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Leitura: “Capela Imaculada. As pinturas”

«As pinturas, descritas neste livro, são parte de uma completa remodelação da Capela Imaculada em Braga, igreja construída logo após a guerra com a então escassez de material para se relacionar com a construção. Agora foi reconstruída com novas ideias, formas e funções, no entanto com bases sólidas quanto à sua história. O qual se tornou, de facto, uma história em si mesma». Podemos dizer nas simples palavras de Heidegger, toda a obra de arte espelha uma clareira, na qual o ente se revela, e a obra de arte se abre.

Com estas sóbrias palavras, Lisa Sigfridsson introduz o livro “Capela Imaculada. As pinturas”, que acaba de ser publicado, pela chancela do Seminário de Nossa Senhora da Conceição, Braga. A obra reúne textos que foram escritos pela pintora sueca, Lisa Sigfridsson, nos quais «ela partilha os seus pensamentos acerca do trabalho e das escolhas no caminho que teve de ser percorrido durante o processo» (contracapa). A edição é bilingue, em português e inglês. A tradução foi feita por Joana Jacinto. Da autoria de Joaquim Félix de Carvalho são as fotografias de todos os ícones, com detalhes e enquadramentos.

Todos os ícones foram escritos sobre madeira de tília, com pigmentos naturais. A técnica foi a da pintura a têmpera, para conservar a sua frescura e o brilho, com aplicações de ouro de lei. O programa icónico da capela da Imaculada compreende a Via Crucis, numa versão económica, com estações visíveis e invisíveis, para imprimir ritmo didascálico-mistagógico e acentuar a pertinência, inclusivamente social (através da seleção dos encontros de ajuda no caminho da cruz), à história sobejamente conhecida; a Via Lucis, que se encontra na parede do lado nascente; uma iconóstase formada por um ícone em cinco partes, relativos à invocação de Nossa Senhora da Ternura; e, mais recentes, dois trípticos: Anunciação e Assunção, para abrir nas respetivas comemorações litúrgicas.



«A opção pela pintura a têmpera com tonalidades intensas cria as dimensões do espaço e do tempo dos relatos. A própria cor torna-se parte da narrativa por meio das emoções e memórias afetivas que suscita. A apresentação sequencial das telas traz novamente à luz o drama contido nos relatos através da intensidade, em grau variável, de cores e formas, para acontecimentos sucessivos, por contraste com o monótono e monocromático»



No prefácio, Kajsa Frostensson, Diretora da Galeria de Arte Vänersborgs konsthall, na Suécia, sublinha o «novo modo de olhar» os relatos da vida de Jesus e Maria, promovido por Lisa Sigfridsson nos ícones: «É sobretudo a narrativa pictórica de Sigfridsson que dá ao relato uma outra perspetiva. Cada história toma forma mediante uma visão de conjunto ora reduzida, paracertas imagens, ora ampliada, para os pormenores. Sigfridsson terá talvez tomado deempréstimo esta técnica narrativa do universo fílmico. Ali as histórias constroem-sediante os nossos olhos através de janelas alternadas de diferentes cortes, isto é, sequências que fazem avançar a história. É criado um ego narrativo, ou seja, um sujeitoque conta a história como uma série de experiências pessoais e imagens mentais. Esteexpediente permite a Sigfridsson dar uma vida nova à sua abordagem e, também,produzir uma compreensão original acerca dos relatos bíblicos».

Relativamente à técnica de escritura dos ícones, a têmpera, usada pela iconógrafa, Kajsa sublinha outras dimensões, que não apenas a da frescura e o brilho: «A opção pela pintura a têmpera com tonalidades intensas cria as dimensões do espaço e do tempo dos relatos. A própria cor torna-se parte da narrativa por meio das emoções e memórias afetivas que suscita. A apresentação sequencial das telas traz novamente à luz o drama contido nos relatos através da intensidade, em grau variável, de cores e formas, para acontecimentos sucessivos, por contraste com o monótono e monocromático».



«A contemplação subjetiva que perpassa as telas não consiste necessariamente numa tentativa de fazer da fé uma experiência pessoal, mas ajuda a que assimilemos, num plano muito pessoal, aqueles relatos, o que aumenta a sua complexidade»



Kajsa Frostensson completa a sua apreciação, recorrendo à experiência que Lisa Sigfridsson tinha realizado numa exposição, concebida com Asbjörn Andresen, na Galeria Vänersborgs konsthall: «Sigfridsson já havia trabalhado antes, designadamente no projecto Open form [Forma aberta], o modo como a cor, a forma e o espaço interagem e nos afectam. NaCapela Imaculada a artista põe em prática os resultados daquela investigação, aojogar com as cores dos quadros sobre a nudez da parede de pedra. Um jogo, por vezes,de cuidadosa harmonia, outras vezes de contrastes e drama, o que novamente reforçaa narrativa e salienta as características próprias do espaço da capela».

Em relação aos enfoques, que Lisa desenvolve ao ampliar determinados gestos ou detalhes, Kajsa relaciona-os com o próprio dinamismo da fé. Sem cair em ‘subjetivismos’, ela experimenta-se na convocação de cada pessoa ao contemplar os ícones numa relação epifânica que supõe a experiência afetiva: «Deve contudo assinalar-se que a contemplação subjetiva que perpassa as telas nãoconsiste necessariamente numa tentativa de fazer da fé uma experiência pessoal, masajuda a que assimilemos, num plano muito pessoal, aqueles relatos, o que aumentaa sua complexidade. Ampliar as mãos que seguram a rede, Maria que olha os pés deJesus crucificado, ou a mão de Maria que segura ternamente o Menino Jesus tem umsignificado que se torna claro na austeridade da forma-linguagem escolhida, e quefacilmente encontra tradução nas experiências e sentimentos de cada um», ou seja, como nos diz a Sophia: «Mesmo no azul extremo da distância / Lá onde as cores todas se dissolvem / O que chama é só a minha vida» (Poesia, 82).

Na página 93, Lisa Sigfridsson deixa um agradecimento final: «Quero expressar a minha profunda gratidão, no final deste livro, aos parceiros que cooperaram no grupo de trabalho, que, convidando-nos para esta obra bastante complexa, demonstraram confiança e acreditaram. Com essa confiança, deram-nos toda a liberdade para levarmos a cabo a nossa missão, de acordo com os nossos próprios pensamentos e capacidades, o que deu uma força extra ao nosso trabalho. Obrigada».


 

Pedro Daniel Fraga
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 01.10.2020

 

Lisa Sigfridsson

Título: Capela Imaculada. As pinturas
Autores: Lisa Sigfridsson, Joaquim Félix de Carvalho (fotografia)
Editora: Seminário de Nossa Senhora da Conceição - Braga
Páginas: 96

 

 
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