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Política, cultura e espiritualidade

Assunção Cristas: «Ser católico é aprender a dizer sim muitas vezes»

Em entrevista à edição de 2 de julho do semanário “Expresso”, a ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território fala sobre a herança que a educação cristã legou à sua participação na vida política. Excertos da conversa com o jornalista Filipe Santos Costa.

 

Fale-me da atividade ligada à Igreja

Eu tive uma formação católica, andei num colégio católico, onde andam os meus filhos, e quando entrei para o liceu fiquei ligada a um grupo de jovens nos Jerónimos [Lisboa], que era a minha paróquia. Sempre tive atividade social – visitava velhinhos em lares, quando estava na faculdade trabalhei com o Banco Alimentar, que na altura estava a arrancar, distribuía comida aos sem-abrigo. A minha sensibilidade social estava muito ligada à atividade de voluntariado.

 

Cumpre os rituais católicos? Vai à missa, comunga?

Vou à missa, comungo, digo aos meus filhos que a coisa mais importante para fazer ao domingo é ir à missa e que tudo o resto vem a seguir. Eu ia com os meus pais sempre à mesma missa e acho que isso foi uma coisa altamente construtiva e pedagógica, porque me ensinou a ser resiliente. Íamos ao meio-dia aos Jerónimos e eram umas missas muito, muito, muito chatas. Tínhamos de aguentar uma hora, direitinhas, e eu ia supercontrariada. Mas hoje olho para trás e acho que foi muito formativo. E fiz com naturalidade o percurso da fé herdada para a fé vivida.

 

Nunca teve dúvidas, fases de questionamento em relação à fé?

Não. Sempre foi muito natural. Volta não volta, pergunto-me se isto faz sentido, mas são flashes. E acabo por concluir que tudo o que faço por ser católica, tudo o que são os ensinamentos, fazem sentido, portanto continuarei a viver desta forma.

 

Sente que isso faz de si uma pessoa melhor?

Exatamente. Já tive experiências de vida suficientes para achar que a fé faz sentido. Assim sou muito feliz e esforço-me para ser melhor pessoa. Mas não inflijo aos meus filhos missas muito chatas. [risos]

 

Reza todos os dias?

Sim. Rezo todos os dias com os miúdos, e depois rezo sozinha e agradeço a Deus aquilo que tenho.

 

Pertence a alguma organização da Igreja?

Pertenço às Equipas de Nossa Senhora, onde tenho um magnífico padre assistente, o José Tolentino Mendonça, o que é uma grande graça, uma grande sorte.

 

Como é que o conheceu?

Quando ele era capelão da [Universidade] Católica e assistente espiritual das equipas de jovens a que eu pertenci. Nessa altura as pessoas das equipas começaram a ir muito à Católica para assistir às missas dele. Eu estava na [Universidade] Clássica e muitas vezes acabávamos as aulas à 1h e, como o padre Tolentino celebrava missa à 1h, íamos a correr para apanhar a missa dele.

 

Vale a pena correr por uma missa?

Vale a pena correr por uma missa. Do padre Tolentino, então, vale muito a pena. Aparecíamos às vezes a meio da homilia, outras vezes diretos para a fila da comunhão… E ele às vezes atrasava a missa pois sabia que vinha o grupinho da Clássica. Acabámos por nos tornarmos amigos, ele acompanhou-nos no namoro, casou-nos, batizou os nossos filhos.

 

Qual a importância dessa formação católica na sua intervenção política?

É muito importante. Ser católico é antes de mais aprender a dizer sim muitas vezes. Sim a uma série de coisas para as quais somos desafiados e que implicam, se calhar, renunciar a outras. A passagem da Bíblia em que Maria diz sim ao anjo sem saber bem ao que vai é uma coisa que os católicos aprendem de pequeninos. Eu procuro interiorizar isso. No referendo ao aborto, quando me dizem que é preciso participar na campanha do não, que é preciso uma mulher para escrever no blogue, eu acho que não tenho paciência para escrever todos os dias, mas a minha primeira predisposição, apesar disso, é dizer que sim.

 

Foi assim que tudo começou?

Foi. Escrevi um texto, escrevi dois, até que foi preciso escrever alguma coisa mais estruturada, para responder a um texto muito longo do Daniel Oliveira, e a pessoa responsável pelo blogue pediu-me isso. Escrevi o tal texto longo e, se calhar, começou tudo nesse texto.

 

Mudou a sua vida?

Mudou. Esse texto foi publicado a 31 de Dezembro e teve muitos comentários, foi muito reproduzido na Internet, e comecei a ser convidada para sessões de esclarecimento, que foi das coisas mais difíceis que fiz até hoje, mas que gostei muito de fazer. Depois a história é conhecida: fui ao “Prós e Contras” e o Paulo Portas viu. Quando ele me convidou para o CDS, pensei, falei com muita gente, e a maioria dizia-me: “Se queres ir para a política vai para o PSD, porque aí é que podes mudar algumas coisa”. Acabei por responder ao Paulo Portas que nunca tinha estado na política, só ouvia falar mal dos partidos, não sabia se ia gostar, se tinha jeito, mas que aceitava entrar à experiência.

 

Na sua cabeça era à experiência?

Era. Entrava como estagiária e logo via.

 

Para alguém que assume que a formação católica pesa em todos os aspetos da vida, a sua posição sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi bastante heterodoxa…

Foi heterodoxa e foi difícil, sobretudo porque senti que dececionei muita gente.

 

É importante para si sentir que não dececiona os outros?

É importante, no sentido em que devo atenção e respeito às outras pessoas, portanto não gosto de as dececionar. Neste caso dececionei porque as pessoas acham que os outros são em pacote: sou católica praticante, fui a favor do não no referendo ao aborto, logo teria de ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo… Mas as pessoas não são assim. Mesmo sendo católica empenhada, cada um tem a sua consciência, a que deve fidelidade. E, em consciência, no caso do casamento entre pessoas do mesmo sexo tive uma posição que não é a mais ortodoxa para os católicos. Curiosamente, acho que dececionei quase toda a gente: uns porque foi pouco, outros porque foi muito. Disse o que pensava, mas não votei a favor, porque devia fidelidade ao programa eleitoral do CDS – e nesse sentido cumpri o programa –, mas dececionei amigos e familiares que esperavam que eu fosse contra.

 

Para si qual era o argumento que se sobrepunha?

Se há gente que acha que pode ser feliz por esse caminho, eu não tenho o direito de entender que esse não é o caminho de felicidade para eles. E não há nada – enquanto católica, casa, mãe de filhos – em que possa sentir que isso me afeta, ao ponto de ser mais importante do que a felicidade de cada um. Eu não acho que, por duas pessoas do mesmo sexo poderem casar, isso destrua a família tradicional, ou conservadora, que no fundo é a minha família.

 

In Expresso, 02.07.2011
02.07.11

Assunção Cristas

 

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