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«As medidas drásticas nem sempre são boas»: Papa pede aos pastores proximidade ao povo e critica «evangelho do clericalismo»

O papa Francisco rezou hoje, dia em que completa sete anos da eleição, pelos «doentes» e «famílias que sofrem» a pandemia do Covid-19, tendo orado igualmente pelo clero, para que tenha a coragem de continuar próximo das pessoas, apesar das restrições impostas pelas autoridades.

«Queria também rezar hoje pelos pastores, que devem acompanhar o povo de Deus nesta crise. Que o Senhor lhes dê a força, e também a capacidade de escolher os melhores métodos para ajudar», pediu Francisco na introdução à missa a que presidiu esta manhã, na casa de Santa Marta, no Vaticano.

«As medidas drásticas nem sempre são boas. Por isso, rezemos para que o Espírito Santo dê aos pastores a capacidade de discernimento pastoral, a fim de que providenciem medidas que não deixem sozinho o santo povo fiel de Deus. Que o povo de Deus se sinta acompanhado pelos pastores, e pelo conforto da Palavra de Deus, dos sacramentos e da oração», afirmou.

Na homilia, ao meditar sobre o Evangelho proclamado nas missas desta sexta-feira (Mateus 21, 33-43.45-46, cf. Umbrais), Francisco retomou uma das tónicas do seu pontificado, a crítica à excessiva predominância do clero na vida da Igreja.

A parábola contada por Jesus fala dos servos a quem foi arrendada uma vinha, e que, no tempo da colheita, espancaram os enviados do proprietário, chegando ao ponto de matar o seu filho, convencidos de que, dessa forma, ficariam com a sua herança.



«Nesta atitude eu vejo, talvez, o início do evangelho do clericalismo, que é uma perversão, que renega sempre a eleição gratuita de Deus, a aliança gratuita de Deus, a promessa gratuita de Deus»



Trata-se de «uma história de infidelidade à eleição, de infidelidade à promessa, de infidelidade à aliança, que são um dom de Deus – infidelidade ao dom de Deus», o observou o papa, que acrescentou: «Não compreenderam que era um dom, e tomam-no como propriedade deles. Apropriaram-se do dom».

«O dom que é riqueza, que é abertura, é bênção, foi fechado, enjaulado, numa doutrina de muitas leis; foi ideologizado. E assim perdeu a sua natureza de dom, e acabou numa ideologia, sobretudo numa ideologia moralista, cheia de preceitos, ainda que ridícula, porque desce à casuística», afirmou.

Para Francisco, a apropriação do dom de Deus «é o grande pecado», e por isso «a promessa já não é promessa, a eleição já não é eleição, a aliança é interpretada segundo o parecer pessoal, ideologizada».

«Nesta atitude eu vejo, talvez, o início do evangelho do clericalismo, que é uma perversão, que renega sempre a eleição gratuita de Deus, a aliança gratuita de Deus, a promessa gratuita de Deus. Esquece-se a gratuidade da revelação, esquece-se que Deus se manifestou como dom, fez-se dom para nós, e nós devemos dá-lo, fazê-lo ver aos outros como dom, não como posse nossa», assinalou.

Depois de comentar que tanto «o clericalismo» como «a rigidez» já existiam no tempo de Jesus, Francisco lembrou que o Evangelho segundo Mateus vai referir, no capítulo a «ira de Deus contra aqueles que tomam o dom como sua propriedade, e reduzem a sua riqueza a caprichos ideológicos da sua mente».

«Peçamos ao Senhor a graça de receber o dom como dom, e transmitir o dom como dom, e não como propriedade, não de um modo sectário, de um modo rígido, de um modo clericalista», concluiu.








 

Rui Jorge Martins
Imagem: Papa Francisco | Vatican News | D.R.
Publicado em 13.03.2020

 

 
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