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Olhares cruzados

Bíblia deitou-se no divã e foi analisada por psicanalistas

Paranoia, neurose, depressão, descompensação psíquica e delírio foram alguns dos termos evocados a 7 de abril, em Lisboa, para qualificar personagens e narrativas de três textos bíblicos, durante um encontro que juntou teólogos católicos, psiquiatras e psicanalistas.

Cerca de 130 pessoas lotaram o auditório e espalharam-se pelas escadas da Casa Fernando Pessoa durante a segunda sessão do ciclo de conversas “A Bíblia, coisa curiosa”, dedicada à relação entre o conjunto de livros sagrados para os cristãos e a psiquiatria e psicanálise.

O padre José Tolentino Mendonça, que colaborou na organização da iniciativa, qualificou o encontro de «memorável» e defendeu que a «colaboração entre biblistas e psiquiatras é utilíssima» para perceber que «a Bíblia precisa de desconstrução».

As «leituras cruzadas» começaram com a análise ao segundo e terceiro capítulos do livro do Génesis, que para o teólogo Armindo Vaz constituem um «mito», género literário que «dá expressão ao que todo o ser humano crê» mediante uma «linguagem da fé e do profundo significado das coisas».

O professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica salientou que os mitos expressam «medos» e «aspirações» da «condição humana», revelam «a história secreta da alma» e por isso têm ligações com a psicologia.

Por seu lado, a psiquiatra Ana Catarina Silva Duarte referiu-se à serpente, presente no relato, como «símbolo de toda a libido e da sexualidade» mas também da «maldade» e «astúcia».

A especialista acredita que o texto manifesta o «psicodrama pessoal do crescimento», inserindo-se num «quadro neurótico» onde faltam a «alegria» e a «festa», que apesar de fazerem «parte da vida» não entram na narrativa, que qualificou de «muito depressiva».

A dupla seguinte de oradores refletiu sobre o livro de Job, que para a biblista Luísa Almendra criou no imaginário popular a figura de um personagem que «soube permanecer paciente perante um conjunto de adversidades terrivelmente dolorosas».

Diante do «sofrimento imerecido e inexplicável», o leitor aprende que a «grande questão» do ser humano é o «sentido» da existência, atravessada por sofrimentos que, ao atingirem «limites inesperados», colocam em causa a convicção de que as boas ações resultam necessariamente numa vida favorável.

Filipe Sá começou por notar que Tolentino Mendonça «deu o peito às balas» ao convidar um psicanalista ateu, e disse que até então desconhecia o livro de Job – «Temos uma Bíblia cá em casa?», perguntou à mulher.

O especialista, que se descreveu como uma pessoa que «perscruta a dor» de quem passa pela «capela psicanalítica» do seu «divã», assinalou que a «dúvida» sobre os méritos do protagonista provocou o «cataclismo» numa personalidade «frágil», que além de «muito paranoica» crê ser imune à «inveja» e à «raiva».

Místicos e psicanalistas separam-se frequentemente «na natureza das suas crenças» mas encontram-se «no silêncio do seu ser», afirmou Filipe Sá, aludindo à falta de explicação com que ambos se defrontam face ao não saber e à aparente ausência de Deus.

O encontro, que começou com a evocação da psicanalista Françoise Dolto, feita pelo escritor Alberto Vaz da Silva, terminou com as intervenções do padre José Tolentino Mendonça e da psiquiatra Emília Leitão, que debateram “A hospitalidade de Marta e Maria”, evocando uma das passagens do evangelho segundo São Lucas.

 

Rui Martins
In Agência Ecclesia
16.04.11

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