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Aprender, transmitir

Comecei a visita ao Japão pelo chamado «Passeio dos Filósofos».  É um longo caminho silencioso junto de um dos braços do rio, onde duas pessoas podem caminhar não apenas durante uma hora, mas durante uma vida. Em vez de "Passeio dos Filósofos" seria, talvez, mais correto designá-lo por caminho «dos Mestres», ou «do discípulo e do Mestre», se pensarmos que a cultura japonesa nunca enveredou pelos modelos especulativos da filosofia ocidental, mas se fixou na procura de uma sabedoria que é, antes de tudo, uma arte de ser e de viver.

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Olhando deste caminho, que há centenas de anos pertence ao património da cidade de Quioto, para o nosso paradigma europeu, percebemos que as diferenças são tantas e todas dão que pensar. Nós fomos relegando as formas de aprendizagem para  escolaridades várias (desde a pré-primária às pós-graduações) e rodeamos de um implacável silêncio a formação para a sabedoria. O nosso sistema hipervaloriza os aspetos técnicos e extingue as humanidades: é uma complexa máquina de transmitir saberes que se demitiu de ajudar cada um na tarefa de encontrar unidade, sentido e sabedoria. Aprendemos a olhar com grandes lentes os confins do universo, mas, não raro, perdemos a capacidade de olhar e compreender o que nos está mais próximo.

A pensar nisso, deixei-me, esta manhã, percorrer o «Passeio dos Filósofos», recordando duas histórias de mestres e discípulos, talvez ocorridas por aqui. A primeira: «Um jovem atravessou o Japão em busca da escola de um famoso praticante de artes marciais.

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- O que pretendes de mim? - perguntou-lhe o mestre.

- Quero ser teu discípulo e tornar-me o melhor do país inteiro. Quanto tempo preciso de estudar?

- Dez anos, pelo menos.

- Dez anos é muito tempo, respondeu o rapaz. E se eu praticasse com o dobro da intensidade dos outros estudantes?

- Vinte anos.

- Vinte anos! E se eu praticar noite e dia, dedicando a isso todo o meu esforço?

- Trinta anos.

- Mas, se te digo que vou dedicar-me o dobro, respondes-me sempre que a duração será ainda maior?

- A resposta é simples. Quando um dos teus olhos está completamente fixo num ponto, só te resta um para olhares todas as outras coisas».

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E a história seguinte era esta: «Um discípulo foi ter com o seu professor de meditação, cheio de tristeza, quase a desistir, e disse: "A minha prática de meditação é um fracasso! Ou me distraio completamente, ou as pernas me doem muito, ou me entrego ao sono".

"Isso passará" - disse o mestre suavemente.

Uma semana depois, o mesmo estudante voltou à presença do mestre, mas agora eufórico:

"A minha prática de meditação tornou-se maravilhosa! Sinto-me tão vigilante e tão pacificado. É simplesmente extraordinário.

"O mestre respondeu-lhe com a mesma tranquilidade: "Isso também passará."».

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Não sei bem se a crise que hoje assola as escolas é uma crise que diga respeito só a elas. Em vez de crise de aprendizagem não deveríamos antes falar de crise de transmissão? Em vez de colocar o fardo do insucesso aos ombros da geração que principia, não deveríamos antes refletir sobre a qualidade e a validade daquilo que, como comunidade, nos dispomos a transmitir?

 

José Tolentino Mendonça
In Dnotícias.pt
Fotografias: Caminho dos Filósofos na primavera, verão, outono e inverno
05.12.10

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