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Livro “Talvez escute Deus alguns poetas” inspira debate “A literatura enquanto desafio à fé cristã”

A Universidade Católica (UCP), em Lisboa, acolhe esta quarta-feira, 12 de dezembro, o debate “A literatura enquanto desafio à fé cristã”, com as intervenções de António M. Feijó, vice-reitor da Universidade de Lisboa, Peter Hanenberg e Alexandre Palma, professores, respetivamente, das Faculdades de Ciências Humanas e Teologia.

O encontro, organizado pelo Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião (CITER) da UCP, enquadra-se na apresentação do livro “Talvez escute Deus alguns poetas”, assinado por «um dos mais prestigiados teólogos alemães – Karl-Josef Kuschel», sublinha uma nota enviada ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

Publicada pela Universidade Católica Editora, a obra propõe dois artigos do autor de 70 anos, considerado, a nível internacional, «um precursor dos estudos de teologia da cultura, nomeadamente na sua vertente literária», «que ilustram algumas das suas experiências estimulantes de diálogo entre escritores e o cristianismo».

«Dentro da vasta obra deste eminente teólogo alemão, estes dois textos, acompanhados por um posfácio de Teresa Bartolomei, proporcionam uma noção nítida da grande atenção e sensibilidade viva com a qual o autor escuta e interpreta o diálogo entre homens das letras e figuras bíblicas; nesta obra em concreto a figura de Judas», assinala o CITER.

Os estudos reunidos no livro – de que oferecemos um excerto – «exibem uma inspiração surpreendente que provoca, de imediato, a vontade de mergulhar mais profundamente na riqueza de textos bíblicos ou na literatura inspirada por eles».

A sessão, com entrada livre, decorre na livraria da Universidade Católica, às 17h30.

O CITER, instituído em 2017, «tem por objetivo a organização, promoção e divulgação, numa perspetiva multi e interdisciplinar, das investigações em Teologia e Estudos de Religião, favorecendo um intercâmbio ativo entre estas áreas científicas, bem como as ligações de cada uma delas com outros campos do saber».

 

As imagens de Judas nas Escrituras cristãs
Karl-Josef Kuschel
In “Talvez escute Deus alguns poetas”

Analisando os livros cristãos primitivos, constatamos que a micronarrativa “traição de Judas” produziu quatro interpretações literárias distintas. Em cada versão podemos observar uma abordagem prospetiva a diferentes motivos para algo que parece ser abissal e para o qual não existe uma explicação plausível. A diversidade das narrativas dá a entender precisamente isso, bem como a crescente importância que lhe é atribuída a partir de Marcos, passando por Mateus e até João. Concretamente, porém, o “caso” Judas parece ser para todos um caso evidente. Houve um traidor pertencente ao círculo mais restrito que denunciou e entregou Jesus aos detentores do poder religioso. Esse traidor chama-se Judas. O motivo: a ganância. O carácter: hipócrita. Porque é que ele faz isso? Quais são os seus motivos? O mais tardar a partir de Lucas, os fiéis na comunidade cristã primitiva pensam saber que Judas se encontrava sob a influência de Satanás. Com isso, quaisquer outras explicações ou questionamentos tornam-se supérfluos. Harmonizando as diferentes fontes, obtemos uma imagem global: Judas atraiçoa o Filho de Deus por ganância sob influência satânica. A traição surge como particularmente infame porque Judas pertence ao círculo mais íntimo dos discípulos e porque esteve sentado à mesa com Jesus durante a “última ceia”. Particularmente hipócrita porque, nessa ocasião, Jesus ainda proferiu um aviso inequívoco dirigido ao traidor. “Mas ai daquele por intermédio de quem o filho da Humanidade é traído. Melhor seria para ele se não tivesse nascido esse homem” (Mt 26, 24). Mesmo assim… O beijo, o mais íntimo sinal de confiança entre duas pessoas, é aproveitado como sinal do engano, da dissimulação, da traição ao amigo. Isso irá caracterizar Judas para todo o sempre. Ele e todos os Judas da história. Não é pois de espantar que o fim de um tal homem tenha, forçosamente, de ser terrível. Em todo o caso, Mateus parece particularmente interessado em descrever ao pormenor a morte de Judas.

Um caso claro do Bem contra o Mal, de Deus contra Satanás, de que outra forma podíamos interpretá-lo? De facto, durante séculos a interpretação do caso deste Judas oriundo de Iscariotes pareceu concluída. Na história da teologia e da predicação cristã ele torna-se a figura de projeção do ódio a tudo quanto surge como mentira, engano e traição; na verdade, ele torna-se a própria negação do que é cristão, mobilizando o ódio a tudo o que parece conspirar contra o que é cristão, a começar pelos “judeus”. Judas, Jeduha, literalmente “o judeu”, torna-se assim na figura simbólica do povo dos traidores per se, para toda a eternidade responsável pelo assassínio do Cristo. Na figura simbólica para todos os defeitos de carácter atribuídos ao “judeu”: ganância, hipocrisia, mentira, traição…

Só no século XX os escritores questionam esta imagem, ousando formular uma leitura nova e diferente da história de Judas. Mas é a própria questionabilidade da história, evidente desde o início, que primeiro irá estimular a sua produtividade literária. Histórias demasiado evidentes são estéreis, as enigmáticas e contraditórias tornam-se literariamente férteis. E o drama Jesus-Judas não para de produzir interrogações e perplexidades. Será assim tão evidente, a história de Judas que a primitiva comunidade cristã nos lega? Ou não estará cheia de incoerências e contradições em relação a outros textos do mesmo Novo Testamento? Traição e enforcamento sabendo Jesus de tudo será isso compatível com a mensagem do Sermão da Montanha, do amor aos inimigos? Tendo constituído a ceia de despedida uma derradeira celebração do amor “em sua memória”, será possível que um dos companheiros de percurso mais íntimos possa cometer o seu ato vergonhoso, estando ele consciente de tudo? E os motivos de Judas, o seu carácter? Será plausível aquilo que nos é transmitido? Ter-nos-á sido transmitido tudo? Talvez tudo se tenha passado de uma forma completamente diferente. Poderá Judas ter atuado por outros motivos, que não esses, tão infames? E o aspeto metafísico? Se o Demónio está em jogo não é lançada também a questão da teodiceia? Ela teria de arder como uma ferida: porque é que Deus-Pai, na Sua justiça, permite que o seu Filho seja vítima da traição, da mentira, do engano? Finalmente, será possível transformar Judas de uma forma tão cruel no filho de Satanás, condenando-o ao inferno, sem interpelar Deus, o Justo? Consequência: as narrativas do Novo Testamento libertam agora, já não a nível interno, eclesiástico, mas externo, não cristão, uma nova dinâmica, capaz de produzir literatura. Aponto para dois exemplos: Walter Jens e Amos Oz.


Imagem D.R.

 

Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 10.12.2018

 

CITER
Título: Talvez escute Deus alguns poetas
Autor: Karl-Josef Kuschel
Editora: Universidade Católica Editora
Páginas: 96
Preço: 10,50 €
ISBN: 9789725406304

 

 
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