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Conto de Natal

Um presépio japonês

À Memória do João Bénard da Costa

Naquele dia de outono, Quioto estava na plenitude da sua beleza. O Pavilhão de Prata, o Ginkaku-ji, apagava-se diante da natureza pujante. Percebíamos que o importante não era o facto de a prata nunca ter sido colocada para tornar o edifício mais espetacular. Tudo se passava, afinal, como se apenas faltasse um espelho, pois o essencial era o jardim e a ordenação magnífica da natureza. E é a memória do xógum Yoshimasa, no distante século XIV, que está presente, a partir da recordação de seu avô, o qual num gesto de suprema audácia, cobriu de folha de ouro o surpreendente Kinkaku-ji… Ali, porém, naquele momento, mais do que a prata ou o ouro, estava a natureza em toda a sua intensidade. E talvez a ausência da prata pudesse ter sido um desígnio dos deuses, para que as árvores e as plantas pudessem tornar-se mais evidentes na sua magnitude. Era o tempo do momiji, em que a natureza culta, domada pelo ser humano, é dominada pelas folhas escarlate, como se fossem flores. Deambulámos pelos caminhos do jardim, contámos as suas pedras, deslumbrámo-nos com os musgos tratados, com as águas, com os lagos, com os jardins secos, com o saibro riscado ou a terra cuidadosamente penteada a representar ilhas, oceanos e os rios da vida. E caminhámos pela via dos mestres. Foi então que, naquela peregrinação singular, encontrámos em amena conversa, nesse caminho que nos leva a Namzen-ji, um monge budista e um clérigo cristão. Com surpresa, ouvimos o diálogo de quem se assumia ora como mestre ora como discípulo.

Com voz serena, os dois mestres andavam e a sua conversa fluía, bem como os seus silêncios. Por vezes, eram longos silêncios, seguidos de frases ponderadas. Era surpreendente. E depressa percebemos que o tema que os ocupava era o silêncio. Afinal, o silêncio poderia ser o conhecimento, a sabedoria, a luz ou a natureza. Mas, naquele momento, era apenas o silêncio a estar em causa. Por momentos, olhavam e gozavam intensamente o moimiji, depois detinham-se na quietude das águas e dos pequenos lagos que faziam de espelho às plantas e às árvores, projetando a beleza natural. E tentavam perceber o que quereria o antigo xógum ao desejar tornar o seu pavilhão, ou o seu refúgio de montanha, como um lugar luminoso, coberto de prata – como se fosse mais um lago a projetar a serenidade da natureza viva.

O monge dialogava com o clérigo cristão ora em japonês ora num inglês correto, lembrando a sua passagem por uma universidade americana. O missionário, há muito vindo de Portugal, também alternava entre o japonês e o inglês, à procura das palavras corretas, que pudessem permitir a comunicação… E nos tempos de silêncio olhavam-se olhos nos olhos, procurando entender-se e compreender. O monge era jovem, não atingira ainda os quarenta anos, era bem constituído, tinha a cabeça e a face rapadas e estatura meã. O clérigo tinha uma longa barba ruiva, esbranquiçada, era seco de carnes e andaria nos sessenta anos.

A longa conversa prolongou-se, e o silêncio ganhava vários sentidos: como ausência de palavras, mas sobretudo como capacidade de ouvir o universo, e era a ligação natural entre o belo e o bem. A contemplação dos jardins tinha então um especial significado, os mares de saibro riscado, a ordenação das pedras, os montículos, os cursos de água, as folhas e as flores. Mas, para além dos jardins, havia as pinturas nas portas móveis, os bambus flexíveis, os tigres e as aves de penas exuberantes, sobre o dourado dos fundos. E havia as representações de Buda e dos bodhisatvas. A certa altura, o clérigo lembrou que, dias antes, passara pelo templo da Eterna Sabedoria e que entabulara conversa com outro monge, à espera de poder entender a sabedoria zen. Demorou a integrar-se naquele ambiente, sentou-se diante das quinze pedras do jardim seco e percebeu que nunca poderia vê-las a todas em simultâneo. O monge surpreendeu-se, contudo, com a atitude de compreensão do clérigo: “Já aqui estou há vinte anos e cada vez compreendo menos”. O silêncio como audição do universo é, afinal, do domínio do mistério, desse mistério que nos leva a ter dificuldade em entender o momento supremo que nos conduz à apreensão do que é belo. De súbito, o clérigo recordou-se do que lera dias atrás no romance de Shusaku Endo. “O Senhor não ficará em silêncio. Mesmo admitindo que Ele se mantenha calado, toda a minha vida até hoje falará d’Ele para todo o sempre”. Estavam em causa os cristãos escondidos e a barreira de cultura entre uma religião estrangeira e o enraizamento familiar da cultura japonesa. Mas de cristãos escondidos falava-se perante um Deus que também se esconde, entre a fé e a esperança. Ali no caminho dos filósofos, o monge budista não se surpreendeu com as hesitações do missionário. O monge conhecia bem a história passada do tempo dos mártires cristãos do Japão. Eles deram testemunho, mas também houve outros que preferiram mergulhar na vida japonesa, dilacerados entre a fidelidade do gesto e a fidelidade do princípio, tendo como fundo o silêncio mais dramático, que é o da dúvida e do remorso.

O final de dezembro aproximava-se e com ele o solstício do inverno. O missionário português que estivera em Quioto partiu para Nagasáqui, onde era professor e exercia funções pastorais. Mas aquela longa conversa de mestre a discípulo e de discípulo a mestre não poderia ser facilmente esquecida. Não compreendia nem a dúvida do monge budista sobre o sentido da quintessência zen nos jardins do templo da Eterna Sabedoria, nem o alcance da apostasia descrita por Shusaku Endo. O mistério do silêncio pesava intensamente. De facto, a verdade não se poderia aprender apenas pela aplicação dos sentidos. E a sementeira deixada pelo testemunho dos cristãos do século XVII ultrapassava em muito a dúvida e o remorso descritos pelo romancista. Antes da Missa do Galo, quando se paramentava para celebrar, o clérigo foi assaltado por todas as dúvidas e hesitações. “Podes pisar-me!” – pareceu dizer Cristo representado no “fumie” usado para consumar a apostasia. Como? Era o profundo mistério do silêncio que se manifestava – ausência de palavras e audição do universo, mas também fidelidade íntima. A distância cultural era mais forte do que os julgamentos precipitados. As notas que tinha preparado para a homilia espelhavam esses enigmas. Recordaria o Padre Petitjean, o missionário francês de Oura, chegado depois da restauração Meiji, surpreendido pela presença de muitos cristãos que ninguém suspeitava existirem, cristãos que se tinham mantido fiéis, em silêncio, havia mais de duzentos anos. E todos os anos o milagre ali se repetia, num presépio vivo. Nesse ano não foi diferente. A igreja encheu-se de gente desconhecida. E muitos fiéis daquela noite traziam pequenas imagens de Kannon, a imagem búdica da misericórdia e do cuidado. Eram imagens antigas, tradicionais, assinaladas por uma pequena cruz, em que as crianças figuravam o Salvador do Mundo junto de Sua amorável Mãe. E o clérigo lembrou-se: «Mesmo admitindo que o Senhor se mantenha calado, toda a minha vida falará d’Ele para todo o sempre».

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Presidente do Centro Nacional de Cultura
28.12.10

FotoCatedral de Santa Maria, Tóquio
Foto: guen-k

















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