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«Não há espaço para o individualismo no diálogo com Deus»

Continuamos o nosso percurso para aprender cada vez melhor a rezar como Jesus nos ensinou [oração do Pai-nosso].

Disse Ele: quando orardes, entre no silêncio do teu quarto, retira-te do mundo e dirige-te a Deus chamando-o de «Pai!». Jesus quer que os seus discípulos não sejam como os hipócritas, que oram estando de pé nas praças para serem admirados pelas pessoas. A verdadeira oração é aquela que se realiza no segredo da consciência, do coração: imperscrutável, visível só a Deus.

Assim, ela evita a falsidade (…): com Deus é impossível fingir. Na sua raiz há um diálogo silencioso, como o cruzamento de olhares entre duas pessoas que se amam: o homem e Deus. Olhar para Deus e deixar-se olhar por Deus. (…)

Todavia, apesar da oração do discípulo ser confidencial, nunca degenera no intimismo. No segredo da consciência, o cristão não deixa o mundo fora da porta do seu quarto, mas traz no coração as pessoas e as situações.



Não há espaço para o individualismo no diálogo com Deus. Não há ostentação dos próprios problemas, como se nós fossemos os únicos no mundo a sofrer. Não há oração elevada a Deus que não seja a oração de uma comunidade de irmãos e irmãs



Há uma ausência impressionante no texto do Pai-nosso (…). Falta uma palavra (…) que nos nossos tempos – mas talvez desde sempre – todos têm em grande consideração (…): falta a palavra “eu”. Nunca se diz “eu”. Jesus ensina a orar tendo nos lábios antes de tudo o “Tu”, porque a oração cristã é diálogo: «Santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade» (…).

E depois passa ao “nós”. Toda a segunda parte do Pai-nosso é declinada na primeira pessoa do plural: «O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, não nos deixeis cair em tentação, livrai-nos do mal». Até os pedidos mais elementares do ser humano – como o de ter alimento para matar a fome – são no plural. Na oração cristã, ninguém pede o pão para si: suplica-o para todos os pobres do mundo (…).

Não há espaço para o individualismo no diálogo com Deus. Não há ostentação dos próprios problemas, como se nós fossemos os únicos no mundo a sofrer. Não há oração elevada a Deus que não seja a oração de uma comunidade de irmãos e irmãs. (…)

Na oração, um cristão leva consigo todas as dificuldades das pessoas que vivem junto dele: quando cai a noite, conta a Deus as dores com que se cruzou nesse dia; põe diante dele muitos rostos, amigos e até hostis; não os refuta como distrações perigosas.



Há homens que aparentemente não procuram Deus, mas Jesus faz-nos orar também por eles, porque Deus procura estas pessoas mais que todas. Jesus não veio para os sãos, mas para os doentes e os pecadores – isto é, para todos, porque quem pensa que está são, na realidade não o é



Se alguém não se dá conta de que à sua volta há muita gente que sofre, se não se apieda pelas lágrimas dos pobres, se já se habituou a tudo, então significa que o seu coração é de pedra. Nesse caso, é bom suplicar ao Senhor que nos toque com o seu Espírito e suavize o nosso coração. (…)

Cristo não passou incólume às misérias do mundo: cada vez que se apercebia de uma solidão, de uma dor do corpo ou do espírito, experimentava um forte sentido de compaixão, como as entranhas de uma mãe. Este “sentir compaixão” (…) é um dos verbos-chave do Evangelho: é ele que impele o bom samaritano a aproximar-se do homem ferido à beira da estrada, ao contrário dos outros que têm o coração endurecido.

Podemos perguntar-nos: quando rezo, abro-me ao grito de tantas pessoas próximas e afastadas? Ou penso na oração como numa espécie de anestesia, para poder estar mais tranquilo? (…) Neste caso, serei vítima de um terrível equívoco. Com certeza que a minha oração deixaria de ser uma oração cristã. Porque aquele “nós”, que Jesus nos ensinou, impede-me de estar em paz sozinho, e faz-se sentir responsável pelos meus irmãos e irmãs.

Há homens que aparentemente não procuram Deus, mas Jesus faz-nos orar também por eles, porque Deus procura estas pessoas mais que todas. Jesus não veio para os sãos, mas para os doentes e os pecadores – isto é, para todos, porque quem pensa que está são, na realidade não o é.

Se trabalharmos pela justiça, não nos sintamos melhores que os outros: o Pai faz erguer o seu Sol sobre os bons e sobre os maus. (…) Aprendamos de Deus, que é sempre bom com todos, ao contrário de nós, que só conseguimos ser bons com alguns que prezamos.

Santos e pecadores, somos todos irmãos amados pelo mesmo Pai. E, na noite da vida, seremos julgados pelo amor. Não um amor apenas sentimental, mas compassivo e concreto, segundo a regra evangélica: «Tudo o que tiverdes feito a um só destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes». Assim fala o Senhor.


 

Papa Francisco
Audiência geral, Vaticano, 13.2.2019
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Alessandro Vecchi/Bigstock.com
Publicado em 13.02.2019

 

 
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