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Daniel Faria: uma obra singular na poesia portuguesa contemporânea

Licenciou-se em Teologia e em Estudos Portugueses e ingressou no mosteiro beneditino de Singeverga, em Roriz, onde morreu precocemente, aos 28 anos. Em vida, publicou cinco livros de poemas, incluindo, dois fortíssimos, ambos editados pela Fundação Manuel Leão: "Explicação das Árvores e de Outros Animais" e "Homens Que São como Lugares Mal Situados". Postumamente, a mesma fundação publicou "Dos Líquidos". E Vera Vouga, que se ocupou do espólio, organizou a obra completa, incluindo inéditos (Quasi, 2003), volume agora reeditado. As três coletâneas iniciais valem como textos de aprendizagem, e talvez fosse escusado recuperá-las, mas os restantes títulos são absolutamente singulares e resgatam uma poesia "inefável", entendida como vivência íntima, não biográfica nem confessional, como mundo interior, metafísico, verbal. Uma poesia que desafia a paráfrase e a contemporaneidade e que torna "religioso" o espaço poético.

"Explicação das Árvores e de Outros Animais" (1998) organiza-se em torno de «explicações», mesmo quando explica algo que é «inexplicável». Essas explicações são como que provérbios, no sentido bíblico do termo, e não faltam personagens ancestrais, de Jacob e a sua escada para o céu a Lot que vira as costas à destruição. A «explicação» não é um processo racional, é um labirinto do qual se tem de encontrar uma saída (e também a mitologia grega é convocada, com homens angustiados, como Teseu e Sísifo). Nada daquilo que o poeta procura é uma evidência, e são várias as alusões à solidão do catre, à aflição e ao pavor de quem espera não se sabe o quê: «Não tinha nada donde vim. Aqui não encontrei/ O que tive e a cadeira não serve o meu repouso./ Ainda não há lugar no mundo onde possa sossegar de tu não seres/ O vazio que persiste à minha beira.» O «conforto» da fé mais se parece com um perigo. Mas onde cresce o perigo cresce também aquilo que salva, como escreveu outro poeta.

Os poemas não escondem uma certa desolação, com a imagem recorrente da pedra, coisa inerte, com os pressentimentos de morte, ou com versos como estes: «O precipício não tem futuro ou desalento/ Mas um carreiro que atravessa as giestas e o trevo/ Um carreiro que chega ao seu destino/ Como a lenha podada ao fogo/ A madrugada aos olhos do mocho./ O desamparo não tem as mãos juntas/ Mas o peito dividido.» As imagens da natureza são indícios: «Depois das queimadas as chuvas/ Fazem as plantas vir à tona/ Labaredas vegetais e vulcânicas/ Verdes como o fogo/ Rapidamente descem em crateras concisas/ E seiva/ E derramam o perfume como lava.» O poeta tenta encontrar várias designações para esse mundo inexplicável, algumas metafísicas, como «o aberto», outras mais psicológicas, como uma «nova infância»; a verdade é que no termo de um caminho acidentado, assustador, literalmente dantesco, os textos encontram «uma luz parada no meio da voragem». E assim se chega a um texto chamado “Explicação do Homem”: «Não me verga a velhice nem o peso do crânio/ Mas os olhos cansados na dor de te não ver./ O chão tornou-se a última paisagem./ No mais longínquo da terra te levantas/ E vejo erguer-se a poeira dos teus pés.»

Em "Homens Que São como Lugares Mal Situados" (1998), os versos tornam-se mais longos, há anáforas, preces, ladainhas, catálogos; as imagens, insólitas e memoráveis, têm um toque "herbertiano". Daniel Faria reivindica uma certa capacidade cristã de compreender «o humano» enquanto categoria, sobretudo na sua infelicidade. E escreve sobre homens que são como lugares mal situados, como casas saqueadas, como caminhos barricados, como esconderijos de contrabandistas, como danos irreparáveis, como sítios desviados, como projetos de casas. Esses homens (e mulheres) usam as personagens bíblicas como exemplos, patriarcas como Abraão, profetas como Elias, amigos como David e Jónatas, mães improváveis como Sara ou Raquel, ressuscitados como Lázaro, quase ressuscitado como Jonas, a mulher adúltera perdoada, o filho pródigo recompensado, e até Zaqueu, que subiu a uma árvore para ver Jesus.

Mais do que uma poesia "católica", esta é uma poesia "bíblica", porque encontra nas Escrituras todos os «lugares» do humano, todas as tribulações e redenções. Umas vezes, o poeta recria narrativas apocalípticas, em linguagem narrativa e hermética, outras recorre a lamentações confiadas, ao jeito do Eclesiastes: «Lembra-te do teu Criador nos dias da mocidade/ (..) Antes que digas não tenho mais prazer/ Antes que a noite seja noite e não vejas mais o sol nem as estrelas nem os filhos/ Antes que voltem as nuvens depois da chuva como a viuvez (...)// Antes que a tua única herança seja a lembrança/ Antes que o fio de prata se rompa e a roldana rebente no poço/ Antes de tudo isto/ Põe uma escada e sobe ao cimo do que vês.» Faria descreve-se como um cego que fala do que vê, daquilo que vê num «pensamento» atuante, que transforma, que se transforma. É um «pensamento» que o poeta descreve como uma mecânica violenta, a qual há de ter um motor algures: «Mas tu existes./ Os dias somam ruína à ruína/ E o a vir multiplicará/ A miséria./ Apodreço não adubando a terra/ E cada dia somado a cada hora/ Não completa o tempo./ Sei que existes e multiplicarás/ A tua falta./ Somarei a tua ausência à minha escuta/ E tu redobrarás a minha vida.» É uma alegria sofrida, uma certeza magoada, uma plenitude frágil.

O extenso "Dos Líquidos" (2000) assume uma componente mais monacal, mais "mística", com diversas referências a São João da Cruz. Os «líquidos» são o sangue, a água, as lágrimas, ou o coração, a tempestade, as visões, experiências comuns vividas como sinais, como milagres. Faria faz dos textos «meditações» ou «solilóquios», e o imaginário judaico-cristão fornece o vocabulário de «cedros», «candeias» e «sarças». Certos passos soam como comentários bíblicos, e até indicam os livros em que se inspiram, mas nunca são simples variantes dos episódios originais, é o caminho das personagens bíblicas refeito mentalmente, de modo que é o sujeito do poema quem caminha para a terra prometida, quem desmultiplica pães e peixes, quem desenha palavras no pó da terra, quem sobrevive a dilúvios e é atravessado por exércitos. Quando o poeta escreve que ninguém lhe ensinou aquilo, «fui eu que descobri», quer dizer que a experiência poética pode vir da Bíblia mas que a experiência humana é dele. O "grande código" bíblico é uma linguagem poética e metafísica adequada a uma peregrinação humana, aliás mais dorida do que eufórica: «É verdade que estou muito triste/ Na terra (já me indicaram a estrada/ Com luz pública). Estou sentado nos degraus/ Como alguém que parou de subir.» O Deus de Daniel Faria tanto é velho-testamentário, terrível, como o Deus dos Evangelhos, um Deus que acompanha: «Desataste-nos do pó desfivelando as sandálias/ Tu caminhas sobre os nossos pensamentos.»

A poesia de Daniel Faria pertence ao seu tempo, porque supõe um vazio ou uma ausência. Mas é também "inatual", e por isso marcante, porque descobre um sentido, um sentido que religa. Faria acreditava que no princípio era o verbo, uma convicção tão religiosa quanto poética: «É ele que conserva o mecanismo dos pássaros/ É ele que move os moleiros quando param os moinhos/ É ele que puxa a corda dos bois e a linha/ Do céu que assinala os limites dos montes// Ele é que eleva o corpo dos santos, é ele/ Que amestra o pólen para o mel, ele decide/ A medida da flor na farinha/ Ele deixa-nos tocar a orla dos seus mantos.»

 

Pedro Mexia
In Expresso (Atual), 28.7.2012
29.07.12

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