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Cozinha, lugar do quotidiano e da glória

Ao longo dos séculos, o ser humano não só consumiu recursos presentes no seu ambiente – frutos e animais –, mas bem cedo aprendeu a produzi-los através da agricultura e da criação, duas atividades que lhe permitiram domesticar plantas e animais. O frumento selvagem foi transformado em grão e os animais foram introduzidas na casa, para ficarem disponíveis como alimento. Por outro lado, plantas, animais e humanos são co-criaturas, e a vocação que receberam desde o início é a de habitar juntos a Terra, de viver juntos ajudando-se uns aos outros.

A novidade para o ser humano ocorreu no dia em que se pôs a cozinhar. Concretizou alguns gestos: acender o fogo, colocá-lo sobre a carne para a assar, acompanhar a carne com alguns vegetais (uma cebola, por exemplo), banhá-la com um pouco de suco de oliveira ou de uva…, e a cozinha acontece. Desde então a cozinha transforma frutos, ervas e animais, misturando-os, cozendo-os na água ou assando-os, e a gastronomia dá os seus primeiros passos. Transmitem-se as experiência, tenta-se a criatividade, fazem-se descobertas, e a cozinha surge como o fruto do ambiente natural, mas também da cultura de um povo. Aprende-se a cozinhar vendo bem, contemplando as mãos peritas dos cozinheiros, exercitando-se a usar os utensílios necessários, procurando obter aquilo que quem cozinha quer manter secreto.

Na cozinha há exercício, busca, escolha, limpeza e rejeição, assumir a herança recebida, aventurar-se no terreno das descobertas, passar os alimentos pelo fogo de maneiras mil, fazer pratos em que resplandece a beleza, servi-los à mesa com o selo do dom e do amor. A cozinha é o lugar da arte quotidiana, mas é, sobretudo, o lugar em que cada pessoa pensa, projeta, se exercita a dar prazer aos outros. Quem cozinha, com efeito, só cozinha bem se o faz para os outros e pensando nos outros, entrando no seu desejo. Não se pode cozinhar por cozinhar: a cozinha ou tem destinatários, ou não é cozinha. Não se faz cozinha só para dar de comer (ainda que isso ocorra por falta de paixão pelas relações), mas faz-se do que comer como se predispõem os gestos no fazer o amor.

A cozinha é também um lugar de atenção para o hóspede que virá, pensando no que poderá comer, no que lhe agradará, no que lhe fará bem e mal. Em resumo, é preciso obedecer à gastro-nomia, às leis do estômago do hóspede. A cozinha, finalmente, é um lugar de glória, porque as coisas, tornando-se alimentos, pratos servidos à mesa, aumentam o peso (“kabod”, em hebraico), sofrem um processo de transformação, e o olhar é implicado no comer, tanto quanto a boca e o olfato. Cozinhar é ação só humana, não conhecida pelos outros viventes sobre a Terra. É, de facto, humanismo, porque convoca homens e mulheres, convoca plantas, animais e também minerais (o sal), cantando assim o sabor do mundo.


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: kovalnadiya/Bigstock.com
Publicado em 18.02.2020

 

 
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