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Não desejar mulher e homem de outros: Um mandamento fora deste tempo?

O nono mandamento, muitas vezes ligado ao sexto (não cometer atos impuros) e ao décimo (não desejar os bens de outros), antes de indicar uma virtude, quer ser salvaguarda de uma convivência respeitosa entre indivíduos e famílias. Os interlocutores das indicações morais, nos povos antigos, dirigiam-se aos homens, daí a acentuação de não desejar a mulher.

A cultura moderna atualizou o convite: dever-se-ia dizer não desejar o homem, a mulher e – coisa horrível – deixar os menores em paz. O mundo dos desejos já não tem barreiras de género, mas expande-se, sem distinção, às coisas e às pessoas.

Não está em discussão a atração entre homem e mulher, mas a instabilidade dos próprios sentimentos e desejos, que impelem a procurar noutro afetos e proximidade.

Os dados fornecidos pelas estatísticas dos matrimónios celebrados, das separações e dos divórcios, das convivências pré-matrimoniais, indicam, sem sombra de dúvida, que a instabilidade das relações sentimentais está em crescimento constante.

Trata-se de um mandamento que, de facto, está fora da observância, porque a tendência para formas livres de relação mais ou menos estáveis é vivida como prática normal, e não pecaminosa. Hoje, podem ultrapassar em mais de metade os pais das crianças e jovens propostos para a primeira Comunhão e para o Crisma que não estabeleceram entre si o “regular” laço do matrimónio católico. Em relação aos futuros esposos, mais de 90% já convivem.

 

Um mundo mudado

Estou convicto de que a prática da não observância do nono mandamento tem raiz na fragilidade relacional que afeta jovens e menos jovens.

O ponto de partida está na infância. As crianças são de tal maneira protegidas, seguidas, dirigidas pelos pais, que lhes fazem sentir que serão seres excecionais quando chegarem a adulto: as mais inteligentes, as mais fortes, as mais amadas, as melhores resultantes da humanidade.

Esta sensação, potenciada pela exaltação do mundo das comunicações sociais, não habitua à solidão, à dor e ao exaustão, mas impele para o futuro no sentido de nele se encontrar o sentido que se considera justo. Não se trata de treinar soldados de uma força de elite, mas habituar a uma vida que é feita de sucessos, mas também de derrotas.

A uma maior liberdade de movimentos, simpatias, relações, não corresponde estabilidade, maturidade, responsabilidade, mas a liquefação em aventuras que nem sempre terminam com todos a viver felizes para sempre. Desejar a mulher ou o homem de outros – diferentemente de quanto se acredita – indica que a relação, a intimidade, o amor com quem se escolheu e amou já falhou: ninguém abandona o que ama, seja brinquedos, propriedades, afetos, relações, intimidades.

Esta fragilidade não é derrotada sequer pela experiência. Fica-se sem palavras ao ver acabar casamentos após longas vivências pré-matrimoniais, assim como constatar separações e divórcios em idades maduras.

 

A linha espiritual

As indicações da doutrina cristã a propósito dos desejos não deixam dúvidas sobre a conduta a ter no respeito das coisas e das pessoas. É sempre citado o passo de Êxodo 20,17: «Não desejarás a casa do teu próximo. Não desejarás a mulher do teu próximo, o seu servo, a sua serva, o seu boi, o seu burro, e tudo o que é do teu próximo». O Evangelho segundo Mateus é explícito: «Todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração» (5,28)

Na primeira leitura de S. João o horizonte alarga-se para uma espiritualidade que envolve toda a vida, dedicada às coisas do Céu: «Não ameis o mundo nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo - a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e o estilo de vida orgulhoso - não vem do Pai, mas sim do mundo. Ora, o mundo passa e também as suas concupiscências, mas quem faz a vontade de Deus permanece para sempre» (2,16-27).

Ao desejo da carne está em geral associado o prazer dos sentidos, com a propensão à libidinez, incluído o exagero no comer e no beber, características muito espalhadas (pense-se na atenção despropositada à alimentação). O desejo dos olhos, segundo Santo Agostinho, pode indicar curiosidade e superficialidade atentas às apareências. Por seu lado, o orgulho da vida diz respeito à segurança na existência terrena, descurando todo o empenho em relação ao mundo do espírito.

 

As respostas

Não é fácil apontar caminhos para atenuar a inquietação e instabilidade dos sentimentos e desejos. O Catecismo da Igreja católica indica na pureza dos corações e na temperança as condições que ativam o desejo por uma vida santa, segundo o Evangelho. Essas indicações são apoiadas por um equilíbrio afetivo, sem o qual as virtudes lutam para serem praticadas.

A primeira condição é viver um desenvolvimento afetivo equilibrado. A fase da vida após a puberdade é um momento delicado porque a atração entre homens e mulheres é forte e tumultuosa. É muito instável e pouco racional. Oferece grandes entusiasmos e grandes desilusões. Pode dizer-se que faz parte da procura de afetos estáveis e seguros. Por vezes encaminha-se para um percurso que conduzirá ao casamento; é importante que não se chegue a ele com as pilhas descarregadas, porque o matrimónio (se acontecer) rapidamente ficará desfeito.

Encontrar o parceiro ideal exige ternura, compreensão, afinidade, intimidade, mas não só. O ponto delicado é construir uma “vida”, fruto da mudança recíproca, orientada para a criação de um novo equilíbrio. Não se trata apenas de um impulso, de interesses comuns, de procriação. É algo de mais profundo. É indispensável começar do início, porque estar juntos significa paz, confiança, alegria.

Isto vale para o casamento e para a convivência. O casamento pode ser celebrado só depois de se ter colocado em ato esta orientação, que não é só espontaneidade e ligeireza, mas envolve a vontade.

Os antigos Padres da Igreja diziam que o “desejar” a mulher dos outros torna-se pecaminoso se envolve a vontade.

Infelizmente, vivemos num mundo de aparências e (digamo-lo) de costumes fáceis. Da mundanidade recebem-se mensagens de desejos e de amores temporários. Quem conhece um pouco destes mundos sabe bem que cada coração humano vai à procura de um equilíbrio que o faça estar bem. O que aparenta não corresponde, de todo, àquilo que se vê.

Neste contexto, a espiritualidade, sugerida insistentemente pelos conselhos evangélicos, não elimina nada dos equilíbrios humanos. Apoia-se nestes equilíbrios. Os afetos, a reciprocidade, são dom de Deus, como sugerido pelo texto do Génesis: «Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher. Abençoando-os, Deus disse-lhes: “Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra. Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todos os animais que se movem na terra”» (1,27-28).

O resultado desta proximidade é fruto de uma compreensão recíproca que não é só espontânea, mas também paciente, atenta, delicada, construída. Sem a tendência para construir unidade, nem a presença dos filhos nem as condições materiais conseguem sustentar-se ao longo do tempo.

Quando se celebram os 25 ou 50 anos de casamento, a ternura dos esposos adultos é semelhante à dos adolescentes, porque se percebe uma única vida vivida em conjunto.


 

Vinicio Albanesi
In Settimana News
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: kovalnadiya/Bigstock.com
Publicado em 24.01.2020

 

 
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