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Igreja e artistas: Voltamos a ser amigos?

Corria o ano de 1973 quando o papa Paulo VI, no discurso inaugural nos Museus do Vaticano da Coleção de Arte Religiosa Moderna, hoje Coleção de Arte Contemporânea, sublinhava como a arte do tempo podia ter um papel importante também no âmbito da mensagem evangélica e do seu relacionamento com a Igreja: «A arte religiosa é fruto de outra e agora ultrapassada época do espírito humano, ou é e pode ser também desta época, em que a raiz religiosa parece ter perdido tanto da sua mágica virtude inspiradora? (…) Há, hoje, uma arte religiosa, atual, moderna, filha do nosso tempo e gémea da arte profana, que ainda persegue e encanta o olhar, e também o espírito do homem do nosso século?».

O papa Montini quis estabelecer com os artistas um diálogo onde o debate entre temáticas sacras fosse profícuo e vivo, promovendo as novas linguagens expressivas do século XX. Durante demasiado tempo a Igreja parecia que estava limitada a pedir aos artistas modelos repetitivos inspirados pelos ditames do passado. É compreensível como os mestres de Novecentos dirigiram a inspiração para outros temas. É um facto que, como arcebispo de Milão, Montini trata de lançar, entre 1954 e 1963, os trabalhos para mais de 100 igrejas, oferecendo às periferias emplena expansão a presença de uma assistência religiosa, e definindo-as como «flores de espiritualidade no deserto», consolidando as relações com arquitetos e artistas, e reivindicando o papel identificativo da igreja, ponto de agregação e convergência.

Foi precisamente na capital lombarda que se intensificou o diálogo com pintores e escultores, graças também ao cenáculo que ganhou vida em torno da Galeria de Arte Sacra dos Contemporâneos, inaugurada em dezembro de 1955, dirigida pelo seu fundador, Dandolo Bellini, refinado cultor de arte, colecionista e mecenas. «Aqui me reconciliei com a arte moderna», declarou Giovanni Battista Montini, por ocasião de uma visita à instituição. Não foi por acaso que, eleito papa, chamou a trabalhar para a Igreja vários artistas dele conhecidos, bem como o próprio Bellini, para colaborar na realização da Coleção de Arte Religiosa Moderna do Vaticano.

Em maio de 1964, Paulo VI, na intervenção proferida aos artistas convidados para a audiência a eles dedicada na capela Sistina, perguntou: «Voltamos a ser amigos?». Procurava assim voltar a unir um rasgão que durou cerca de dois séculos, confirmando de facto o quanto os artistas são guardiães de beleza. «O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração. E isto por vossas mãos», acrescenta Paulo VI na mensagem aos artistas, em 1965, no encerramento do concílio Vaticano II.

A Galeria de Arte Sacra dos Contemporâneos inspirou-se na frase pronunciada pelo papa na capela Sistina, sobre o reatar da amizade, para organizar uma exposição, patente até 14 de abril, composta por 50 obras, algumas inéditas, sobre a relação de Paulo VI com os artistas.


 

Susanna Paparatti
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 12.03.2019

 

 
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