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Novo livro da Cáritas Portuguesa recorda obra social e educativa de Teresa de Saldanha

O livro "Teresa de Saldanha: a obra sócio-educativa", de Helena RIbeiro de Castro, vai ser apresentado este sábado, em Lisboa, na casa mãe da congregação das Dominicanas de Santa Catarina de Sena, que iniciou em 1868.

Teresa de Saldanha (1837-1916) «foi a primeira mulher fundadora em Portugal após a extinção das ordens religiosas. Tinha uma personalidade forte, determinada, organizada, uma notável capacidade de liderança e era trabalhadora, culta e piedosa, valores que imprimiu ao longo da sua vida em todas as acções que realizou, não esquecendo jamais a sua grande paixão a Deus e aos pobres», refere a página da congregação.

«Foi, sem dúvida, uma grande figura feminina que se adiantou ao seu tempo, ao ocupar-se da educação feminina, e que soube corresponder às necessidades impostas pela evolução da sociedade», lê-se na biografia da religiosa portuguesa que à data da morte tinha fundado 27 casas em Portugal, Brasil, EUA, Espanha e Bélgica.

O volume, editado pela congregação e pela Cáritas Portuguesa, é prefaciado pelo diretor do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, António Matos Ferreira, texto que oferecemos aos nossos leitores.

A apresentação, marcada para as 17h30 no Largo de S. Domingos de Benfica, 14, será feita pelo investigador.

 

Prefácio: «Educar como missão e conversão»

Neste trabalho de Helena Ribeiro de Castro o leitor encontra uma pertinente abordagem sobre a personalidade significante de Teresa de Saldanha, reveladora da complexidade e das potencialidades existentes na sociedade portuguesa oitocentista e do início do século XX. Havendo já muitos escritos sobre esta mulher e a sua vida, este é certamente o primeiro estudo em profundidade, e como contributo académico, sobre a sua atividade percecionada na sua dimensão pedagógica, com inegável atualidade e originalidade.

Neste domínio, a sua singularidade não decorre só de questões de método ou de novidades didáticas. Sobretudo conhecida como católica, proveniente do círculo mais elevado da sociedade liberal com intuitos reformadores, e fundadora da congregação portuguesa das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, acabou por se insistir numa tendência analítica tendente a condicionar a esse percurso a compreensão da atividade de Teresa de Saldanha. Sendo certo e adequado o valor desta abordagem, se confinada a esta acaba por ser bastante redutora.

Esta obra de Helena Ribeiro de Castro vem acentuar outros aspetos, destacando-se a dimensão pedagógica enquanto educação, a qual assume em Teresa de Saldanha uma conduta de vida e, em certo sentido, foi esta maneira de ser – nas suas vertentes materiais e espirituais – que a projetou a criar ou a recriar iniciativas envolvendo outras jovens mulheres suas amigas, relacionando uma «educação regeneradora» com um modo de dar expressão ao sentido da vida religiosa consagrada. Neste percurso pode perceber-se com elevado grau de exatidão a articulação entre a capacidade de liderança e a profundidade das motivações.

Ninguém nasce educador, esta experiência estruturava-se pelo grau de análise (ou autoanálise) das suas capacidades e as daqueles com quem se relacionava: procurou assim entrosar vários elementos, todos eles com importância. A escolha de uma dedicação aos outros, elaborada a partir do seu matrimónio crístico, foi alimentada por uma fortíssima devoção eucarística. Pode parecer estranho utilizar esta linguagem para descrever uma opção pedagógica, mas tal dificuldade resulta de um desconhecimento ou de um equívoco. A prática da comunhão frequente, pouco comum à época, significava uma disciplina interior cuja vivência respeitava o procedimento assumido na sua vida pessoal e na relação de envolvimento com os que estavam à sua volta. Em Teresa de Saldanha houve uma escolha de liberdade pessoal que passou pela sua capacidade de organizar para servir educando, isto é, fazendo um percurso de melhoramento pessoal e de aptidões socioprofissionais.

Alargando progressivamente o envolvimento de vários atores, orientou-se inicialmente para «as meninas pobres», expressão da caridade encarnada, gerando a oportunidade de transformação pessoal das «meninas ricas». Um perspetiva educativa direcionada de dentro para fora, de si para os outros: a caridade que preencheria as exigências da pertença responsável à sociedade, certamente outra forma de compreender e de declinar a cidadania.

Expressão da época, onde a diferenciação social decorria da perceção da ordem social estabelecida, o seu agir não pretendia a revolução societária enquanto mudança política, mas assentava em algo que dizia respeito à questão da consciência e às decorrentes práticas, no sentido objetivo da utilidade: educar para mudar, mudar para socorrer os aflitos e os necessitados, com particular atenção ao feminino. Era um feminino que se compreendia no âmbito do casamento e da constituição da família, como apreciação da própria ordem social capacitada para induzir à felicidade e à realização.

O percurso de Teresa de Saldanha foi significativo porque, em certo sentido, apresentou-se como que «um agir político feminino» mas também um agir feminino no terreno do religioso. Por isto mesmo, pode-se atender que, sendo Teresa de Saldanha enquadrável dentro da ortodoxia e a disciplina eclesiais, demonstrou ser a experiência cristã não redutível à autoridade masculina, mesmo quando quer paternal quer eclesiástica.

É consensual que o século XIX foi um tempo missionário, portanto, essencialmente educativo e vice-versa. Esta dimensão cristianizadora, se tinha uma configuração ultramarina e colonial, foi em muitas sociedades uma dinâmica educativa interna, pois, nas emergentes sociedades de cidadania decorrentes da liberdade, a educação constituía uma exigência política e cívica.

Considerando todos estes elementos, estamos perante um estudo de longo fôlego realizado por Helena Ribeiro de Castro o qual nos permite compreender Teresa de Saldanha de uma forma integrada, onde a dimensão do religioso se inscreve como elemento unificador de uma vida de dádiva, mas ao mesmo tempo essa sua sensibilidade e essa sua vivência religiosa permitiram-lhe perceber a atitude pedagógica como concretização evangélica.

Estes aspetos têm hoje uma intensa relevância para além da particularidade confessional, pois, mesmo em sociedade secularizada, permanece como central a educação como instância de formação da cidadania. Esta, enquanto responsabilidade de pertença, não se reduz a uma moralidade em apêndice ao conhecimento mas implica um aperfeiçoamento que é também do caráter individual e do sentido do coletivo, onde o recomeçar é fundamental. O difícil não é a excelência. O difícil é como alcançar o possível, o vivível, com a realidade tal como ocorre. Por isso, diante das dificuldades e das situações objetivas de perseguição ou de retaliações, ou assim compreendidas, Teresa de Saldanha nunca esmoreceu porque soube confiar que era possível recomeçar, pois o horizonte não era o que tinha mas o que podia receber dos outros como dádiva – a experiência do futuro como conversão em face dos desafios do presente. Esta conversão se era interior, era também em Teresa de Saldanha acompanhada pela exigência, pela capacidade de realizar um juízo sobre pessoas e situações, como também de esperar, permitindo e valorizando a iniciativa de outros. A conversão tinha um sujeito e um objeto: o «nós» e os «outros», agir para que outros possam viver.

Procurar explicar tudo isto não decorre de qualquer tipo de endeusamento, para mais desnecessário, de Teresa de Saldanha. A grandeza pessoal não está só num fazer intocável mas num agir capaz de autocrítica, de recomeçar se necessário for e percebendo as conjunturas e as limitações dos meios existentes. A experiência pedagógica não é só um aprender «a ler, a escrever e a contar» mas a compreender a vida que constitui cada um e a comunidade. Afinal, com maior ou menor consciência, somos todos herdeiros de percursos e intuições tornadas operativas como os de Teresa de Saldanha.

 

Prefácio: António Matos Ferreira
22.11.12

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Capa

Teresa de Saldanha
A obra sócio-educativa

Autora
Helena Ribeiro
de Castro

Editora
Cáritas Portuguesa
Dominicanas de Santa
Catarina de Sena

Ano
2012

Páginas
465

ISBN
978-989-691-117-1

 

 

 

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