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Arte deve resistir à consolação, as grandes histórias não podem ser sempre «belas» e «boas»

Na sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, o papa Francisco concentra-se, compreensivelmente, nos aspetos «edificantes», «ternos» e «construtivos» da narração. Ele é um pastor responsável pelo bem-estar do seu rebanho. E a primeira diretiva para um pastor é proteger as suas criaturas da errância ou da alienação, ou do perigo de afastamento de uma comunidade circunscrita que oferece proteção contra predadores.

Esta difícil situação assume muitas formas, físicas ou espirituais, gerando, todas elas, vulnerabilidade. Todavia, a política contemporânea e a história ensinam-nos que há um outro tipo de perigo, quer para o indivíduo quer para a sociedade, na complacência de um rebanho. A esse respeito, a alienação pode ser um corretivo crítico a um conformismo irrefletido. Muitas vezes é incarnado pela voz de uma pessoa estranha, que está à parte para desafiar ou género de pensamento ou de discurso que inspira violência; o género de hipocrisia que seduz o ingénuo; o histerismo de uma multidão. Como observa o santo padre, precisamos de coragem para repelir as falsas narrativas e as falsas tranquilizações.

A alienação, naturalmente, é um dos grandes temas e das grandes dinâmicas da literatura moderna. Comparece no início do século XIX com os românticos, em parte como reação aos males da escravidão, da autocracia, do imperialismo, do capitalismo ávido e da destruição da natureza.



Tal como não há coragem sem medo, transcendência sem humildade e redenção sem uma onerosa renúncia – a palavra, na origem, significava “resgate” –, também a dúvida é essencial para o trabalho do artista



Duas guerras mundiais, o holocausto, a catástrofe climática e os genocídios não mais fizeram do que a tornar mais intensa. Do meu ponto de vista de escritora laica, a arte, no nosso tempo cada vez mais negro, deve resistir à consolação sub-rogada: e isto inclui a hagiografia. O narrador nunca sentiu uma urgência maior em refletir sobre a natureza humana com todos os os seus defeitos, as suas crueldades, as suas deformidades, a sua irracionalidade, e, para usar a palavra do Papa, os seus «males». As grandes histórias não podem ser sempre «belas» e «boas», como parece reconhecer o Papa ao mencionar a obra de Dostoiévski.

A própria Bíblia, especialmente o Antigo Testamento, é uma narração poderosa em parte porque reconhecemos, em Yahweh, um protagonista que, malgrado a sua omnisciência, dá voz a emoções humanas tumultuosas – amor, certamente, e compaixão, mas também cólera, intolerância, desgosto, vingança, orgulho, frustração, capricho e parcialidade pelo seu povo eleito em prejuízo dos outros, mesmo se o põe à prova através de sofrimentos atrozes. O Antigo Testamento é, deste ponto de vista, uma grande turva saga familiar, não muito diferente das da tragédia grega ou da literatura russa, ou da narrativa de Kafka.

É tarefa do missionário difundir a boa nova, e é tarefa do propagandista modificá-la, mas não é esta a tarefa do artista. Como se podem, então, conciliar os imperativos da vocação de um escritor com o pedido do papa de narrativas de unidade e redenção? A resposta, a meu ver, poderia estar na definição de manter a fé.

Um bom cristão mantém a fé no seu credo; nos ensinamentos da Igreja; nos dez mandamentos e na ideia de aperfeiçoar a sua natureza, pecadora, ainda que com a consciência de que a perfeição é um objetivo inapreensível.



As narrativas que nos comovem, que nos falam e nos mudam, analisam-nos em pleno. Para alcançar esse distanciamento, os artistas devem, no entanto, repudiar orientações de partidos e ideias geralmente aceites



Também o artista mantém a fé no ideal de perfeição: essa esplendente precisão que nos emociona e nos confunde nas fugas de Bach, nas pinceladas de Vermeer e nas frases de Flaubert. O processo parte do empenho no máximo rigor, e de uma igual atenção à capacidade e à desilusão. Quando um diabo te tenta a suspender a tua falta de confiança em ti mesmo, deves resistir-lhe. O cliché é uma forma de rendição. E também o é a pieguice. O sentimento autêntico não pode ser canalizado nos estreitos sulcos do sentimentalismo.

Os santos Agostinho, Teresa e Francisco incarnam esta resistência nos seus escritos. Tal como não há coragem sem medo, transcendência sem humildade e redenção sem uma onerosa renúncia – a palavra, na origem, significava “resgate” –, também a dúvida é essencial para o trabalho do artista.

O trabalho de narração exige fidelidade à palavra, e, se se é crente, ao Verbo. Exige fidelidade à verdade sobre a natureza humana, que reside nos seus paradoxos. A mensagem do pontífice recordou-me um dilema que tive de enfrentar há mais de dez anos, na recensão ao trabalho de Leni Riefenstahl, a fotógrafa e cineasta alemã que exaltou a ideologia do nazismo. O “génio” de Riefenstahl quase nunca foi colocado em discussão, nem sequer por aqueles críticos que desprezam o serviço ao qual ela prestou. Mas, no fim, é preciso perguntar se um produto criativo conta como obra de arte, especialmente como uma grande obra de arte, se exclui – como aconteceu com ela – o facto esmagador da fraqueza humana. Esse facto é a fonte da emoção e da tensão dramática de toda a narrativa duradoura que nos pode vir à ideia, incluindo a Bíblia.

Não há nada de divino num narrador, a não ser por um aspeto. Ele vê-nos tal como somos. As narrativas que nos comovem, que nos falam e nos mudam, analisam-nos em pleno. Para alcançar esse distanciamento, os artistas devem, no entanto, repudiar orientações de partidos e ideias geralmente aceites. Devem escrever não tanto sobre aquilo que sabem, mas sobre aquilo que não sabiam saber até o terem regatado da obscuridade. A verdade recuperada gera um choque que não pode ser simulado. Na obra de um virtuoso, da técnica como também do sentimento, o espanto não se dissipa nem sequer com o passar dos séculos.

O choque da identificação que nos provoca um texto de grande importância, qualquer que seja a sua forma – a “Odisseia”, as poesias de Emily Dickinson, a narrativa popular africana mantida vida durante milénios através da transmissão oral, ou a memória de um refugiado contemporâneo –, talvez não seja um bálsamo para as nossas feridas, mas confirma a nossa afinidade no dilema de seres humanos.


 

Judith Thurman
Escritora
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Zeferli/Bigstock.com
Publicado em 02.03.2020

 

 
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