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Ouro, incenso e mirra: O que diz a Bíblia, a poesia e a cultura sobre os presentes dos magos

«Os caminhos enlameados … os camelos em pústulas, os cascos em chaga … Momentos houve em que chorámos os palácios de verão sobre os penhascos, os terraços, e as sedosas meninas que sorvetes nos serviam…» Assim o famoso poeta Thomas S. Eliot canta, numa sua poesia de 1927, a viagem dos magos do distante Oriente para a modesta povoação de Belém, na Judeia. Mas, finalmente, eis a meta alcançada, indicada pela estrela: «Viram o Menino com Maria sua mãe, prostraram-se e adoraram-no. Depois abriram os seus cofres e ofereceram-lhe em presente ouro, incenso e mirra» (Mateus 2,11).

Fixaremos a nossa atenção sobre estes presentes, mencionados no Evangelho da Epifania do Senhor, também conhecido por Domingo de Reis (Mateus 2,1-12), que fascinaram igualmente a tradição artística, e que revelam, provavelmente, uma qualidade dos magos, a de estarem à cabeça de uma caravana de mercadores de materiais preciosos do Oriente.

A Bíblia refere alguns dos tesouros guardados nas profundidades da Terra, bem como os produtos mais refinados da vegetação. Nos presentes dos magos estes últimos são incarnados por duas resinas odorosas, distintas pelo aroma.

Por um lado há o incenso, que em grego é dito “lébanon”, precisamente como a nação do Próximo Oriente, e que é filtrado por algumas árvores. Ele tornou-se matéria dos sacrifícios do templo de Jerusalém porque, colocado sobre carvão em brasa, exalava para o céu, evocando a oração que saía dos lábios dos fiéis para Deus, como se canta no Salmo 141,2: «A minha oração está diante de ti como incenso».



«O homem põe um fim às trevas, e esquadrinha, com exatidão, as rochas que estão escondidas na escuridão. Abre galerias longe dos lugares habitados, que são ignoradas pelos pés dos caminhantes, porque estão em sítios inacessíveis»



Por outro lado, eis a mirra, em grego “smyrna”, tal como o nome de uma importante cidade da Ásia Menor (atualmente Turquia), nas margens do Mediterrâneo. Tratava-se da resina de um arbusto que cresce na Arábia meridional, de aroma forte, usado por isso para aliviar o fedor, mas também para conservar os cadáveres nos ritos fúnebres: também o corpo de Jesus foi tratado com «uma mistura de perto de cem libras de mirra e aloés» (João 19,39). Era, no entanto, utilizada, em pequenas doses, para imprimir um sabor forte ao vinho: também a Jesus, na cruz, será posto nos lábios «vinho misturado com mirra, mas Ele não o tomou» (Marcos 15,23).

Elevemos agora ao topo o ouro, o metal mais precioso na antiguidade, extraído das minas da Núbia, na atual Etiópia, e da Lídia, na Ásia Menor. Entra muitas vezes em cena na Bíblia como símbolo de esplendor (não se oxida) e de beleza (é maleável na elaboração de objetos ou estátuas). É, por isso, sobretudo no livro do Apocalipse, um símbolo de divindade: como não recordar, pela negativa, o vitelo de ouro adorado pelos Hebreus no deserto do Sinai?

Nós, no entanto, também o recordamos porque nos permite exaltar um dado relevante da atividade humana na Terra, a mineração (que vale também para as pedras preciosas e a prata). Infelizmente, sabemos que esta atividade importante foi e é muitas vezes deformada pela vergonhosa exploração por parte dos países ricos em relação aos pobres, que guardam sob as suas terras estas matérias raras, tal como é infame o recurso ao trabalho de verdadeiros escravos, tantas vezes crianças, para a sua extração.

Todavia, penetrar a superfície da Terra com a tecnologia à procura dos bens naturais é exaltado na Bíblia. Eis uma viva figuração da engenharia minerária no livro de Job: «Há lugares de onde se extrai a pratae lugares onde se funde o ouro. O ferro é extraído do solo e a pedra derretida converte-se em cobre. O homem põe um fim às trevas, e esquadrinha, com exatidão, as rochas que estão escondidas na escuridão. Abre galerias longe dos lugares habitados, que são ignoradas pelos pés dos caminhantes, porque estão em sítios inacessíveis. A terra que produz o pão é dilacerada por baixo como por um fogo. As rochas encerram a safira e contêm o pó do ouro» (28,1-6).


 

Card. Gianfranco Ravasi
Biblista, presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Famiglia Cristiana
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Adoração dos magos" (det.) | Domingos Sequeira | 1828 | Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
Publicado em 04.01.2020

 

 
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