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Este é o tempo para as palavras que ainda não tivemos coragem de dizer, afirma cardeal Tolentino

Em 1908, Auguste Rodin realizou uma escultura singular, com duas mãos – duas mãos direitas, portanto de pessoas distintas – que se cruzam e se erguem até que as pontas dos dedos se tocam, quase descrevendo um arco. À distância temporal, o artista parisiense deu a esta obra, que inicialmente tinha chamado “A arca da aliança”, o título “A catedral”.

“Uma catedral – escreve o Card. José Tolentino Mendonça – não é somente um território sagrado exterior ao qual os nossos pés nos conduzem. Não é apenas um templo situado num determinado espaço. E tão-pouco só um refúgio seguro assinalado nos mapas. Uma catedral realiza-se também pelas nossas mãos abertas, disponíveis e suplicantes, onde quer que nos encontremos.

Porque onde há um ser humano, ferido de finitude e de infinito, aí se encontra o eixo de uma catedral. Onde podemos realizar essa experiência vital de busca e de escuta par as quais a resposta não é a imanência. Onde as nossas mãos possam erguer-se ao alto: em desejo, urgência e sede. Este será sempre um dos eixos da catedral. O outro é desenhado pelo mistério de Deus, que se aproxima de nós e nos aperta, mesmo quando não nos damos logo conta, mesmo quando o silêncio, um silêncio duro e denso, parece a verdade mais tangível.»

«Foi Pascal – prossegue o texto – a escrever que “as mãos sustêm a alma”. Hoje precisamos de mãos – mãos religiosas e laicas – que sustentem a alma do mundo. E que mostrem que a redescoberta do poder da esperança é a primeira oração global do século XXI.»

Extraímos estes excertos de um “eBook” (“Il potere della speranza. Mani que sostengono l’anima del mondo”), que o cardeal Mendonça escreveu a pedido da Vita e Pensiero, a editora da Università Cattolica del Sacro Cuore [Milão]. A entrevista.

 

Nestas suas páginas, citando as obras-primas de Albert Camus (“A peste) e de José Saramago (“Ensaio sobre a cegueira”), afirma que na situação atual temos absolutamente necessidade «de encontrar parábolas». O que nos podem ensinar romances e narrativas como aquelas que mencionou, ambientadas em tempos de epidemia? Que o humano tem insuspeitas capacidades de resistência quando colocado perante o mal, o caos?

Um dos poderes mais importantes que as histórias têm – e isto é aquilo que a literatura nos oferece: um extraordinário arquivo de histórias – é o de funcionar como espelhos da nossa realidade. Lemos as histórias e sentimo-nos compreendidos, porque nelas encontramos descrita uma experiência equivalente àquela que fazemos, e pela qual, muitas vezes, ainda não encontrámos palavras, ou as palavras certas. A situação de emergência global desencadeada pela pandemia apanhou-nos a todos impreparados. Por este motivo, no início sentíamos todos a necessidade de parábolas já escritas ou mostradas pelo cinema que contassem experiências semelhantes. Esta é uma maneira de domar o medo do desconhecido. Mas depois demos um passo em frente. E começámos a desejar novas parábolas que ajudassem a interpretar e a dar um sentido ao nosso sofrimento mais profundo. Creio que o papa Francisco foi um mestre extraordinário. Aquela celebração de sexta-feira à noite na praça de S. Pedro vazia foi a parábola mais poderosa e necessária para estes tempos. Francisco, abraçando o vazio e a solidão, é como se os tivesse exorcizado: começámos, assim, a olhar o vazio de outra maneira. Isto demonstra como a fé é uma parábola capaz de tocar e curar o coração humano.

 

Nos jornais e nas redes sociais está a escrever-se e a falar-se muitíssimo sobre a pandemia do coronavírus. Não nos arriscamos também a fazer “má literatura”, ou “má televisão”, sobre uma situação objetivamente trágica? Milan Kundera dizia, falando do “reino do Kitsch”, que nelas comover-nos-íamos por nós próprios, pelas nossas disposições da alma, mais do que por quanto acontece aos outros.

Como é enfrentado o trauma? Porque, em substância, é disto que falamos quando falamos da pandemia: um trauma, isto é, uma agressão inesperada para a qual não tínhamos defesas e que devastou a nossa imagem do mundo. Uma das coisas importantes a fazer num percurso de cura, segundo dizem os psiquiatras, é contar a alguém a nossa história. Por este motivo, este momento de pandemia é um tempo de palavras, de relatos que se acumulam, de narrações que se sobrepõem. Provavelmente é “má literatura”, mas não importa, creio que terá um efeito terapêutico significativo. Aquilo que aconselho é isto: façamos deste momento um momento para falar. Mas não pela palavra repetida e esgotada, pelos comentários às imagens que enviámos pelo WhatsApp, quase sem pensar. É essencial que este seja o tempo para as palavras que desejaríamos ter dito e que talvez ainda não tenhamos dito, aquela palavra de amor que foi adiada, aquela gratidão pela vida do outro que não tivemos ainda a coragem de exprimir. Este é o momento.

 

Pode aplicar-se ao que está a acontecer a categoria bíblica da “provação”? Dito de outra maneira: este mal desafia-nos não a assumir uma atitude moral “superior”, nobremente estoica, mas a não ceder ao desespero? O desespero – não a fragilidade – é o exato contrário da fé?

Este é, certamente, um momento de “prova”, em que todos somos chamados a uma resposta eticamente qualificada. O papa Francisco recorda muitas vezes um princípio, segundo o qual «o tempo é superior ao espaço». Este princípio é de grande sabedoria, porque não absolutiza o presente, mas coloca-o em relação com o passado e, sobretudo, com o futuro. Temos um futuro! O discurso da fé ajuda-nos a abraçar a fragilidade, a não temer a fragilidade, mas ajuda-nos também a sentir de novo aquela palavra que Deus disse a Abraão: «Levanta os olhos da terra e conta as estrelas». Este é também o momento de olhar as estrelas. Ou como dizia a mística Etty Hillesum, no diário que escreve no campo de concentração de Westerbork, este é o momento de «olhar os lírios do campo».

 

A esperança não pede a tradução em gestos concretos, em decisões operativas que dizem respeito ao destino da coletividade, inclusive a nível político? Para muitos, a pergunta sobre aquilo que nos espera no termo desta pandemia é talvez ainda mais angustiante do que aquilo que estamos a experimentar no presente…

É importante darmo-nos conta que o mundo já não voltará a ser aquilo que era, e que há um novo percurso que devemos seguir. Mas para isto temos de reforçar a nossa experiência comunitária. É juntos, todos unidos, sem descartar ninguém, sem deixar ninguém para trás, que seremos capazes de enfrentar os imensos desafios que nos esperam. Não tenhamos dúvidas: a única verdadeira “imunidade de grupo”, de que tanto se fala, é o amor, a justiça social, a construção de um mundo mais humano. Todas as outras “imunidades de grupo” são precárias e só agravarão a crise. Este é momento de caminhar juntos, redescobrindo o significado concreto de palavras como nação, humanismo, vida comum, confiança.


 

Giulio Brotti
In SantAlessandro
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "A conversa" | Camille Pissarro | 1892
Publicado em 14.04.2020

 

 
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