicas, do mundo juvenil ao renovamento carismático, entre outras mais. Já é tanto que cultive desde sempre o gosto pela música e a sensibilidade artística; ou que não deixe de reflectir teologicamente os mesmos temas que trata a outros níveis, com rigorosa independência de campos e métodos. Mas o que quisemos verdadeiramente galardoar este ano foi precisamente o todo que essas e outras facetas da sua polifacetada personalidade nos oferecem, com tanta oportunidade e simplicidade.

Oportunidade, digo, e, exactamente assim, cultura. Porque esta nunca é ociosa, como poderiam ser a mera erudição ou um diletantismo qualquer. A cultura leva por diante a compreensão da vida, no que esta tem de mais palpitante e urgente. Ganha tudo em ser preenchida de saber e de saberes; mas para se responder a si mesma, como existência e autoconsciência inadiáveis. Ora o que o Padre Archer nos tem oferecido é o testemunho riquíssimo da sua demanda – que é também a demanda de si mesmo, na unidade construída do crente e do cientista, do artista e do pastor. E nada há tão oportuno agora, na nossa fragmentada Europa cultural, como este reencontro de si, para além das sínteses rudimentares do passado remoto ou das desistências recentes de encontrar um sentido, mais preenchido este com o que entretanto soubemos e pudemos, irremediavelmente e, apesar de tudo, promissoramente.

Simplicidade também, como só a alcançam os verdadeiros sábios. O Padre Archer testemunha a disponibilidade geral de quem não se pertence nem impõe, porque foi tocado por Outro que o interpela e convida a partir sem cessar. É por isso um caminheiro de bagagem disponível. Tanto o encontraram a investigar como aberto a escutar; tanto o ouviram numa aula como o acompanharam a rezar… Na coincidência etimológica, nele tão grande e tão gentil, o Padre Archer é sábio porque saboreia e dá a saborear. Simplesmente, quer dizer, autenticamente, como “quem fala com autoridade”: um saber de experiência feito, uma experiência feita verdadeiro saber.

É esta totalidade que o nosso prémio quer realçar em si, caríssimo Padre Luís Archer. Mas também quer realçar com palavras suas, estas entre tantas outras que podiam ser, da sua variada escrita. Há muito que as retenho, como grandemente luminosas, por nos darem em poucas linhas a visão global e não sincrética da evolução humana, tocada pela absoluta gratuidade divina. O trecho que vou citar, sendo seu, tem de ser também nosso, pela subtilidade e pela beleza com que nos elucida nesta questão maior e actualíssima: “A amplificação cristã do paradigma evolucionista introduz-lhe, como factor selectivo, um elemento tão imerecível e inatingível pela luta, que se apresenta como dom gratuito. E se este é recebido, inverte-se o sentido da luta e da vitória. Não é já sobre os outros mas sobre si próprio. Os que vencem já não são os que lutam pelo domínio, mas os que lutam pela fraternidade e pela justiça. A vitória final não está na conquista em concorrência, mas na solidariedade universal. Em vez da racionalidade da dominação, está a lógica do serviço. Os últimos são os primeiros, e o maior no Reino dos Céus é o que serve. Seleccionada não é já a tecnologia da manipulação e da posse, mas a tecnologia da libertação. Os mais adaptados ao novo Reino são os que receberam um Espírito que domina o seu próprio instinto de dominação” (ARCHER, Luís – Fé experiencial e tecnologismo do futuro. In ANTUNES, Marinho [et al.] – Fé e Cultura para o ano 2000. Lisboa : Communio, 1985, p. 101).

Palavras destas, Padre Luís Archer, valem muito mais do que o prémio. Mas, neste ano e conjuntura, o prémio não lhes poderia passar ao lado. Muitos parabéns e muito obrigado!


 

D. Manuel Clemente
Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais
Ato de entrega do prémio Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes ao padre Luís Archer
Lisboa, 27.11.2006
Republicado em 09.10.2011 | Atualizado (mudança de grafismo da página) em 09.07.2025

 

 
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