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Jornadas "Liturgia, Arte e Arquitetura nos 50 anos do Vaticano II": a crónica

As primeiras Jornadas de Liturgia, Arte e Arquitetura, realizaram-se nos passados dias 15 e 16 de novembro, na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, falando nos 50 anos do Concílio Vaticano II. Foi proposta uma retrospetiva crítica sobre renovação litúrgica e o seu reflexo nas comunidades, na arte e na arquitetura sacra contemporânea.

Num primeiro painel, dedicado à liturgia, o teólogo e frade Bento Domingues abordou a noção de “assembleia santa”, “comunhão” e “povo de Deus”, apoiando-se em textos fundamentais da Constituição do Concílio Vaticano II, sobretudo: “Sacrosanctum Concilium”, “Gaudium et Spes” e “Lumen Gentium”. De acordo com estas novas noções, fomos convidados a tomar consciência do modo como a liturgia e a Igreja se relacionam (reciprocamente).

Frei Bento Domingues afirmou: «Não se pode ter uma boa igreja com uma decoração miserável; nem uma boa decoração com uma música péssima ou uma homília desgraçada». A ideia da beleza na ação litúrgica é essencial; e acrescentava: «Na liturgia, a envolvência é total porque é presença e símbolo e só é eficaz quanto mais simbólica for». Os católicos não podem acomodar-se e dar como adquirida e garantida a beleza na liturgia.

A reforma litúrgica exprime-se numa nova organização do espaço litúrgico, que ainda não aconteceu na maioria das comunidades celebrantes. O padre jesuíta João Norton referiu que a partir do modelo da basílica romana adotado, em que o altar foi colocado ao meio, e o coro das catedrais medievais, que divide completamente o espaço da assembleia (como é visível em algumas catedrais espanholas), esta “igreja dentro da igreja”, com o altar avançado e a assembleia envolvente, pode ser modelo para as comunidades litúrgicas contemporâneas.

FotoLouise Bourgeois

O padre João Norton exemplificou com o que acontece na igreja de Santo Inácio, em Paris: a centralidade é colocada no ambão onde é proclamada a Palavra, na primeira parte da missa, e na segunda parte, onde se celebra a eucaristia, a comunidade movimenta-se e envolve o altar. Afirmou: «Hoje, a liturgia deixou de ter símbolos, tem formalidades que já não são símbolos».

O padre Arlindo Magalhães deu a conhecer a sua experiência na Comunidade Cristã da Serra do Pilar, em Gaia, e na adequação do espaço litúrgico do respetivo mosteiro à liturgia atual. Focou a relação entre a igreja e a comunidade, como se influenciam uma à outra, o modo como a comunidade se movimenta durante a celebração e as transformações que o espaço litúrgico pode ter nos dias de hoje para a liturgia ser um todo.

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No segundo painel foi abordada a relação entre liturgia e arte contemporânea, por Paulo Pires do Vale, curador e professor da Universidade Católica Portuguesa (UCP). Falou do caráter iniciático da arte, à semelhança do que acontece com a liturgia, e como esta pode ou não tirar partido da arte contemporânea e vice-versa. Deste modo foram abordados conceitos como «arte autêntica» e kitsch, contando a história da igreja de Notre-Dame de Toute Grâce, em Assy, França, célebre pela sua decoração interior com contributos dos melhores artistas do século XX, que lhe imprimiram uma visão moderna da arte sacra com «arte autêntica», propondo-se a ideia de que a arte e a vida estão ligadas.

Continuando na abordagem entre arquitetura e liturgia, o padre Joaquim Félix apresentou a sua experiência recente com a Capela da Árvore da Vida (Braga), inserindo-se numa equipa diversa constituída pelos seminaristas em formação, artistas, arquitetos e liturgistas, o segredo para desenhar esta capela.

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Para concluir o primeiro dia das Jornadas, o cardeal D. Gianfranco Ravasi (Pontifício Conselho para a Cultura), apresentou a sua perspetiva sobre o modo como a liturgia e as artes podem relacionar-se, como se deve desenvolver o espaço litúrgico (em torno dos fiéis), e como se deve entender a relação entre fé e arte. Nesta exposição, o cardeal falou também do Pavilhão da Santa Sé, para a Bienal de Veneza, no qual se pretende uma estrita relação entre a Igreja (enquanto instituição) e a arte contemporânea.

O segundo dia abriu com a presença do arquiteto italiano Glauco Gresleri, que nos anos do episcopado do cardeal Lercaro (1952-1968) participou com ele numa pastoral intensa, durante o Concílio Vaticano II (1962-1965), na periferia de Bolonha, com desafios sociais e urbanos em que a arquitetura das novas igrejas, a sua relação com a renovação litúrgica e a arte tiveram um papel preponderante. A igreja paroquial da Beata Vergine Immacolatta, em Certosa, é um dos episódios mais emblemáticos, um marco no diálogo entre a liturgia, a arquitetura e arte pastoral e contemporânea.

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O arquiteto João Alves da Cunha fez uma retrospetiva pela arquitetura religiosa nos últimos 50 anos depois do início do concílio, a par da aplicação dos documentos conciliares, cujos princípios são orientadores para o espaço litúrgico atual ou sua adequação.

O professor e arquiteto Bernardo Miranda falou dos conceitos de aggiornamento (atualização para a vida atual da tradição da Igreja) e ressourcement (regresso às origens, às fontes), tendo em conta que devemos habitar um espaço de forma criativa. Referiu: «Apesar do caminho apontado pela liturgia reformada, permanece na atualidade, arreigada, uma tendência para recuperar na forma do espaço e da liturgia uma imagem da Igreja desajustada da sua vocação atual no mundo».

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O último painel contou com os contributos do cónego Luís Manuel Pereira da Silva, liturgista e professor da UCP, Marco Daniel Duarte, diretor do Museu do Santuário de Fátima, e Diogo Lino Pimentel, arquiteto pertencente ao Secretariado das Novas Igrejas do Patriarcado de Lisboa, que ajudaram os participantes a sintetizar as ideias resultantes das diversas intervenções.

Concluiu-se que com o Concílio Vaticano II liturgia, arte e arquitetura reconheciam-se mutuamente e convergiam. A Igreja abria portas à arte e arquitetura moderna que se empenhavam em servir a Liturgia e seus rituais. A renovação litúrgica teve, pós-Concílio, a sua fase de entusiasmo e aplicação, e por outro lado surgiram contracorrentes.

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É visível que se caiu na rotina: a liturgia, arte e arquitetura, estagnaram. A abundância de imagens e a facilidade de acesso às mesmas, o recurso ao kitsch e a ausência de criatividade participativa das comunidades fazem com que desenhar um espaço religioso ou um objetivo litúrgico contemporâneo seja o desbravar de um caminho que está ainda no princípio.

Para projetar um espaço litúrgico tem de se conhecer o lugar e a comunidade onde se vai intervir, trabalhar em equipa, com arquitetos, artistas, liturgistas e clero que tenham consciência de que esta matéria exige uma formação permanente.

A encerrar as jornadas, o cardeal-patriarca D. José Policarpo referiu que a arquitetura exprime publicamente uma visão da Igreja, pelo que tem de ser uma visão confirmada pelo Magistério. «O bispo é o último guardião desta autenticidade eclesiológica. Para isso deve garantir serviços de qualidade que promovam a autenticidade da arquitetura religiosa e proíbam os desvios e as falsas soluções.»

O Concílio Vaticano II deixa o convite e o futuro abre a possibilidade de a liturgia, a arte e a arquitetura sacra contemporânea poderem ainda realizar a sua missão de mediação sacramental.

 

Estela Safara Cameirão, Elsa Barrelas
Gabinete de Arquitetura e Património da Arquidiocese de Évora
In A Defesa
Com SNPC
06.12.12

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