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Os velhos deviam ser como exploradores

Há um poema de T.S. Eliot que diz:

«Os homens velhos deviam ser como exploradores...
Caminhando sempre em direção a uma nova intensidade,
a uma união mais alta, uma comunhão mais profunda...
………………………………………………………..
No meu fim está o meu início».

«Os velhos deviam ser como exploradores.» Tomo este repto para percorrer a Bíblia e reparo, mais uma vez, que no seu conjunto, a Bíblia conta mais Primaveras que Outonos, e algumas delas bem tardias e inesperadas. Obriga-me sempre a parar, por exemplo, aquela profecia de Joel: «Derramarei o meu espírito sobre toda a humanidade. Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos anciãos terão sonhos» (Jl 3,1). É possível os anciãos terem sonhos? Normalmente pensa-se que os sonhos pertencem à primeira etapa da vida: a seguir estamos condenados a somar receios, prudências e temores.

«Os velhos deviam ser como exploradores» - e a Bíblia sabe-o. É disso que nos fala já a narrativa inaugural de Abraão. Em Génesis 12 pode-se ler: «O Senhor disse a Abrão: “Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem. E todas as famílias da Terra serão em ti abençoadas.” Abrão partiu, como o Senhor lhe dissera... Quando saiu de Haran, Abrão tinha setenta e cinco anos» (Gn 12,1-4).

Chamado por Deus para encetar uma nova história quando pensava que a sua já havia terminado, Abraão vai ex­perimentar essa palavra como desafio inesperado à saída de si, à superação do seu contexto interior e até sociológico. Quando Deus toma a iniciativa, aquele homem rompe não apenas com o cenário geográfico e familiar que eram toda a sua segurança, mas também com o que isso significava: a proteção de uma cidadania, de uma moldura familiar estável, de uma pertença. A vida dele parecia resolvida. Ora, a fé começa por ser precisamente desafio a transcendermos a resolução individual da nossa existência ou as formas pretensamente definitivas que construímos para ela, e nos abrirmos até ao fim ao impacto das surpresas de Deus. A fé desinstala-nos para vivermos na dependência de Deus. Não há parques de estacionamento espirituais. Há sim a chamada ininterrupta a experimentar a itinerância de uma Promessa que é maior do que nós. Nem por acaso o primeiro modelo da fé bíblica é um ancião que se torna viajante, um aposentado que se faz à estrada, um homem que em princípio devia estar a viver do rendimento dos seus bens e que Deus manda olhar para os vastos céus, como se ele fosse um jovem enamorado, e tivesse as mãos vazias e os olhos rasgados de futuro. Mas o crente é assim: um peregrino com as mãos sempre vazias e os olhos cheios do que virá.

Penso muito no que o filósofo Sören Kierkegaard nos diz: «A verdade não é algo externo, que descobrimos com proposições frias e impessoais, mas algo que experimentamos no nosso interior, de maneira pessoal.» A fé é essa confiança pessoal colocada em Deus e que ultrapassa tudo.

 

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José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias da Madeira
07.02.11

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