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Defesa da vida e cálculo económico: A América tem de escolher onde está a sua grandeza

Atrás do hospital Bellevue de Manhattan estão estacionados uma vintena de camiões brancos, numa longa fila ordenada. São viaturas frigoríficas, e serão usadas nas próximas semanas como morgues. Enquanto se preparam para a iminente e inevitável vaga de mortes causadas pelo coronavírus, os EUA encontram-se como numa bifurcação, divididos por um debate surreal, desencadeado pelo desejo de Donald Trump de «reabrir a nação» e «voltarem todos ao trabalho» a partir da Páscoa, para evitar os efeitos devastadores de um prolongado isolamento na economia.

Não seria melhor, perguntam-se muitos apoiantes do presidente, deixar que o vírus faça o seu caminho, que aqueles contentores - e milhares de outros - se encham de corpos, em vez de «pôr a nação de joelhos», em vez de fechar as fábricas, os restaurantes, os hotéis durante meses? No fundo, ouve dizer-se com insistência em alguns talk-shows, o Covid-19 mata sobretudo os idosos e os doentes crónicos. Não seria melhor, como sugeriu o vice-governador do Texas, se as pessoas acima dos 70 anos «se sacrificassem» pelo bem de todos os outros?

Esta reedição versão 2020 do darwinismo social, onde os mais fortes sobrevivem e não podem permitir-se deter-se para cuidar dos mais fracos, foi alimentada nos últimos dias por páginas da extrema direita e estações de rádio ultraconservadoras, para depois se repercutir nas redes sociais. No Twitter, um exemplo entre muitos, reunidos pela sigla MAGA - "Make America Great Again", o slogan do presidente -, convidou-se o país a «refletir honestamente» sobre os riscos de um bloqueio da produção comparativamente com os riscos aos quais o vírus expõe «alguns milhares de octogenários».



Os EUA, como cada um dos outros países, são a vida das pessoas e das suas famílias, as suas aspirações, as suas alegrias e dores. Uma epidemia não é o momento para perder de vista a santidade da vida humana



O debate também fez caminho nos ambientes académicos, em termos menos crus, mas, de facto, análogos: quanto custa, pergunta-se, uma vida humana, e quando é que o preço demasiado alto? «Os economistas deveriam fazer uma análise entre custos e benefícios. Porque é que ninguém nos está a dar números sobre as desvantagens económicas de um bloqueio de um mês ou de um ano em relação às vidas salvas?», sustentou Walter Scheidel, historiador na universidade de Stanford. «Salvar vidas não e a única consideração. Estamos a ignorar os custos daquilo que estamos a fazer», notou Casey Mulligan, da universidade de Chicago, ex-chefe economista de Trump. Aquela que parecia uma provocação do presidente dos EUA, destinada a desaparecer quando as autoridades sanitárias evidenciassem a sua absurdez, continua, pelo contrário, a ser um tema vivo na sociedade americana, retomado também por alguns políticos, ainda que com cautela.

De resto, é a mesma mentalidade de quem, noutros momentos da história recente dos EUA, propôs quantificar a perda de uma vida e usar esse número para decidir se vale a pena dar bónus a uma indústria de resíduos tóxicos, ou investir em maior sinalética para reduzir os acidentes num cruzamento perigoso, ou reforçar as normas de segurança no posto de trabalho.

É uma corrente desde sempre presente nos EUA, e não devia surpreender que reapareça em tempos de crise. Mas também não espanta a resposta dada por milhões de americanos que, identificando-se com a "hashtag" "NotdyingfoWallStreet" (não morrerei por Wall Street), refutaram em massa a ideia de que a economia consiste apenas em portefólios acionistas e lucros empresariais, ou que, mais do que ser um complexo de recursos e atividades ao serviço da sociedade, seja um deus irascível a quem é preciso apresentar sacrifícios humanos. E também não admira a reação firme dos líderes religiosos americanos, que nestes dias, unânimes, afirmaram que os EUA não são a soma da sua riqueza.

Os EUA, como cada um dos outros países, são a vida das pessoas e das suas famílias, as suas aspirações, as suas alegrias e dores. Uma epidemia não é o momento para perder de vista a santidade da vida humana. A América voltará a fazer soar as caixas registadoras, mas não sobre o grito de quem sofre por causa de uma doença que poderia ser evitada.


 

Elena Molinari
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: ilixe48/Bigstock.com
Publicado em 28.03.2020

 

 
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