Bíblia
Fazer da palavra de Deus motivo de alegria: comentário à 1.ª leitura de 27.1.2013
«Naqueles dias, o sacerdote Esdras trouxe o Livro da Lei perante a assembleia de homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Era o primeiro dia do sétimo mês. Desde a aurora até ao meio dia, fez a leitura do Livro, no largo situado diante da Porta das Águas, diante dos homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Todo o povo ouvia atentamente a leitura do Livro da Lei.
O escriba Esdras estava de pé num estrado de madeira feito de propósito. Estando assim em plano superior a todo o povo, Esdras abriu o Livro à vista de todos; e quando o abriu, todos se levantaram. Então Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todo o povo respondeu, erguendo as mãos: «Amen! Amen!». E prostrando-se de rosto por terra, adoraram o Senhor.
Os levitas liam, clara e distintamente, o Livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura. Então o governador Neemias, o sacerdote e escriba Esdras, bem como os levitas, que ensinavam o povo, disseram a todo o povo: «Hoje é um dia consagrado ao Senhor vosso Deus. Não vos entristeçais nem choreis». – Porque todo o povo chorava, ao escutar as palavras da Lei –.
Depois Neemias acrescentou: «Ide para vossas casas, comei uma boa refeição, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que não têm nada preparado. Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza».» (Neemias 8, 2-4a.5-6.8-10)
***
Nós, que não apreciamos as celebrações que duram mais do que uma hora, estaríamos bem servidos! Do amanhecer até ao meio-dia! Todos como um só homem, homens, mulheres e crianças! E durante todo esse tempo a ouvir leituras em hebraico, língua que já se tinha deixado de compreender. Felizmente o leitor interrompia regularmente a leitura para dar lugar ao tradutor, que devolvia o texto em aramaico, a língua de todo a gente ao tempo, em Jerusalém. E o povo não parecia pensar que a liturgia se estendia demasiado: ao contrário, todos choravam de emoção, cantavam e aclamavam incessantemente "Amen", erguendo as mãos.
Esdras, o sacerdote, e Neemias, o governador, podem dar-se por satisfeitos: ganharam o desafio! O desafio é voltar a dar uma alma a este povo. Porque ele, uma vez mais, atravessa um período difícil. Estamos em Jerusalém, cerca de 450 anos antes de Cristo. O exílio na Babilónia terminou, o templo de Jerusalém está finalmente reconstruído (mesmo se ele é muito menos belo do que o de Salomão), a vida retomou o seu curso.
Visto à distância, poder-se-ia pensar que tudo estava esquecido. No entanto a moral anda por baixo. Este povo parece ter perdido a esperança que foi sempre a sua característica principal. A verdade é que há sequelas dos dramas do século anterior. Não se recupera facilmente de uma invasão, do saque de uma cidade... As cicatrizes permanecem durante várias gerações. Há as cicatrizes do próprio exílio e há as cicatrizes do regresso. Porquanto com o exílio na Babilónia tudo foi perdido e o regresso, tão esperado, não foi mágico.
O milagre é que este período foi terrível, sim, mas muito fecundo: com efeito a fé de Israel sobreviveu a esta prova. Não apenas este povo guardou a sua fé intacta durante o exílio, no meio de todos os perigos da idolatria, mas continuou a ser um povo e o seu fervor aumentou; e isso graças aos sacerdotes e profetas que realizaram um trabalho pastoral incansável. Foi, por exemplo, uma época intensa de releitura e meditação das Escrituras. Um dos seus objetivos durante os 50 anos do exílio foi de voltar todas as esperanças para o regresso ao país.
Contudo o duche frio do regresso foi igualmente duro. De facto, do sonho à realidade há por vezes um fosso... O grande problema do retorno, vimo-lo com os textos de Isaías da festa da Epifania e do segundo domingo do Tempo Comum, é a dificuldade do entendimento: entre aqueles que voltam ao país, cheios de ideais e de projetos, e aqueles que entretanto já se tinham instalado não há um fosso mas um abismo. São pagãos que ocuparam o lugar durante o exílio na Babilónia e as suas preocupações estão muito distantes das múltiplas exigências da lei judaica.
A reconstrução do tempo chocou com a hostilidade pagã, e os menos fervorosos da comunidade judaica foram bem tentados pelo relaxamento do ambiente. O que inquieta as autoridades é, precisamente, o relaxamento religioso; que não cessa de se agravar por causa dos numerosos casamentos entre judeus e pagãos. Torna-se impossível preservar a pureza e todas as exigências da fé. Então Esdras, o sacerdote, e Neemias, o leigo, vão unir esforços. Obtêm do rei da Pérsia, Ataxerxes, a missão para reconstruir as muralhas da cidade e plenos poderes para ter de novo o povo na mão, dado que a população, é preciso não esquecer, está sob o domínio persa.
Esdras e Neemias vão por isso fazer tudo para redefinir a situação: é preciso erguer o povo, voltar a dar-lhe moral. Com efeito a comunidade judaica precisa de estar unida dado que está diariamente em contacto com o paganismo ou a indiferença religiosa. Na história de Israel a unidade do povo fez-se sempre em nome da Aliança com Deus; os pontos fortes deste laço são sempre os mesmos: a terra, a Cidade Santa, o templo e a palavra de Deus. Na terra já o povo está; Neemias vai providenciar a reconstrução da Cidade Santa, Jerusalém; o templo já está reedificado; resta a palavra, que vai ser proclamada durante uma colossal celebração a céu aberto.
Todos os elementos estão reunidos e o cenário foi cuidadosamente composto, o que é extraordinariamente importante. A própria data foi escolhida com atenção: retomou-se o costume dos tempos antigos, uma grande festa por ocasião do que era então o dia do novo ano, «o primeiro dia do sétimo mês». E para a ocasião foi construída uma tribuna em madeira que domina o povo; é de lá que o sacerdote e os tradutores fazem a proclamação. Quanto à homilia, claro, convida è festa. Comei, bebei, é um grande dia porque é o dia da vossa reunião em torno da palavra de Deus.
Retenhamos a lição: para unir a sua comunidade, Esdras e Neemias não pregam a moral mas propõem-lhe uma festa centrada na palavra de Deus. Para revivificar o sentido da família, nada como propor-lhe regularmente a alegria.
Marie Noëlle Thabut
In Conferência Episcopal Francesa
© SNPC (trad.) |
26.01.13

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