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Fé e cultura

A exigência de encarnação da existência cristã e da vida da Igreja

A exigência fundamental de encarnação

O contexto conciliar da linguagem dos "sinais dos tempos" enquadra-se numa busca renovada do ser Igreja no meio do mundo numa "economia de encarnação", numa nova consciência histórica da forma como a Igreja se entende em diálogo com o mundo e com as circunstâncias reais do viver humano. São bem conhecidos os aspetos principais desse novo enquadramento: de uma visão predominantemente negativa do mundo como lugar de tentação e de pecado passa-se a uma visão positiva do mundo como realidade criada por Deus e lugar de compromisso cristão na colaboração com Deus Criador e Salvador; de uma avaliação e valoração das realidades do mundo a partir do grau da sua relação com o religioso e o sagrado caminha-se para uma consideração da legítima secularidade deste mundo ("mundaneidade do mundo" - dirá J. B. Metz), reconhecendo que não é a tutela religiosa por si só que dá consistência e qualidade humanas às coisas e afirmando o respeito pela legítima autonomia das realidades terrestres; de uma Igreja que se situa frente ao mundo evolui-se para uma Igreja consciente de que faz parte deste mundo, vendo a sua história inscrita na complexidade da história humana, sabendo que não só tem uma mensagem a anunciar mas que tem igualmente algo a aprender da experiência histórica do viver humano; finalmente, do sentido do religioso como um setor da vida e lugar preferencial de encontro com Deus passa-se à perceção de que se encontra Deus nas circunstâncias reais deste mundo ou não se encontra (o mundo como lugar indispensável e irrecusável de vivência da fé), pelo que - advertência conciliar aos cristãos — "o divórcio entre a fé que profes­sam e o comportamento quotidiano de muitos deve ser contado entre os mais graves erros do nosso tempo".

Embora tudo isto nos pareça hoje demasiado óbvio, não podemos ignorar ou subvalorizar o longo percurso que foi necessário fazer, as dificuldades de mentalidade que persistem em muitos cristãos, a distância que continua a existir entre a afirmação teórica e a coerência prática. A perceção de que a qualidade da existência cristã não se define pelo grau de distanciamento das coisas do mundo mas precisamente pelo modo como se vive de Deus e para Deus no quotidiano real das circunstâncias da nossa história ou, dito de outro modo, o realismo da encarnação na história, com todas as suas exigências e consequências, ainda não penetrou até às raízes mais profundas na maioria das consciências cristãs. Lamentamos hoje muito a pouca presença ou até a ausência de cristãos - em termos de visibilidade pública e de intervenção percetível - nos diversos espaços e setores onde se tece a vida concreta das pessoas e da sociedade, onde se tomam as decisões que condicionam o sentido do viver humano, mas não nos perguntamos, com frontalidade e radicalidade, donde vêm as raízes passadas e onde estão os pressupostos atuais de mentalidade e do nosso próprio viver em Igreja que condicionam ou até favorecem esta situação.

Na verdade, temos de examinar se os nossos processos de iniciação à fé, designadamente na catequese aos seus mais diversos níveis, são decisivamente também ajuda a descobrir a Igreja como sacramento do amor de Deus no mundo e para o mundo, se constituem verdadeiro impulso a um sentido profundo da diaconia cristã e a uma consciência da responsabilidade pública que brota da fé. Temos de verificar em que medida as nossas comunidades (locais, movimentos, etc.) são lugares de reflexão, escolas de maturação e focos de dinamização da responsabilidade pública que decorre da fé. Pode perguntar-se em que medida está presente e nos interpela na celebração da fé — na palavra anunciada, nas expressões simbólicas e rituais que tecem a celebração, nas orações comunitárias propostas aos fiéis - a realidade concreta do mundo que nos envolve. De que forma, para além dos habituais apelos morais - pode perguntar-se ainda -, se considera e valoriza nas mentalidades dominantes o empenho quotidiano nas tarefas do mundo, e particularmente no campo social e político? Em que medida se está disposto a refletir sobre o modo como tradicionalmente se distingue aquilo que é o agir cristão em nome próprio e o agir em nome da Igreja? Neste aspeto, trata-se de analisar que comportamentos isso provoca, que sentido faz e como é que pode fazer sentido esse tipo de raciocínios, quais são as mentalidades subjacentes e as atitudes daí decorrentes.

 

Condições de encarnação para uma leitura dos sinais dos tempos

Quatro aspetos, como condições de leitura dos sinais dos tempos, resultam claramente desta exigência de encarnação, de uma consciência cristã comprometida na transformação do mundo.

Antes de mais, é decisiva a capacidade de os cristãos perceberem bem em toda a sua complexidade a realidade histórica concreta do mundo em que se inserem. A leitura crente dos sinais dos tempos como intuição profética tem de ter em conta a consistência própria das realidades que analisa, para poder chegar a critérios de juízo suficientemente justificados e a impulsos de ação pertinentes. Pede-se não só sensibilidade viva para captar o real mas também o estudo atento da realidade social, usando os vários instrumentos de análise técnico-científica. Ler os sinais dos tempos não é uma tarefa de ordem meramente sociológica, mas não se pode prescindir de uma análise fundamentada em termos de racionalidade humana, dos dados de leitura sociológica e do contributo das várias ciências humanas. Numa hermenêutica dos sinais dos tempos o olhar crente assume como motivo de interpelação e reflexão o que a racionalidade humana deteta em termos de causas, critérios e opções que estão em jogo.

A leitura crente daqueles acontecimentos e movimentos da história através dos quais Deus nos interpela quanto ao sentido humano da existência e sobre os caminhos mais indicados a seguir à luz da fé pressupõe a existência e o fomento de uma espiritualidade encarnada, marcada pela abertura de coração aos sinais que nos são dados pelas pessoas e pelos factos da vida quotidiana. Uma espiritualidade que vive com lucidez e intensidade a dimensão da encar­nação é uma "espiritualidade de olhos abertos", realista na sua visão do caminhar humano na história, atenta à dignidade das pessoas e com um profundo sentido do Humano, sensível as situações de marginalidade e sofrimento que apelam ao sentido cristão do serviço, desperta para as exigências indeclináveis da solidariedade com o "próximo", corajosa no modo de enfrentar as dificuldades e perplexidades do quotidiano. "Não é na forma e no modo como uma pessoa fala de Deus - escreveu Simone Weil - que eu vejo se ela passou pelo fogo do amor divino..., mas sim na forma como ela fala comigo sobre as coisas terrenas". Pergunto-me, por vezes, em que medida nas nossas comunidades se ajuda a um olhar crente sobre a vida concreta, a rezar mais a partir da vida e a acolher a realidade vivida na oração, a valorizar como atitude orante a riqueza e a dureza do viver quotidianos, a estimular experiências de encontro com Deus na opacidade real das circunstâncias do mundo.

A leitura dos sinais dos tempos pressupõe - terceiro aspeto - uma particular sensibilidade à historicidade do caminhar da fé e da vida em Igreja, com tudo o que isso representa de fragmentário, de relatividade de quadros culturais e mentais, de mudança de situações e perspetivas, de novos dados adquiridos. Pede-se uma fé mais consciente dos condicionalismos da historicidade do viver humano e da sua própria historicidade, o que vale tanto em termos de caminho individual de vida como na consideração das realidades eclesiais mais diversas. Só terá consistência e credibilidade como expressão amadurecida de vivência humana crente uma atitude de fé que abra o seu espírito ao sentido dos limites históricos, que saiba olhar serenamente para as transformações em curso, que atenda aos pressupostos de ordem hermenêutica envolvidos numa receção viva da tradição. Por mais absolutos que sejam os princípios a propor, a sua afirmação passa sempre pelos limites e condicionamentos da palavra humana. Do mesmo modo, as mediações eclesiais, por mais indiscutíveis que sejam, não fogem igualmente aos condicionalismos histórico-culturais. A leitura dos sinais dos tempos insere-se nesse dinamismo de sentido da historicidade da fé, convidando a uma intensa e perspicaz capacidade de discernimento dos acontecimentos e de entendimento da mudança.

Importa, enfim, recordar que leitura dos sinais dos tempos não é um exercício teórico mas uma atitude prática. Pressupõe-se o empenhamento da responsabilidade crente na fidelidade às interpelações e aos dons do Espírito. É na prática cristã concreta, no envolvimento nas circunstâncias reais históri­cas, suas dificuldades e ambiguidades que se percebe mais profundamente a realidade do mundo como lugar de descoberta de Deus, que se percebem os verdadeiros e decisivos sinais de Deus e seu Reino. Ler os sinais dos tempos não é ficar a olhar contemplativa e passivamente para a realidade, mas reagir perante ela como existências comprometidas a partir do que é essencial à fé.

 

Esta transcrição omite as notas de rodapé.

 

José Eduardo Borges de Pinho
Professor catedrático da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
In Didaskalia 1/2011
31.10.11

Foto
Mike Kemp/In Pictures/Corbis














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