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Até onde se pode debater na Igreja?

Questionar a Igreja não significa forçosamente colocá-la em questão. Entrevista à francesa Anne-Marie Pelletier, primeira teóloga a receber o prémio Ratzinger, considerado o “Nobel” da Teologia, sobre algumas das questões que perpassam o catolicismo de hoje, como o posicionamento das mulheres nas comunidades católicas, a Bíblia na vida da Igreja e o clericalismo.

 

Debater no seio da nossa Igreja parece-lhe ser hoje fácil?

Antes de falar das dificuldades do debate, parece-me que é preciso começar por colocar a questão da sua legitimidade na Igreja. A ideia está longe de estar adquirida. Ela continua a colidir mais ou menos na consciência comum com a distinção entre Igreja que ensina e Igreja que é ensinada, fortemente afirmada pelo concílio de Trento (séc. XVI).

Por um lado, o magistério é detentor do saber e da palavra. Do outro lado, o povo dos fiéis aquiesce na obediência às verdades da fé. O dogma da infalibilidade papal reforçou essa visão no século XIX, num contexto da resposta defensiva da Igreja sobre formulações intangíveis.

O concílio Vaticano II libertou-nos dessas estreitezas. Devolveu-nos a uma visão renovada, dinâmica, da vida da Igreja, aberta ao diálogo dentro dela e com o mundo deste tempo. Em 1964, já Paulo VI convidava a Igreja a fazer-se diálogo, palavra, conversação. E a natureza sinodal da Igreja tem sido fortemente reafirmada desde então.

Trata-se de todos andarem juntos, leigos, pastores, bispo de Roma, que enfrentem juntos as questões da vida da Igreja. Mas temos de reconhecer que mesmo hoje essa inteligência da identidade e da vida da Igreja continua a ser um pouco uma ideia nova...

 

Debater na Igreja será para alguns erguer obstáculos à unidade dos cristãos?

Considerar o debate é considerar que possa haver pluralidade na maneira de receber o Evangelho, de compreender a vida cristã, de organizar a instituição.

Ora, nós temos muitas vezes uma visão falseada do plural e da unidade. Pensamos o plural sob o signo da divisão ou do relativismo. É uma simplificação muito prejudicial. Porquanto o plural é em primeiro lugar o selo do excesso divino que a fé incorpora: é preciso polifonia para fazer emergir o rosto do Deus da revelação

E é preciso também fazer justiça ao plural, simplesmente porque a vida é complexa e porque é nesta complexidade que Deus está a abrir um caminho e que a Igreja é chamada a viver.

Abramos os Atos dos Apóstolos. Desde a primeira geração cristã houve debate entre uns e outros, por vezes dissensões sérias que obrigaram a reunir, a falar, a inventar a superação dos conflitos. Da mesma maneira, a história do concílio Vaticano II é a de um amadurecimento teológico que se fez através de um debate intenso entre os bispos do mundo.

É preciso que reencontremos confiança no diálogo e no debate, uns com os outros. O que requer incontestavelmente coragem, num momento em que a tendência pesada das sociedades é a de uma regressão para as convicções e identidades voltadas para elas mesmas.

 

Quais são as questões sobre as quais seria urgente desencadear o debate?

São obviamente numerosas. Algumas podem ser explosivas. É preciso, portanto, que comecemos por admitir que questionar juntos uma realidade da vida da Igreja não é “ipso facto” colocá-la em questão. Eu procuro defender, pela minha parte, a causa de uma sabedoria cristã que privilegie a confiança e a escuta do outro, o respeito pela complexidade da vida, sob o horizonte de uma Palavra de Deus que ninguém deve reivindicar ter o total conhecimento.

Tomemos o exemplo do celibato dos padres, que sabemos estar relacionado com os dramas da atualidade. Seria impossível refletir desde já em conjunto simplesmente sobre o sinal de que ele quer ser portador, sobre o acesso a este sinal na nossa sociedade, sobre as condições que permitem que seja vivido, ou então sobre o que significaria a ordenação de homens casados como na tradição oriental?

Num modo menor, secundário, penso também nas questões das “servidoras das assembleias” [acolhem os paroquianos, distribuem folhas/cadernos, acompanham o ministro da comunhão]. Um tema minúsculo mas que pode desencadear paixões atribiliosas, tendo em conta que a liturgia é uma realidade inflamável. E que, de facto, sob aparências folclóricas, dissimula questões de fundo sobre o acesso ao altar, e portanto sobre o feminino e o masculino na Igreja, sobre uma conceção “sacralizadora” da função presbiteral. Um verdadeiro estaleiro, na realidade, para uma explicação em conjunto acerca de matérias essenciais.

 

Há alguma questão que a sensibilize particularmente e da qual lamente a ausência de debate?

Tendo consagrado boa parte da minha vida a trabalhar as Escrituras, sou particularmente sensível à necessidade de fazer dela para a Teologia, mas também para a vida quotidiana dos cristãos, a fonte de inspiração e de conversão.

O papa Francisco convida cada um a tomá-las como companheiras de viagens no documento “Amoris laetitia” [sobre o amor na família]. É uma exortação soberba, mas como torná-la realizável?

E se é suposto que a Palavra de Deus irrigue toda a vida dos crentes, que resultado é que isso tem para aquilo que se denomina “diaconia da Palavra”? Onde e como é que ela se exerce na Igreja? Quem é responsável por ela na instituição eclesial? Não estou certa de que se possa ater à consideração da homilia dominical. Isto coloca problemas. Os leigos dizem-no em voz baixa. E o papa, em alta voz, reconhece que este é uma verdadeira questão.

De que maneiras plurais a Palavra de Deus pode ser servida, iluminar as inteligências e as práticas, hoje, na Igreja? Se falássemos mais disso nas comunidades cristãs…

 

E sobre a questão do clericalismo, de que o papa nos pede para sair?

É evidente que há abuso de poder na instituição eclesial, e de maneira mais impressiva quando esse poder se reivindica de uma autoridade divina. Nesse sentido, contesto um pouco uma maneira de relativizar os escândalos atuais ao invocar o facto de haver clericalismo na maneira como alguns leigos podem exercer as suas responsabilidades. Em todo o lado onde há poder nas nossas sociedades, há desvios e abusos. Mas o problema é levado ao extremo quando é de «direito divino» que um poder se exerce.

O remédio só pode ser o de reencontrar a justa identidade do sacerdócio ministerial [de quem é ordenado padre] na sua relação com o sacerdócio batismal [de todos os batizados]. O que implica desde logo renunciar a uma sacralização, que, aliás, já é pouco evangélica, da função presbiteral. Não dissimulemos que o clericalismo se joga já numa certa maneira de isolar o padre numa excelência que o coloca acima de todos.

Os leigos têm uma certa parte de responsabilidade nesta distorção da identidade sacerdotal. O remédio é simultaneamente retomar a medida da dignidade e da missão inerentes ao Batismo. A exortação “Gaudete et exsultate”, que descreve longamente o que é a vocação de todos à santidade, é nesta matéria uma boa leitura, a recomendar.

 

Como fazer mexer as coisas, depois de séculos de sacralidade?

Há nos humanos que somos um gosto atávico pela sacralização. É, aliás, próprio ao mundo pagão, de acordo com as Escrituras bíblicas, responder amplamente a essa demanda. A frequência das Escrituras é aqui um excelente antídoto. Um só é santo, como um só é Sacerdote. Dito isto, é preciso que o povo cristão ouça mais vezes da boca dos seus sacerdotes como se pode conhecer melhor segundo toda a grandeza da sua vocação batismal. O que implica, evidentemente, que estes últimos sejam treinados no seminário a pensar e viver uma eclesiologia de comunhão.

 

O arcebispo de Paris pede que haja mulheres presentes nos seminários e que participem no processo de discernimento. Que pensa sobre isso?

Está aí, obviamente, uma proposta maior. Mas, apesar das evoluções positivas – o próprio facto de considerar o assunto –, é claro que a realização a curto prazo de um tal projeto é problemática. Os seminários voltam cada vez mais hoje a ser um microcosmo, onde os padres são formados exclusivamente por padres, sem abertura a esse exterior que será, no entanto, o lugar do seu ministério e das suas responsabilidades. Como subir esse monte? Confesso por agora o meu pessimismo.

 

A senhora, enquanto teóloga, é convidada a ir aos seminários? A sua palavra é aí escutada?

Sim, e isso faz parte das novidades felizes da vida da Igreja. Eu ensino no seminário há alguns anos e hoje sou mesmo solicitada para orientar retiros a padres, como faço há muito tempo em comunidades monásticas, inclusive masculinas.

Mas, ao mesmo tempo, sou obrigada a constatar que o corpo docente feminino diminui nos seminários que já lhe foram acolhedores. É evidente que alguns seminaristas rejeitam aprender a teologia da boca das mulheres.

No entanto, seria essencial que o curso de eclesiologia, em particular, fizesse justiça a uma inteligência de Igreja aberta à sua amplitude total, lembrando que o sacerdócio batismal é englobante, como o recorda fortemente o papa Francisco.

 

Afirma que há hoje menos mulheres nos seminários. É porque não são convidadas ou porque há menos mulheres formadas para o ensino da teologia.

Há todo um viveiro de mulheres formadas, que têm todos os diplomas canónicos necessários. Mas, como é recordado a meia voz àquelas que exprimem o desejo de se formar, os diplomas não lhes garantem qualquer direito a aceder a responsabilidades eclesiais. (…)

 

E todavia o debate sobre o lugar da mulher na Igreja não é novo.

Digamos que, após o papa João XXIII ter feito da promoção das mulheres um «sinal dos tempos», a instituição eclesial abriu-se à presença e à experiência das mulheres na Igreja e nas sociedades. Recuso banalizar esta novidade.

Mas, com o recuo do tempo, medimos hoje as dificuldades que permanecem em superar para que a Igreja exista, pense, aja associando verdadeiramente homens e mulheres na sua teologia e no seu governo. É preciso reconhecer que alguns discursos de celebração da mulher fazem correr o risco de ter as mulheres à distância da vida concreta da Igreja.

Continua a haver muito a fazer para que ela integre o feminino no plural, se assim ouso dizer. Para que as mulheres cristãs, na diversidade dos seus estados e das suas condições, sejam reconhecidas como parte da missão da Igreja.

 

Parece-lhe que o papa Francisco está consciente disso?

Estou convencida de que, pela sua longa experiência de homem e de pastor, o papa Francisco tem uma visão clara do problema. Na medida em que pode – mas um papa não é todo-poderoso –, tem a preocupação de favorecer uma verdadeira promoção das mulheres no governo da Igreja.

Ao mesmo tempo, ele reabre concretamente a nossa eclesiologia à amplitude do que ele chama «o povo santo de Deus». E ainda opera concretamente a sinodalidade, da qual reencontrámos o sentido e a urgência durante as últimas décadas, mas que está a custar a entrar verdadeiramente na cultura dos cristãos. Como sabemos, ele apela vigorosamente ao povo dos batizados, a quem relembra insistentemente a sua dignidade e missão. O apelo está lançado. Resta responder-lhe.



 

Sophie De Villeneuve
In Croire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 10.01.2019

 

 
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