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“Finalmente livre!”: Autobiografia de Asia Bibi recorda corredor da morte e nova vida

«A todos aqueles acusados de blasfémia e que continuam presos»: esta é a dedicatória do livro “Enfin libre!” ("Finalmente livre!"), que a cristã Asia Bibi escreveu com a colaboração da jornalista Anne-Isabelle Tollet, e que será lançado no próximo sábado, em França, pela editora Le Rocher, e de que se aguarda a publicação da tradução em várias línguas.

Asia Bibi passou oito anos detida numa prisão no seu país-natal, Paquistão, sob a acusação de ter insultado o profeta Maomé, tendo sido condenada à morte. No último dia de outubro de 2018 o supremo tribunal reverteu a sentença e absolveu a mãe de cinco filhas, que foi libertada sete dias depois.

«Não tenho muita memória para datas, mas há dias que não se esquecem. Como este 14 de junho de 2010. Antes do pôr-do-sol cheguei pela primeira vez ao centro de detenção de Shekhupura, onde passei três anos antes de mudar de prisão, como se muda de casa. Ainda não tinha sido julgada, mas segundo todos já era culpada. Recordo-me deste dia como se fosse ontem, e quando fecho os olhos, revivo cada instante», anota.

A decisão judicial de absolvição, que originou múltiplos protestos, foi confirmada nos últimos dias de janeiro de 2019. As filhas viajaram para o Canadá, país a que Asia Bibi chegou a 8 de maio, na sequência da oferta de asilo por parte do governo.

«Os meus pulsos estão a queimar, mal consigo respirar. O meu pescoço, que a minha filha mais pequena costumava apertar com os seus pequenos braços, está comprimido num colar de ferro que a guarda pode apertar à sua vontade. Uma longa corrente arrasta-se no chão imundo, liga o meu pescoço à mão do guarda, que me puxa como um cachorro pela trela. No profundo de mim, um medo surdo puxa-me para as profundezas da escuridão. Um medo persistente que nunca vai deixará. Neste preciso momento, gostaria de escapar à dureza deste mundo.»



«Ela está triste por ter deixado o Paquistão, mas quer continuar a servir de porta-voz para todas as pessoas injustamente acusadas de blasfémia, sobretudo os cristãos»



São muitos os detalhes tenebrosos da prisão revelados por Asia Bibi, que, ao longo das 216 páginas, também menciona as vexações verbais da parte de outros reclusos e dos guardas: «Enforcada», gritam-lhe com rancor várias mulheres detidas. Um dia, o agente que a guardava diz-lhe: «És pior que um porco. Tenho de sujar-me ao teu contacto, aguentar a tua podridão, mas isso não vai durar muito, “Allah akbar”».

Apesar destas agressões, o conforto da fé não abandonou Asia Bibi, que recorda nestes termos a âncora firme lançada no meio de um mar de desespero aparentemente sem porto de abrigo: «Caída ao solo terroso desta cela sem esperança, fixo a porta pensando que esta provação talvez seja enviada por Deus».

«Talvez conheça a minha história através dos meios de comunicação, e talvez tenha tentado colocar-se no meu lugar para compreender o meu sofrimento… Mas está longe de conhecer o meu dia a dia, na prisão, ou na minha nova vida, e é por isso que, neste livro, eu lhe conto tudo», escreveu Asia Bibi para uma nota de imprensa.

Anne-Isabelle Tollet bateu-se longamente, a nível internacional, pela libertação de Asia Bibi, que se tornou um símbolo da condição de exclusão e de perseguição contra os cristãos em vários países islâmicos.

A coautora, que com Asia Bibi já tinha escrito “Blasfémia – Condenada à morte por um copo de água” (ed. Alêtheia, 2011), falou à imprensa sobre o reencontro, no Canadá: «Ela está triste por ter deixado o Paquistão, mas quer continuar a servir de porta-voz para todas as pessoas injustamente acusadas de blasfémia, sobretudo os cristãos».

A jornalista recordou o papel que em 2010 o então ministro paquistanês das Minorias, Shahbaz Bhatti, que facilitou o contacto entre a francesa e a família de Asia Bibi, e que viria a ser assassinado em março de 2011 por fundamentalistas, devido a ter defendido a acusada.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Avvenire
Imagem: Asia Bibi, Anne-Isabelle Tollet | François Thomas/Éditions du Rocher | D.R.
Publicado em 30.01.2020

 

 

 
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