Concílio Vaticano II - 50 anos
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Memória

O primeiro dia do Concílio Vaticano II pelo teólogo Yves Congar

O padre francês Yves Congar (1904-1995) é um dos mais importantes teólogos católicos do século XX. Na data em que se assinalam os 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II (11.10.1962), apresentamos o registo desse dia que o religioso da Ordem dos Pregadores (Dominicanos) redigiu no seu diário.

Yves Congar, que em 1994 viria a ser escolhido para cardeal pelo papa João Paulo II, título que não recebeu por ter morrido antes da celebração, foi uma das personalidades mais influentes do concílio.

 

[Quinta-feira,] 11 de outubro de 1962

Entro na cerimónia inaugural. Parti às 7 horas com o Pe. Camelot. Entrámos pela Porta de Bronze e pela grande escadaria; extraviamo-nos, diante da Capela Paulina, para os lugares reservados aos bispos (vi o Mons. Guerry, que defende a ideia de uma Mensagem aos Homens); somos removidos dali por um enorme guarda, semelhante a um ogre: nós não teríamos sido capazes de inventar um bicho-papão assim tão perfeito. Erramos por ali à procura do lugar onde somos admitidos. Encontram-se ali o Pe. Salaverri, Mons. Schmaus, Mons. Fenton (e outros prelados americanos que falam alto), Mons. Colombo, o Pe. Tascón, etc. Finalmente, numa tribuna, com a condição de ceder os primeiros lugares, a qualquer momento, aos Padres Conciliares. Esforço-me por capturar o genius loci [o génio do lugar]. S. Pedro havia sido construída para isto. É um encantamento de cores, em que domina o ouro e o vermelho. A nave está inteiramente ocupada pelas 2500 cadeiras colocadas em bancada; diante do altar da confissão, sobre a própria confissão, o trono do Papa: Petrus ipse [o próprio Pedro]. Do lado direito, a estátua de S. Pedro está vestida à Bonifácio VIII; logo ali, como um cilindro, o ambão para os oradores. Os lugares mais próximos, tingidos de vermelho, para os cardeais; os outros, cobertos de verde, para os arcebispos e os bispos, alinham-se longamente. As tribunas estão cobertas de veludo vermelho e de tapeçarias. Tudo ali cintila, brilha e canta sob os projetores. É de uma solenidade um pouco fria. De génio decorativo um pouco teatral e barroco. Entre as tribunas, nos seus nichos, as estátuas gigantes de fundadores de ordens. Apenas identifico S. Inácio [de Loyola], que esmaga a impiedade. Queria que estas estátuas nos falassem! Que diriam elas? Imagino os seus discursos aos Homens de Deus, devorados pelo fogo do Evangelho.

Foto

Às 8h35 escutamos o ruído distante de uma marcha com passada militar. Depois, cantamos o Credo. Vim aqui para rezar: rezar com, rezar em. Com efeito, rezei bastante. Entretanto, para matar o tempo, um coral entoa sucessivamente tudo e não importa o quê. Os cantos mais conhecidos: Credo, Magnificat, Adoro te, Salve Regina, Veni Sancte Spiritus, Inviolata, Benedictus… Cantamos um pouco com eles.

Os mais curiosos colocaram-se à frente e sobem às cadeiras. Somos invadidos por jovens clérigos de todas as cores. Recuso-me a ceder a esta indiscrição incontida, de maneira que sou de tal modo relegado para o fundo da tribuna que não consegui ver o Papa. Pouco a pouco, mas muito lentamente, os bispos entram, com capas e mitras, pelo fundo das suas tribunas. Parecem mortos de cansaço e esmagados pelo calor. Retiram as mitras e enxugam-se. Os superiores das congregações chegam e tomam assento nos primeiros lugares da tribuna. Cabeças eclesiásticas grisalhas, visivelmente esculpidas pela regularidade dos exercícios de piedade e pelos comportamentos de prudência e edificação. Alguns tremem e parecem estar perto de colapsar. Outros são vigorosos.

Meu Deus, que me conduzistes até aqui por vias que não escolhi, eu me ofereço a Vós para ser, se quiserdes, o instrumento do vosso Evangelho neste acontecimento da vida da Igreja, que amo, mas que quereria menos «renascentista», menos constantiniana…

Ouvimos os aplausos na praça de S. Pedro. O Papa deve estar a aproximar-se. Ele entra, sem dúvida. Não vejo nada, atrás de seis ou sete linhas de sotainas sobre as cadeiras. Por momentos, na Basílica, os aplausos, mas nada de gritos nem palavras.

FotoPadres Joseph Ratzinger e Yves Congar

Canto do Veni Creator, alternado com a Sistina [o coro da Capela Sistina], que é um corpo de ópera. O Papa, com voz firme, canta os versetos e as orações.

A Missa começa, cantada exclusivamente pela Sistina: algumas peças de gregoriano (?) e de polifonia. O movimento litúrgico não chegou ainda à Cúria romana. Esta imensa assembleia não diz nada, não canta nada.

Diz-se que o povo judeu é o povo do ouvido, os gregos o povo do olho. Aqui nada mais há se não para o olho e para o ouvido musical: nenhuma liturgia da Palavra. Nenhuma palavra espiritual. Eu sei que uma Bíblia será colocada num trono, para presidir ao Concílio. Mas será que ela falará? Escutá-la-emos? Haverá aqui um momento para a Palavra de Deus?

Depois da Epístola, deixo a tribuna. Não posso mais. Além disso, estou esmagado por este aparelho senhorial e renascentista. Detenho-me um momento sob a nossa tribuna; diretamente atrás dos bispos, no alto da bancada, vemos o conjunto da imensa assembleia branca de capas e mitras, interrompida pelos bispos orientais com os seus hábitos e os seus chapéus coloridos. Sou expulso, ao fim de cinco ou dez minutos, por um guarda.

Tento sair da Basílica. Não é fácil. Nos corredores vazios e nas extremidades do transepto, um povo imenso de jovens clérigos circula, procurando esgueirar-se para um lugar onde se possa ver. Não mais se procura se não ver.

Foto

Ando pelo Vaticano. Na praça de S. Pedro, sob a colunata, acumulam-se pessoas. A rádio retransmite a missa. Da praça e da rua ouço o Prefácio, o Sanctus, o Pater e o Agnus. Regresso, de autocarro, cansado ao Angelicum[convento e universidade dos dominicanos em Roma]. Passada uma meia hora durante a qual a minha mão não saberia manejar uma pluma, redijo estas notas. Infelizmente, vi demasiado pouco o admirável senado dos bispos sentados. Não os vi mais que os cinco ou dez minutos durante os quais me detive na porta ao fundo e no alto das bancadas dos bispos. Toda a Igreja estava ali, personificada nos seus pastores. Mas lamento que tenhamos conservado um estilo de celebração tão estranho à verdade das coisas. Que seria se estas 2500 vozes tivessem, em conjunto, cantado pelo menos o Credo, se não mesmo toda a Missa, em lugar destes elegantes cantos de profissionais remunerados? Venho com um imenso e crescente desejo: 1. De ser evangélico, de ser um homo plene evangelicus [homem plenamente evangélico]; 2. De trabalhar. Disto se trata e isto permanece. Isto preparará, para o próximo Concílio, um estado de coisas onde aquilo que falta hoje se irá resolvendo por si.

À tarde. O Pe. De la Brosse, que viu tudo pela televisão (até às 12h30) diz-me que foi tudo muito belo, tudo muito bem feito, transmitido e explicado. Através da Telstar, o mundo inteiro pôde ver tudo, no preciso momento em que tudo se ia passando…! (não: somente o Europa em direto).

Reflito ainda sobre a cerimónia desta manhã. Na sua pompa, registo duas coisas: o facto, não somente necessário, mas normal e bom, da sua ordem, da sua solenidade e da sua beleza. É impossível fazer uma inauguração com quase 3000 participantes sem um certo desenvolvimento, sem um certo decoro. Isso foi inteiramente belo e nobre. Para lá disto, vejo quanto a Igreja é também oriental. (...)

Foto

Depois da cerimónia desta manhã, foi distribuída aos bispos uma bolsa contendo: folhas para eleger dezasseis de entre eles para cada uma das dez comissões; um livrinho contendo a lista integral e atualizada do episcopado católico; a lista, por comissão e em formato semelhante ao caderno de votos, dos bispos que faziam parte das comissões preparatórias. É um convite a elegê-los… É, de facto, defensável que exista uma certa continuidade entre o trabalho do Concílio e o das comissões preparatórias. Mas é defensável também que se faça agora uma outra coisa e melhor do que aquela que foi preparada: algo pastoral, menos escolástico. Quase todos os bispos que encontrei ou cuja opinião me foi relatada acham os quatro shemata [esquemas dos documentos] dogmáticos, demasiado escolásticos e filosóficos. Um Concílio, dizem eles, não existe para raciocinar, para falar do princípio de razão suficiente, etc.

No fundo, a escolástica entrou no governo da Cúria romana. As comissões preparatórias traduzem o estado das coisas, até porque elas quiseram fazer uma súmula de discursos e effata pontifícios e porque elas tinham sido formadas na sua grande maioria (praticamente todos os redatores dos schemata) de professores dos colégios romanos. Mas a escolástica não determina o governo pastoral das dioceses: e agora é ele que tem a palavra.

 

P. Yves Congar
In Mon Journal du Concile, I, Paris 2002, 105-110
Tradução: Alexandre Palma
© SNPC | 10.10.12

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FotoYves Congar

 

 

 

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