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O sentido profundo da oração de intercessão: Com o papa diante do Deus da vida

A Cabeça permanece, direita e humilde, entre Deus e o seu povo. Desta vez, não está diante da assembleia dos anciãos e da multidão dos fiéis. Está diante do seu e nosso Senhor, o Pai de todos, o Deus da vida que por mil vezes já nos fez sair das prisões da história, recolocando-nos a caminho, para que pudéssemos celebrar as suas bênçãos e testemunhar a sua misericórdia.

A Cabeça suplica a Deus, pela nossa vida e pelas suas promessas, que não nos abandone. Não somos santos, somos homens e mulheres que trazem os sinais da presença do amor de Deus na história. Não somos os melhores que Deus poderia encontrar, transportamos o tesouro da sua bênção em vasos de barro, várias vezes consertados, que estão juntos por milagre. No entanto, somos aqueles de quem Ele se ocupou. E durante gerações andámos penosamente atrás dele: muitos perderam o ritmo, muitos ficaram para trás, muitos perderam as forças e até a confiança. Somos aquilo que somos. Todavia, somos homens e mulheres que tudo desejariam, exceto ser separados dele.

E nunca pensámos verdadeiramente que uma criatura humana – quem quer que seja – possa ser abandonada por Ele. A Cabeça, só diante de Deus, representa solenemente todos nós. E não se subtrai a este ligame profundíssimo e pungente. Uma verdadeira cabeça é assim. “Se tu pensasses abandoná-los, Senhor, com todo o respeito, abandona-me também a mim, porque nem eu poderei seguir-te.” Uma verdadeira cabeça chega a este ponto.

Olho para o papa Francisco no meio da praça de S. Pedro, esvaziada do habitual ajuntamento, que está no meio entre Deus e o povo, para carregar sobre si o próprio símbolo da intercessão, em nome de todos os crentes e em favor de todos os viventes. Não consigo deixar de pensar naquela comovente passagem da oração de Moisés pelo povo, quando ousa dizer a Deus que não seria um bom sinal – para Ele – se abandonasse o povo agora, depois de o ter salvado de males bem piores.



Cada um de nós é chamado a redescobrir, inclusive no seu forçado isolamento, a bênção do gesto de intercessão. Cada um, pelos outros. A essência do cristianismo está aqui, a certeza da redenção está aqui. A intercessão comunica uma mensagem poderosa. Não se pense, sequer por um instante, que os nossos pecados podem induzir Deus a abandonar-nos na provação



Após o episódio do bezerro de ouro, com efeito, Deus oferece a Moisés um novo início, mais ou menos nestes termos: “Vamos acabar com estes, farei de ti o início de um novo povo e de uma nova história”. Moisés, porém, recusa a oferta, suplicando pelo povo: “São aqueles a cujos pais e mães prometeste promessas irrevogáveis” (cf. Êxodo 32,10). O sentido profundo da oração e da atitude de intercessão ilumina-se, aqui, de um esplendor emocionante. Uma verdadeira cabeça é assim.

Da mesma maneira comporta-se um verdadeiro sacerdote, uma verdadeira testemunha, um verdadeiro crente: “coloca-se no meio”, expondo-se na primeira pessoa diante do próprio Deus, pela vida de cada um: “Se os abandonares, não contes comigo”. Jesus – a Cabeça real da Igreja – selou o ato terno e poderoso desta intercessão da própria parte de Deus, inscrevendo-a na intimidade profunda e insondável do Pai. É este o nosso dogma, o dogma de todos os dogmas, compreendes? O Filho coloca-se no meio, o Filho intercede, o Filho não tem nenhuma intenção de abandonar-nos, mesmo quando, insuportavelmente, não se pode confiar em nós.

No horto das Oliveiras, Jesus pede para só Ele ser preso, deixando os discípulos (cf. João 18,7-9). Na cruz, pregado diante do Pai, pede para poupar os seus próprios perseguidores (cf. Lucas 23,24). Redescobrir o gesto da intercessão até esta profundidade é um milagre. E nos tempos difíceis para o povo, uma graça insubstituível.

Cada um de nós é chamado a redescobrir, inclusive no seu forçado isolamento, a bênção do gesto de intercessão. Cada um, pelos outros. A essência do cristianismo está aqui, a certeza da redenção está aqui. A intercessão comunica uma mensagem poderosa. Não se pense, sequer por um instante, que os nossos pecados podem induzir Deus a abandonar-nos na provação. E não se procure no próximo os males que nos afligem, substituindo a intercessão com a intimidação. Em momentos de extraordinária angústia, o simples e corajoso gesto da intercessão, que suplica de Deus o não abandonar ninguém, testemunhando que nós próprios o faremos, não tem preço. É um juramento de fidelidade que recompõe a comunidade: para cada um e para todos. Não nos moveremos daqui.


 

Pierangelo Sequeri
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Papa Francisco reza diante do Crucifixo de S. Marcelo | 15.3.2020 | Roma | © Vatican News
Publicado em 27.03.2020

 

 
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