Impressão digital
Paisagens
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosIgreja e CulturaPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosPerspetivasConcílio Vaticano II - 50 anosPapa FranciscoBrevesAgenda VídeosLigaçõesArquivo

Leitura

Daniel Faria «é um dos nossos maiores poetas do século XX»

«... le sacré est Ia source de toute poésie» [o sagrado é a fonte de toda a poesia], disse C. F. Ramuz. Cita-o Manuel Antunes num dos ensaios coligidos em Legómena - Textos de Teoria e Crítica Literária (IN-CM, 1987), intitulado "Poesia e Ontologia", trabalho dedicado a Vitorino Nemésio e onde se procurava relacionar a poesia e a ontologia, «duas superiores instâncias do humano dizer».

Se a poesia implica, numa operação de síntese, uma ontologia, a ontologia seria, pela análise, uma explicação do Ser que, não raro, poeticamente se realiza. Mas a poesia, no seu dizer, na sua densidade ontológica de discurso, concretiza-se por meio de imagens, metáforas, mitos, ritmos, símbolos, obedecendo à lei da analogia, assim fazendo corresponder o poema - objeto verbal - com aquilo que esse objeto pretende nomear e presentificar (ideias, vivências dum sujeito, sentidos e emoções, posicionamentos ideológicos, reflexões estéticas, o mais que houver...). Ao dizer o real, ao querer iluminá-lo, o poeta radicaliza a experiência do mundo através da experiência da linguagem. É nesse sentido radical, porque vai até à raiz do humano naquilo que o define, que Manuel Antunes aproxima a poesia da ontologia e estas do sagrado. Ao tempo, Vitorino Nemésio. Para o nosso tempo (tempo poético, entenda-se), Daniel Faria.

O autor de Dos Líquidos tem agora a sua obra reunida. Os três livros da maturidade, digamos assim, em que melhor se patenteia uma voz singular no panorama lírico português dos últimos 20 anos (os primeiros escritos de Faria remontam aos primeiros anos da década de 90) são, diacronicamente, os seguintes: Explicação das Árvores e de outros Animais (Fundação Manuel Leão, 1998); Homens que São Como Lugares Mal Situados (também de 1998 e publicado pela mesma fundação) e, Dos Líquidos, publicado já em 2000. Anteriores a esses três livros «da idade adulta» (como se diz no índice), tinha publicado, para circunstâncias diversas, três livros: Uma Cidade com Muralha (1992); Oxdíida (1992, assinado com pseudónimo - Cérjio Lage - e destinados, esses textos, a concurso literário) e, de 1993, A Casa dos Ceifeiros, assinada com o nome de Daniel Augusto.

O volume que agora chega ao leitor, tudo abarcando, perfaz 440 páginas de textos, publicados e inéditos, dando conta do labor dum poeta que, apesar de desaparecido aos 28 anos, é hoje considerado uma das últimas revelações sérias e reais da nossa poesia. A obra, em todo o caso, terá ficado a meio. Como Cesário ou Pessanha, Sá-Carneiro, Sebastião da Gama ou Luís Miguel Nava, cujas obras foram subitamente interrompidas, a morte pôs-se de permeio e tornou impossível perceber, na totalidade, os trilhos de uma poética que ainda tinha imenso a oferecer.

De resto, Daniel Faria, cerca de dez anos após a sua morte, goza duma aura justa - que a morte prematura mitifica e que, de algum modo, se deve à ressonância dos seus poemas entre os mais jovens leitores da poesia. Há não muito tempo foi-nos possível testemunhar, num encontro sobre a literatura portuguesa das novas gerações, a recetividade de leitores entre os 16 e os 24, 25 anos, relativamente a Faria. Creio que essa recetividade se prendeu com algo que, quanto a nós, é o motivo de interesse principal neste poeta; precisamente a importância que se dá às imagens e às metáforas, ao ritmo e aos símbolos. Os ecos de certa religiosidade, a presença dum deus ausente a que a palavra poética se dirige, bem como a construção segura dos efeitos de citação ou de apropriação da tradição bíblica (as referências ao livro do Êxodo, a figuras como Ezequiel ou Zacarias, à Damasco dos "Atos dos Apóstolos", a místicos como São João da Cruz ou Santa Teresa, à figura de Isaac...) relacionam-se com esse fundo simbólico e imagético em que os textos evoluem. Não por acaso o tópico da casa (que reenvia a Ruy Belo ou a Novalis, mas também a Heidegger, para quem «a linguagem é a casa do Ser»), recorrente, é pretexto para se pensar sobre a existência da poesia como pesquisa e procura de uma diafaneidade perdida. O seu último livro, sobre os líquidos sagrados, dos líquidos da origem, «das nascentes», aos líquidos inesgotáveis (terceira secção desse volume e onde se atingem momentos de fulgurante poesia, luminosa e urgente, como se pode ler em poemas como «Amo-te na carne que tomaste no chão que aplaino», «Transforma o coração na coisa desamada» ou «Ele é o cavador e o trabalho e a vinha»), elabora-se em torno «do sangue», «das inúmeras águas», do «ciclo das intempéries», que é como quem diz, da procura incessante de um sentido para a ausência de Deus no mundo. Pode ser o deus de Faria substituído por outros termos, o mais emblemático dos quais é o termo «magnólia», mito e símbolo, vestígio e um termo que designa, por metonímia, esse outro termo - Deus - perdido e encontrado: «Quero dizer-te que esta magnólia que não é a magnólia / Do poema de Luíza Neto Jorge que nunca veio / A minha casa -ela própria dava flor / Ela riscava nas folhas / Ela era grande mesmo quando a magnólia não crescia / / Esta magnólia não é como a dela uma magnólia pronunciada / É uma magnólia de verdade a todo o redor - maior / E mais bonita que a palavra».

De facto, de entre os poetas revelados nos anos 90 e 2000, o que afasta Daniel Faria da presunção da poesia como discurso tendencialmente descritivo, obrigatoriamente jogado nos limites da denotação empobrecida, é essa lucidez quanto às especificidades do poema enquanto objeto verbal e por isso mesmo ontologicamente poético. Fala-se de uma «magnólia de verdade», que se não cinge à mera nomeação ou descrição do simbólico-escrito «magnólia». Dir-se-á que a magnólia é também o poema, o texto. Mas não. O que Daniel Faria procurou tecer foi uma fala que eliminasse as fronteiras entre a pronúncia das coisas, a sua textualidade (ou figuralidade), e a natureza (ceifeiros, chuva, copas de árvores, plantas, gados, correntes aquáticas, barcos, golfinhos...) tal qual ela pode ser apreendida por um olhar ingénuo. Por isso a figura da criança, do ceifeiro, do cavador, do poeta, imagens-símbolo de que se parte para discorrer sobre «as coisas paradas», «coisas que meditam» e que levam o Homem a achar-se ser meditativo, peregrino e que o poeta de Explicação das Árvores e de Outros Animais, exorta, reclama, convoca e tenta explicar.

Vale a pena, talvez, perceber como o percurso de Daniel Faria coerentemente se realizou, pois é raro alguém tão novo adquirir tamanha consciência do labor poético como projeto que se lança, como plano arquitetural, num porvir que, no caso deste autor, era já adventício. Logo nesse livro da maioridade - Explicação das Árvores - há um dispositivo temático e linguístico que em Dos Líquidos atingirá a sua força máxima, ou a sua máxima expressão: falamos dessa necessidade explicativa do mundo pela poesia, segundo uma intenção que, como bem viu Eduardo Prado Coelho (escrevendo sobre o livro de 2000), «poderia ter uma configuração enciclopédica».

É certo que a poesia de Daniel Faria «parte de uma memória e de uma tradição religiosa», diz Prado Coelho, mas o fascínio perante o mundo (os lugares e as coisas, as palavras de que nos servimos para nomear, dar existência a esse lugares e coisas), não obnubila um dos eixos poemáticos mais candentes: a certeza de que àquela intenção explicativa, àquele fundo tratadístico, a esse fascínio entre inocente e perscrutador da realidade das coisas e lugares, a que a poesia se dedica, preside uma consciência de linguagem que se vai transformando, ela própria, num lugar, numa «coisa» que precisa também de ser explicada.

Assim se pode afirmar: «Procuro o lento cimo da transformação / Um som intenso. O vento na árvore fechada / A árvore parada que não vem ao meu encontro. / Chamo-a com assobios, convoco os pássaros / E amo a lenta floração dos bandos. / Procuro o cimo de um voo, um planalto / Muito extenso. E amo tanto / A árvore que abre a flor em silêncio.» (p.261). É uma arte poética. Podia ser do primeiro livro, mas é do seu último, como que unindo, num arco perfeito, lexemas, verbos, substantivos, advérbios, isto é, os lugares dessa linguagem onde todo o universo se anima de uma força de nomeação e de uma simplicidade que está muito para além de qualquer telurismo ou transcendência catolicamente promulgada.

Não será demais recordar uma das estratégias discursivas mais penetrantes da obra de Daniel Faria: o monólogo, mas também o diálogo subliminar entre um "eu" e um "tu" disseminados agudizam a sensação de sagrado e de evanescência desta escrita. A procura do sentido silencioso do mundo (ou dum mundo que fosse silêncio e poesia - em si mesmo projeto da modernidade, autocentrada nos limites do seu fazer e dizer), a transmutação do verbo em coisa e da coisa em verbo; a casa como lugar ausente-presente, a mulher como sinal da própria peregrinação («A mulher / Anda em redor como corola / Sem pólen»), sacrifício e poder intuitivo (como Maria, esperando o Anjo, pressentindo-o), o processo de construção textual a partir da imagem e da metáfora, da hipálage («Entro. Conheço a minha casa. É mansa / Sinto-lhe a respiração. Dorme sobre os meus pés / À chuva / estende o patamar aos primeiros rios // Mora nas margens por ser a mais matinal / Das nascentes [...]» (p.314)), o domínio de uma retórica ao serviço da poesia como iluminação da vida, tudo isso pode confirmar Daniel Faria como um dos nossos maiores poetas do século XX. Ao leitor cabe descobri-lo. E esta edição de Poesia - título que é súmula de uma vida à poesia consagrada - é essencial.

 

António Carlos Cortez
In Jornal de Letras. 3.10.2012
07.10.12

Redes sociais, e-mail, imprimir

Daniel Faria
Daniel Faria


































Imagem

 

Ligações e contactos

 

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Receba por e-mail as novidades do site da Pastoral da Cultura


Siga-nos no Facebook

 


 

 


 

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página