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Little Richard e o grito de batalha do rock’n’roll

«Awopbopaloobopalopbamboom»: ao fluir vagarosamente esta longa série de letras sem significado, damo-nos conta de que o seu som não é tão insólito. Com efeito, se o lermos com atenção, apercebemo-nos que a sequência é muito, mas muito familiar. Porque todos escutaram, vezes sem conta, o início de “Tutti frutti”, um dos grandes sucessos de Little Richard, falecido em Nashville a 9 de maio.

O percurso musical de Richard Wayne Penniman, ainda que o tenha acompanhado até aos últimos anos de vida, esgotou a sua força criativa e motora nos anos 50. Foi na década do rock’n’roll que se condensaram os seus maiores sucessos, do já citado “Tutti frutti” a “Long tal Sally”, de “Ready Teddy” a Slippin’ and slidin’, de “Lucille” a Good golly Miss Molly”.

Depois, a chegada dos Beatles revira o mundo da música, e relegou para segundo plano os primeiros rockers norte-americanos. No entanto, todos os músicos das gerações seguintes, a partir precisamente da banda de Liverpool, prestaram tributo àquele primeiro grupo de pioneiros do rock que, além de Little Richard, contava, entre outros, com Chuck Berry, Jerry Lee Lewis e Elvis Presley, a quem sorri um sucesso planetário verdadeiramente extraordinário.

Mas se Presley propunha do rock um rosto pop, a seu modo mais adocicado, os outros, e sobretudo Little Richard, afirmaram-se reiterando a radicalidade daquele género musical, a sua grande força transgressiva, destinada a sacudir os EUA do pós-guerra. Um rock’n’roll negro, venado de blues e de soul, em que de tudo se falava, menos de enfadonhas histórias de amor.

E precisamente nos textos Little Richard (que se apresentava em cena com uma caracterização e penteado que anos depois seriam retomados por Prince) revelou uma carga fora do comum, introduzindo o “nonsense” nos seus versos, que por serem privados de um rigor lógico, podiam libertar a própria carga liberatória da música.

Por isso, não surpreende que o seu desaparecimento tenha suscitado grande emoção. Entre as muitas mensagens difundidas após a morte, é particularmente comovente a de Bob Dylan, que descreveu Little Richard como a «minha luz-guia», «o espírito originário que me motivou a fazer tudo aquilo que fiz». É verdade que a música de Dylan, assim como os seus procuradíssimos textos, estão a anos-luz de Little Richard. Mas também o senhor Zimmerman, como todos, foi desde jovem sacudido pelo único verdadeiro grito de batalha do rock’n’roll: «Awopbopaloobopalopbamboom».


 

Giuseppe Fiorentino
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Little Richard | D.R.
Publicado em 13.05.2020

 

 
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