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Em memória de Fr. Bernardo Domingues, OP: «Não há oposição entre o Deus dos filósofos e o de Jesus Cristo»

O frade dominicano Bernardo Domingues, «figura de referência para muitos empresários e políticos do país, nomeadamente Francisco Sá Carneiro», faleceu hoje, 22 de fevereiro, no Instituto de Oncologia, no Porto.

O irmão do Fr. Bento Domingues, também da Ordem dos Pregadores, costumava «discutir textos bíblicos, rezar e partilhar reflexões» com o fundador do PPD-PSD e primeiro-ministro de Portugal, recorda a jornalista Natália Faria no jornal Público.

Nascido em 1931, em Terras do Bouro, distrito de Braga, foi ordenado padre em França, há 61 anos. Doutorado em Filosofia, em Roma, diplomado em psicopedagogia, em Toulouse, e mestre em Teologia, foi o primeiro capelão da Universidade Católica, no Porto, onde lecionou.

Assinou cerca de 50 livros e centenas de artigos, em que abordou temas como o personalismo, a família, a bioética, a pedagogia e a psicologia.

O seu nome foi dado a um prémio anual de cinco mil euros promovido pelo Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes, no Porto, «destinado a galardoar a melhor obra de doutrina, de caráter humanista e personalista, na senda do percurso intelectual do seu Patrono».

O corpo do Fr. Bernardo Domingues vai estar a partir das 15h00 de sexta-feira na igreja paroquial de Cristo Rei (Porto). O funeral realiza-se no sábado, às 14h30.

 

Filosofia e Teologia
Fr. Bernardo Domingues
In Humanística e Teologia (1981)

É de se ficar cético, ou pelo menos perplexo, sobre o valor, sentido e futuro de certas «teologias» que por razões bíblicas, missionárias, sociológicas, ecuménicas ou outras, ostensivamente tentam ignorar a dimensão filosófica que, a meu ver, deveria estar presente, ainda que só com o peso que lhe é devido e tendo sempre em conta a dimen­são catequétíca daqueles a quem é concretamente destinada a Mensagem.

De forma sintética, simples e breve, gostaria de chamar a atenção para o que foi ou não foi o papel da Filosofia na reflexão sobre a Fé.

1. Os gregos, não tendo acesso à Revelação judeocristã, aplicaram-se seriamente a fazer uma «teologia natural», tendo atingido o apogeu entre o século VI, com os Pré-Socráticos, e o século III, com os Académicos. As perguntas ou preocupa­ções centravam-se. em equacionar o papel da razão, do discurso filosófico, num Mundo e numa República, onde as pessoas não eram os únicos seres a ter em con­ta, lá onde se punha a questão dos deuses e de Deus. Tratava-se de decifrar se a questão era disjuntiva ou copulativa: os deuses ou Deus e ainda os deuses e Deus. E no meio destas interrogantes há que não esquecer os dois te6ricos do ateísmo prático. Epicuro e Lucrécio.

Os monoteístas, como Platão e Aristóteles, apesar de terem chegado à conclusão de Deus - Motor imóvel - totalmente outro, diferente de tudo o resto, por razões culturais ou outras, não se desprenderam, afetivamente pelo menos, dos deuses do Panteão, apesar da certeza, filosoficamente fundada, que só um era realmente Deus. E é bem conhecido o processo subtil como o grande Platino, com o seu sentido místico, conseguiu ultrapassar a situação por uma nostálgica viagem de «regresso ao Principio».



A teologia é a ação reflectida do crente que aceita a Palavra e usa a inteligência para encontrar a coerência entre a Fé e a Razão, entre o vivido e os sinais dos tempos, a interpretar com discernimento



2. Com o cristianismo deu-se um passo qualitativo. É que Jesus Cristo é a revela­ção de Deus: revela o Ser de Deus: Pai, Filho e Espírito Santo em relações da vida interpessoal e o projecto sobre a História humana, E a este nível ninguém chegara antes, mesmo sabendo nós que há continuidade com a Revelação feita a Abraão e a Moisés.
Desde então tudo o que fora pressentido pelos filósofos e poetas, foi re­tificado, ampliado e os equívocos desfeitos. E desde então, pela ação do Espírito, o aprofundamento nunca mais parou.

 

3. Surgiu como necessidade, como exigência missionária, proclamar que o Deus revelado é o único e todos são convocados para constituir a Igreja. Mas convém não perder de vista que o Deus de Jesus Cristo é objetivamente o mesmo Deus que os pagãos descobriram, tateando às apalpadelas, à força dum exigente esforço de pensamento. Não há oposição entre o Deus dos Fílósofos e o de Jesus Cristo: aqueles pesquisaram pela força da razão e 08 crentes aceitam-no enquanto apareceu no meio de nós e agora o acolhemos pela mediação do testemunho e pela força interior do Espírito. Na primeira fase foi descoberto como o Ser Absoluto e na segunda como Pai universal.

 

4. E de facto, ao longo dos séculos, foram-se construindo várias teologias, con­forme as perspetivas assumidas e os pressupostos em que assentam.

A teologia é a ação reflectida do crente que aceita a Palavra e usa a inteligência para encontrar a coerência entre a Fé e a Razão, entre o vivido e os sinais dos tempos, a interpretar com discernimento.

O ideal será sempre de, dentro da Fé, ser maximamente rigoroso em aferir o que são domínios de Fé e o que é matéria de Filosofia, a fim de se conse­guir a síntese necessária, conservando cada uma os seus objetos e métodos próprios com a devida autonomia.



Chegou-se à situação em que os Filósofos, Historiadores e Cientistas se sentem no direito e no dever de enunciarem a «verdade universal», cuja função, posteriormente, o próprio Estado assumiu. De qualquer modo, em reação, dá-se o primado absoluto à «racionalidade filosófica», sem referências essenciais à Teologia, tanto católica como Reformada



Sínteses como as conseguidas por S. Tomás de Aquino, talvez não sejam mais possíveis. Pelo menos não podem ser obra dum só. E é bom ter consciência que nem nessa altura houve homogeneidade: aceite a Dogmática, houve diver­gências explicativas, devido a diferentes posições filosóficas. E nem sequer se pode dizer que eram complementares...

S. Tomás foi um caso à parte, dada a sua capacidade teológica e metafísica, além de ser um grande contemplativo. Foi acolhedor da Palavra numa atitude simultaneamente contemplativa e critica, além da preocupação rigo­rosa no domínio metafísico. E conseguiu integrar harmonicamente Fé e Razão, não iludindo nenhum dos problemas emergentes. Depois, durante séculos, alguns o repetiram, outros o desprezaram, todavia pouco surgiu de verdadei­ramente novo nos campos da reflexão teológica. Mas, diga-se de passagem, que os verdadeiros «tomistas», os fiéis às perspetivas e intencionalidade de S. Tomás, estiveram atuantes na renovação da Teologia do Vaticano II, v. g. Congar, Chenu, Schillebeckx, Tillard, De Lubac, Metz, etc.

Referiria que a Reforma surgiu num tempo em que se sofria de acentuada anemia teológica e filosófica e havia confusões entre o temporal e espiritual, distensões entre Mística e Teologia, entre Teologia e Filosofia e entre esta e as novas ciências emergentes, cada ciência afastando-se das outras num movi­mento centrífugo que nunca mais parou. Nicolau de Cusa, em pleno séc. XV, deu-se conta da questão, mas faltou-lhe fôlego para modificar ou clarificar a «desorientação». Um século depois, Giordano Bruno, fogoso, bem intencionado, mas com preparação deficiente, fez tentativas de síntese. Todavia resvalava para uma visão serni-panteísta. E foram Erasmo e Lutero que deram o tom à Reforma, aproveitando a renovação dos estudos bíblicos, mas com uma elaboração ecle­siológica truncada. E quer-me parecer que aos Reformadores em geral faltou um equipamento filosófico adequado, caindo em descrédito a razão especula­tiva e talvez o próprio racional e, por consequência, também a perspectiva sadia do «íntellectus fídei»,

Chegou-se à situação em que os Filósofos, Historiadores e Cientistas se sentem no direito e no dever de enunciarem a «verdade universal», cuja função, posteriormente, o próprio Estado assumiu. Basta relembrar o que foram as «Luzes» da Enciclopédia, ampliadas na tentativa frustrada da síntese de Hegel. De qualquer modo, em reação, dá-se o primado absoluto à «racionalidade filosófica», sem referências essenciais à Teologia, tanto católica como Refor­mada.



Hoje, espíritos brilhantes não admitem que existam verdades metafísicas enunciadas pela razão especulativa. Pior ainda: grande parte dos que se reclamam de cientistas ficam ao nível da ciência ideológica, apenas para a práxis industrial e comercial



Após a morte do genial Hegel em 1831, várias correntes se reclamavam de herdeiras do seu pensamento, embora com contradições evidentes. Seria longo referir as perspectivas de Marx, Kierkgaard, Nietzsche, sobre a raciona­lidade, a interpretação da Natureza e da História. O que se tornou patente é que não foi possível uma síntese, suficientemente ampla e simultaneamente rigo­rosa, que integrasse uma visão do Mundo e da Pessoa, da Cultura e da História, em consonância com a perspectiva da Revelação judeocrístã.

 

5. Já no século XIX, autores mais dedicados às ciências positivas do que à refle­xão filosófica, pretenderam encontrar uma saída, uma visão global interpreta­tiva. É que o «vazio» do idealismo hegeliano não satisfaz a necessidade do rea­lismo dos cultores das ciências do «controlável». Mesmo Kant julgou que seriam as perspetivas de Newton que poderiam levar a uma integração global da realíidade, E hoje, espíritos brilhantes não admitem que existam verdades metafísi­cas enunciadas pela razão especulativa. Pior ainda: grande parte dos que se reclamam de cientistas ficam ao nível da ciência ideológica, apenas para a práxis industrial e comercial. As razões profundas e últimas são escamoteadas, Quase tudo é comandado pelo fazer, pelo produzir e pelo prazer. E os sociólogos nem sabem o que pensar dos persistentes fenómenos de religião, de «fugas místicas», dos movimentos interrogantes sobre o que é a Vida e o que significa a Morte. Daí as «propostas» pouco satisfatórias de Morin e Ruyer como tentativas de resposta ao caos e ao vazio de sentido que atingiu certa cultura, mas onde pulsa a interrogação e a busca de resposta aos grandes problemas das Origens e do Fim.



Neste reaparecer do mundo mítico, com nítido interesse pelas ciências ocultas e adivinhação, é urgente que se trabalhe no sentido de encontrar as relações adequadas entre a Ciência, a Filosofia e a Fé, assumida em ciência teológica



De facto há movimentos de «instintiva» recusa do ateísmo sistemático.
Todavia, as perspetivas abertas assemelham-se à dos pitagóricos, estóicos, epicuristas ou, quando muito, são arremedos da gnose. E a imagem de Deus é semelhante ao panteísmo naturalista da Renascença, ou então a Realidade aparece como um todo dotado de confuso panpsíquismo, algo parecido com as perspectivas de Spinoza, com um Deus Cósmico, simultaneamente cons­ciente e ínconsciente.

Neste reaparecer do mundo mítico, com nítido interesse pelas ciências ocultas e adivinhação, é urgente que se trabalhe no sentido de encontrar as relações adequadas entre a Ciência, a Filosofia e a Fé, assumida em ciência teológica.

 

6. Mas por onde começar? Estas realidades não se devem dissociar totalmente.

Mas se há algo prioritário, seria o problema da hermenêutica para se verificar até que ponto é correta a reinterpretação da Revelação. Por outro lado há que ava­liar objetivamente o papel da Filosofia na História e em que pé se encontra a Teologia, e mais especificamente a Eclesiologia, para fazer uma reta avalia­ção do papel do racional e do írracional na Vida do pensamento e vivência eclesial. No fundo, bem vistas as coisas, o problema básico é da Teologia que não deve ignorar a Filosofia, para encontrar pistas de respostas sobre a natu­reza humana e da inteligência, além de buscar uma coordenação adequada dos diferentes tipos do saber. Em última análise, pertence à Filosofia investigar sobre a questão do Ser, sobre a Antropologia filosófica, etc.

Mas não falta quem ingenuamente se desinteresse da ontologia, con­fiado apenas nos progressos da Exegese e de hermenêuticas a inventar...

Como consequência, põe-se a questão da linguagem e, especificamente, da linguagem religiosa, capaz de expressar corretamente a Fé católica. Isso implica não cedência à tentação dos modelos idealista, materialista, psícana­lista, etc. Porque de contrário entrar-se-ia no puro subjetivismo, numa nova Babel. Mas isto fica para outra ocasião.


 

Edição: Rui Jorge Martins
Fonte: Público
Imagem: D.R.
Publicado em 22.02.2019

 

 
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