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Exposição “Saudades dos Cartuxos”: Sobriedade, mistério, silêncio, oração

«Na Cartuxa nada é supérfluo, só cabe o que é absolutamente necessário para o cumprimento da sua missão e finalidade. Eis uma marca que perdurará para sempre no eco desta cidade: a memória da sua sobriedade, a valorização do mistério na linguagem do silêncio, a permanente gratuitidade da sua oração e o som do seu sino, sempre fiel e anunciador da certeza de uma oração vigilante por todos e com todos, sem exceção.»

É com estas palavras que o arcebispo de Évora introduz a exposição “Saudades dos Cartuxos”, na qual prestigiados fotógrafos oferecem ao público o seu olhar de uma clausura, ainda segundo D. Francisco Senra Coelho, «onde multidões de intenções e pedidos de orações afluíam e onde vazios de alma e escuridão de vidas sem sentido acorreram em pedido de socorro, em busca de um pouco de luz e esperança».

Organizada pela Fundação Eugénio de Almeida, a mostra inaugurada por ocasião do abandono da única cartuxa existente em Portugal, e também a única de clausura masculina, por parte dos seus membros, que em outubro se mudaram para a comunidade de Montalegre, a 20 km de Barcelona, está patente até 29 de março no Centro de Arte e Cultura, em Évora.

«A Cartuxa de Évora, enquanto instituição e Ordem, parte da nossa cidade; os cartuxos, enquanto irmãos em humanidade compartilhada, permanecerão para sempre na nossa admiração e gratidão. São cidadãos de honra desta cidade de Évora e fazem parte da imaterialidade deste Património da Humanidade», escreve o arcebispo.



«Os monges de Scala Coeli, em Évora, eram solitários. Mas viviam com Deus. Por isso não se sentiam sozinhos. Tendo o seu Deus consigo, não precisavam de mais. E não tinham saudades de nada»



A ligação da Cartuxa à Fundação Eugénio de Almeida (de que o arcebispo eborense é presidente do Conselho de Administração) remonta a 1871, quando a família homónima comprou as ruínas do mosteiro, edificado entre 1587 e 1598, e que o contexto revolucionário de Portugal transferiu, em 1834 – a par com inúmeras ordens religiosas – para a esfera do Estado.

No século XX, Vasco Maria Eugénio de Almeida restaurou a Cartuxa e devolveu-a à sua vocação original, fazendo regressar em 1960 os monges brancos da ordem de S. Bruno ao seu mosteiro, dedicado a Santa Maria Scala Coeli, onde viveram até 2019.

«Os monges de Scala Coeli, em Évora, eram solitários. Mas viviam com Deus. Por isso não se sentiam sozinhos. Tendo o seu Deus consigo, não precisavam de mais. E não tinham saudades de nada. Tendo ficado idosos, foram morrer a outras Cartuxas. E esses solitários deixaram-nos sozinhos. Deixaram-nos com saudades deles. Querendo nós substituir a sua presença pela sua memória, reunimos, conservamos, expomos imagens da sua vida entre nós. Oculta, mas sentida. Invisível, mas evidente», lê-se no texto de apresentação.

E para que a memória não se transforme numa espécie de musealização inerte, os organizadores da exposição propõem um voto: «Talvez o seu nome [Cartuxos] nos convide a nos encontrarmos a nós próprios na nossa solidão pessoal, a orarmos melhor ao nosso Pai celestial quando fechamos a porta do nosso quarto, enfim, a subirmos como eles, e após eles, a nossa Escada para o Céu».



O núcleo da exposição é compost por «dezoito fotografias, criadas entre 1970 e 2019, muitas das quais inéditas, agora reunidas sob o signo da memória, dos afetos, da vivência do lugar na espessura do tempo»



A primeira reportagem fotográfica evocada na exposição data de 1970, e foi assinada por Eduardo Gageiro. A partir de então, surgiu «um imenso caudal de fotografias, no período histórico relativo aos séculos XX e XXI», que registam trabalhos, «testemunham ocorrências, documentam presenças e ações», destaca o curador.

Mas as fotografias «também (ou sobretudo) aprofundam o visível, desvelam o lugar, interpelam o desconhecido, abrindo as portas para realidades mais intensas que as da mera objetividade documentada», acrescenta José Alberto Ferreira.

A seleção mostra «imagens de carácter documental, umas relativas à reconstrução da Cartuxa, outras relativas aos cartuxos, ao seu quotidiano invisível e documentado pela sua própria mão», a par de «fotografias de arquivo que testemunham eventos dos últimos 72 anos, ao longo dos quais as portas da Cartuxa se abriram ao mundo».

O núcleo da exposição apresenta um conjunto de trabalhos de nove fotógrafos: Daniel Blaufuks, Eduardo Gageiro, Francisco Pereira Gomes, Jerónimo Coelho, José M. Rodrigues, Mark Power, Nacho Doce, Paulo Catrica, Virgílio Ferreira.

Trata-se de «dezoito fotografias, criadas entre 1970 e 2019, muitas das quais inéditas, agora reunidas sob o signo da memória, dos afetos, da vivência do lugar na espessura do tempo», assinala José Alberto Ferreira.


 

Rui Jorge Martins
Imagem: © José M. Rodrigues
Publicado em 04.03.2020

 

 

 
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