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Literatura e evangelização, a propósito de um livro sobre Sebastião da Gama

Uma das dificuldades que subsistem no estudo de grandes temas e de figuras da nossa cultura portuguesa, nomeadamente nos campos da literatura e da história, é a falta de conhecimento fundamental sobre história religiosa e rudimentos de teologia. Esta carência de formação-base resulta da desconsideração a que tem sido votada, tanto nos currículos escolares como académicos, a dimensão religiosa da nossa cultura, particularmente do legado cristão e católico que lhe é matricial.

De facto, é muito difícil captar o sentido íntimo de produções literárias e poéticas, da vida e ação de grandes figuras, se não tivermos em linha de conta o caldo espiritual onde esses criadores foram gerados e as fontes inspiradoras das suas obras. Cai-se não raro em abordagens superficiais, laterais, mesmo recorrendo a modernas e rigorosas metodologias científicas de análise. Raramente se consegue reconhecer as fontes onde o autor bebeu e os alicerces onde se funda a sua vida e obra.

No entanto, por vezes, o mundo editorial surpreende-nos com estudos patentes em livros que marcam a diferença e procuram captar as raízes que permitem perceber a grandeza das árvores frondosas e coloridas por belas flores e suculentos frutos.

Recentemente foi editado um livro de estudo sério e rigoroso que se inscreve exemplarmente no caminho desejável da compreensão de um grande poeta cristão e místico, como foi Sebastião da Gama.

Mercê de um trabalho aprofundado de um padre dehoniano, Alexandre Santos, a literatura une-se à teologia para interdisciplinarmente compreender o sentido de uma obra poética que pulsa na procura do divino.

Com o título "Sebastião da Gama: Milagre de Vida em busca do Eterno", Alexandre F. Santos, professor, pároco e agora também revelando-se um exímio investigador, oferece-nos uma interpretação profunda daquela que muito bem caracteriza como sendo a poesia do otimismo e da esperança.

Sebastião da Gama faz parte daquele grupo de ouro de poetas dos séculos XIX e XX que, na História da Literatura Portuguesa, podem ser classificados como sendo poetas de vida curta e de obra grande (exs.: Cesário Verde, António Nobre, Fernando Pessoa, Daniel Faria, etc.).

Nascido em Azeitão no ano de 1924 e falecido vítima de doença grave (tuberculose renal) em 1953, Sebastião formou-se na Faculdade de Letras de Lisboa e ainda teve tempo de lecionar a nossa língua portuguesa em Estremoz e de casar nove meses antes de morrer.

Apesar de ter vivido a sua juventude atormentada pela doença e ameaçada pela morte iminente, o poeta místico que passou a residir, por conselho médico, na Serra da Arrábida, a que dedicará uma obra chamada "Serra-mãe", soube beber nas fontes profundas da espiritualidade cristã e na tradição mística católica de que a Arrábida foi lugar de inspiração de grandes místicos, como Frei Agostinho da Cruz, e não perder o encantamento pela humanidade e pela natureza.

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Marcado por uma incessante procura de Deus e por uma fé de sabor franciscano que tendia a ver o dedo divino em todas as coisas, Sebastião distinguiu-se entre os vultos dominantes da poesia portuguesa contemporânea pela diferença de olhar a vida. A poesia contemporânea de marca existencialista e vitalista é marcada predominantemente por um pessimismo atroz, frustrativo, hipercrítico, depressivo e, por vezes, autodestrutivo, exprimindo mais experiências de desilusão pelo Homem e pelo mundo do que sentimentos de elevação.

Gama, tendo convivido e tendo conquistado a admiração de notáveis poetas do seu tempo (José Régio, Teixeira de Pascoaes, Sofia de Mello Breyner, David Mourão Ferreira,...), consegue fazer caminho próprio e oferecer uma poesia assente num otimismo absoluto de fundo cristão. Afirma-se como um poeta capaz de cantar a grandeza do homem e da natureza, os valores da amizade e do amor que elevam as relações humanas, o casamento como forma de vida capaz de felicidade e a fé inquebrantável de uma vida outra para além da terrena que continua e otimiza em deleite o bem feito nesta vida terrena.

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Ao mesmo tempo, a sua poesia e o seu Diário "pedagógico e social" propõem uma espécie de manifesto para refundar as relações sociais e transformar a pedagogia escolar, colocando o aluno no centro e o amor como valor pedagógico axial. Expressões cunhadas pela poesia de Sebastião da Gama, como "Não tenho muito que fazer, tenho muito que amar", "Ensinar é amar", "Pelo sonho é que vamos", acabam por ser uma proposta de ideário de vida, em ordem à construção de uma sociedade mais feliz.

A atualidade de Sebastião da Gama é flagrante em tempo de crise como o nosso, tempo de descontentamento social e até de desorientação em termos educativos. É de grande valia, pois, o estudo e a proposta de revisitação de Sebastião da Gama feita pelo livro de Alexandre Santos, que contribui com obra de grande valor para o conhecimento da nossa história cultural e literária. Além do mais, oferece um bom exemplo de trabalho científico ao serviço da evangelização da cultura e do investimento na cultura esclarecida e iluminada, como forma de evangelização.

 

José Eduardo Franco
Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
In Brotéria, dezembro 2012
© SNPC | 05.02.13

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Sebastião da Gama




























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