Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

A “Ascensão” de Bill Viola

O trabalho de Bill Viola (Nova Iorque, 1951) pode sempre ser decifrado de diferentes pontos de vista, e, como numa escavação arqueológica, pode ser lido em diversos estratos de interpretações e referências. O próprio Viola deixa muito espaço ao observador, não emitindo interpretações unívocas dos seus trabalhos.

Partamos do objeto que temos à frente: é uma vídeo-instalação do ano 2000, originalmente de 10 minutos, que nos domina, com três metros de altura e dois de largura. Isto quer dizer que o nosso campo visual é todo ocupado pela obra, e dessa maneira também o nosso corpo está todo “imerso” na obra. Além disso, sempre por opção do artista, estamos numa câmara escura, não há muito mais para onde olhar a não ser para a penumbra azulada da obra [- e é nestas condições que convidamos os nossos leitores a observar o vídeo, com ecrã inteiro e a meia-luz].

Depois há o título: “Ascensão”. No entanto, mais do que uma ascensão observamos uma imersão. Só no fim, se soubermos esperar, veremos que o corpo do homem que se imerge, lentamente sobe como se fosse uma ascensão. Porquê esta opção? Podemos partir da posição que o ator assume ao cair na água, que é claramente em forma de cruz, portanto, de crucifixo.

Não estamos a observar, simplesmente, um homem que está a mergulhar na água, mas um ator que está a utilizar o seu corpo e o meio da água para nos dizer alguma coisa. A posição assumida por Josh Coxx é inatural para um mergulho, mas é precisamente essa posição que quer referir-nos a Jesus. O poder desta imagem é também amplificado pelo som (outro elemento imersivo para o observador) e pelas bolhas de ar que o corpo faz subir à superfície.



O vídeo utiliza a técnica do “slow motion”, que Viola utiliza com frequência, por vários motivos. O primeiro, é fazer notar ao observador a passagem do tempo, que parece um tempo infinito, mas é o território em que decorrem as nossas histórias pessoais



Esta “descida” é também uma “subida”: «Aquele que desceu é precisamente o mesmo que subiu muito acima de todos os céus, a fim de encher o universo» (Efésios 4,10). O crucificado desce e sobe ao céu.

Por que se imerge na água? Poderíamos dizer que parece um batismo, mas é muito mais. Cristo desce na natureza humana, que seria uma natureza terrestre, enquanto aqui é uma natureza aquática. Utilizar a água serve para sublinhar a ideia de estar totalmente “imerso” numa realidade, a qual cria também um forte atrito aos movimentos.

Jesus, «que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus, no entanto, esvaziou-se a si mesmo,tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens e sendo, ao manifestar-se, identificado como homem, rebaixou-se a si mesmo,tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Por isso mesmo é que Deus o elevou acima de tudoe lhe concedeu o nome que está acima de todo o nome» (Filipenses 2,6-9).

Também nós, como se dizia a propósito das medidas da obra, estamos imersos juntamente com Cristo, Ele entra na nossa natureza humana, mantendo a sua prerrogativa divina. Vem viver no meio de nós.



A posição que o ator assume na subida é a das ascensões pintadas durante o renascimento. Viola viveu a juventude artística em Florença, e o seu trabalho foi fortemente influenciado pelas obras renascentistas que viu na cidade



O vídeo utiliza a técnica do “slow motion”, que Viola utiliza com frequência, por vários motivos. O primeiro, é fazer notar ao observador a passagem do tempo, que parece um tempo infinito, mas é o território em que decorrem as nossas histórias pessoais. A segunda razão é que, ao abrandar as imagens, emergem todos os particulares, temos tempo de nos determos nas bolhas que sobem, nos movimentos do ator, que em tempo real nos teriam escapado.

O corpo emerge lentamente (o vídeo, infelizmente, só em parte dá conta desta passagem, mas o corpo sobe lentamente até desaparecer). Não é a força do ator que o faz subir, não mexe as pernas como se nadasse, mas há uma força externa que o faz reemergir, sobe, regressa ao lugar do qual tinha descido. Deixa a nossa natureza de homens e mulheres na água para subir.

A posição que o ator assume na subida é a das ascensões pintadas durante o renascimento. Viola viveu a juventude artística em Florença, e o seu trabalho foi fortemente influenciado pelas obras renascentistas que viu na cidade.

O Crucificado ressuscitado assumiu a nossa natureza e voltou ao Pai, na expetativa de regressar e fazer-nos participantes (imergindo-nos) do seu Reino.








 

In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Ascension" (det.) | Bill Viola | D.R.
Publicado em 25.05.2020

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos