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Papa Francisco ofereceu "curso de preparação para o matrimónio" e deu conselhos «para sempre»

O papa Francisco encontrou-se na manhã desta sexta-feira com mais de vinte mil noivos de vários países que se estão a preparar para o matrimónio, por ocasião da memória litúrgica de S. Valentim, padroeiro dos namorados.

A iniciativa, que decorreu na Praça de S. Pedro, no Vaticano, começou com testemunhos, música e poesia. O papa chegou depois, tendo respondido às perguntas colocadas por três casais de noivos, antecipadamente escolhidas.

O “para sempre” do casamento cristão, as três palavras que consolidam a «arte» de viver juntos e os critérios que determinam a celebração do sacramento e a festa que se lhe segue constituíram os temas abordados por Francisco, numa intervenção pautada pelo improviso e pelo humor, de que apresentamos alguns excertos.

 

O medo do “para sempre”

«Esta é uma pergunta que devemos fazer: é possível amar-se “para sempre”? Hoje muitas pessoas têm medo de fazer escolhas definitivas. Um rapaz dizia ao seu bispo: “Eu queria tornar-me sacerdote, mas só por dez anos”. Tinha medo de uma escolha definitiva. Mas é um medo geral, próprio da nossa cultura. Fazer escolhas para toda a vida parece impossível. Hoje tudo muda rapidamente, nada dura a longo prazo… E esta mentalidade leva muitos que se preparam para o matrimónio a dizer: “estamos juntos até que dure o amor”, e depois? Muitos e cumprimentos e vamo-nos vendo… E acaba assim o matrimónio.

Mas o que entendemos por “amor”? Só um sentimento, um estado psicossomático? Se é isto, não se pode construir sobre alguma coisa de sólido. Mas se em vez disso o amor é uma relação, então é uma realidade que cresce, e podemos também dizer, como exemplo, que se constrói como uma casa. E a casa constrói-se em conjunto, não sozinhos. Construir, aqui, significa favorecer e ajudar a crescer. Caros noivos, estais-vos a preparar para crescer juntos, para construir esta casa, para viver juntos para sempre. Não a quereis fundar sobre a areia dos sentimentos que vão e vêm, mas sobre a rocha do amor verdadeiro, o amor que vem de Deus.

A família nasce deste projeto de amor que quer crescer como se constrói uma casa que seja lugar de afeto, de ajuda, de esperança, de apoio. Como o amor de Deus é estável e para sempre, assim também o amor que funda a família queremos que seja estável e para sempre. Por favor, não devemos deixar-nos vencer pela “cultura do provisório”. Esta cultura que hoje invade tudo.»

«Assim, como se trata este medo do “para sempre”? Trata-se dia a dia, confiando-se ao Senhor Jesus numa vida que se torna um caminho espiritual quotidiano, feito de passos – passos pequenos, passos de crescimento comum -, feito de compromisso para se tornar mulheres e homens amadurecidos na fé. Porque, queridos noivos, o “para sempre” não é só uma questão de duração. Um matrimónio não é conseguido apenas se dura, mas é importante a sua qualidade. Estar juntos e saberem amar-se para sempre é o desafio dos esposos cristãos.

Vem-me à ideia o milagre da multiplicação dos pães: também para vós, o Senhor pode multiplicar o vosso amor e dá-lo fresco e bom a cada dia. Ele tem uma reserva infinita! Ele dá-vos o amor que está no fundamento da vossa união e renova-o, reforça-o a cada dia. E torna-o ainda maior quando a família cresce com os filhos. Neste caminho, é importante, é necessária, a oração, sempre. Ele por ela, ela por ele e ambos juntos. Pedi a Deus para multiplicar o vosso amor.

Na oração do Pai-nosso, dizemos: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Os esposos podem aprender a rezar também assim: “Senhor, o amor nosso de cada dia nos dai hoje”, porque o amor diário dos esposos é o pão, o verdadeiro pão da alma, aquele que o sustenta para avançar. (…) Esta é a oração dos noivos e dos esposos. Ensina-nos a amar-nos, a querer-nos bem. Quanto mais vos confiardes a Ele, mais o vosso amor será “para sempre”, capaz de renovar-se, e vencerá cada dificuldade.»

FotoREUTERS/Tony Gentile

 

Viver juntos: o “estilo” da vida matrimonial

«Viver juntos é uma arte, um caminho paciente, belo e fascinante. Não acaba quando vos conquistastes um ao outro… Na verdade, é precisamente então que começa. Este caminho de cada dia tem regras que se podem resumir nestas três palavras (…), palavras que muitas vezes repeti às famílias: “posso?”, “obrigado” e “desculpa”.

“Posso?” É o pedido gentil para poder entrar na vida de alguém com respeito e atenção. É preciso aprender a pedir: posso fazer isto? Agrada-te que façamos assim? Que tomemos esta iniciativa, que eduquemos assim os filhos? Queres sair esta noite? Em suma, pedir permissão significa saber entrar com cortesia na vida dos outros. Escutai bem isto: saber entrar com cortesia da vida dos outros. E não é fácil, não é fácil. (…)

O amor verdadeiro não se impõe com dureza e agressividade. Nos “Fioretti” de S. Francisco encontra-se esta expressão: “Sabei que a cortesia é uma das propriedades de Deus… e a cortesia é irmã da caridade, a qual extingue o ódio e conserva o amor”. Sim, a cortesia conserva o amor. E hoje, nas nossas famílias, no nosso mundo, muitas vezes violento e arrogante, há necessidade de muito mais cortesia. E isto pode começar em casa.

“Obrigado.” Parece fácil pronunciar esta palavra, mas sabemos que não é assim… Mas é importante. Ensinamo-la às crianças, mas depois esquecemo-la. A gratidão é um sentimento importante. Uma idosa, uma vez, dizia-me em Buenos Aires: “A gratidão é uma flor que cresce em terra nobre”. É necessária a nobreza da alma para que cresça esta flor.

Recordais-vos do Evangelho de Lucas? Jesus cura dez doentes de lepra e depois só um volta atrás para agradecer a Jesus. E o Senhor diz: e os outros nove, onde estão? Isto vale também para nós: sabemos agradecer? Na vossa relação, e amanhã na vida matrimonial, é importante ter viva a consciência de que a outra pessoa é um dom de Deus, e aos dons de Deus diz-se “obrigado”. E nesta atitude interior dizer-se obrigado mutuamente, por cada coisa. Não é uma palavra gentil a usar com os estranhos, para ser educado. É preciso saber-se dizer “obrigado” para avançar bem em conjunto na vida matrimonial.

A terceira. “Desculpa”. Na vida cometemos tantos erros, tantas falhas. Todos os cometemos. Mas talvez haja aqui alguém que nunca tenha tido uma falha? Levante a mão, se há alguém… (…). Todos as temos! Todos! Talvez não haja dia em que não tenhamos alguma. A Bíblia diz que o mais justo peca sete vezes ao dia. E portanto nós temos falhas… Eis então a necessidade de usar esta simples palavra: “Desculpa”. Geralmente, cada um de nós está pronto a acusar o outro e a justificar-se a si próprio. Isto começou com o nosso pai Adão, quando Deus lhe pergunta: “Adão, comeste daquele fruto?” “Eu? Não! Foi ela que mo deu!”. Acusar o outro para não dizer “desculpa”, “perdão”. É uma velha história. É um instinto que está na origem de muitos desastres.

Aprendamos a reconhecer os nossos erros e a pedir desculpa. “Desculpa se hoje levantei a voz”; “desculpa se passei sem te falar”; “desculpa se me atrasei”, “se esta semana andei tão silencioso”, “se falei demasiado sem nunca escutar”; “desculpa, esqueci-me”; “desculpa, enfureci-me (…)”… Tantas “desculpa” que podemos dizer ao dia. Também assim cresce uma família cristã. Todos sabemos que não existe a família perfeita, nem o marido perfeito ou a mulher perfeita. Não falemos da sogra perfeita… Existimos nós, pecadores.

Jesus, que nos conhece bem, ensina-nos um segredo: nunca acabar um dia sem pedir-se perdão, sem que a paz recomece na nossa casa, na nossa família. É habitual a discussão entre os esposos, há sempre alguma coisa, discutimos… Talvez tenhais ficado furiosos, talvez tenha voado um prato, mas por favor recordai isto: nunca terminar o dia sem fazer as pazes. Nunca, nunca, nunca! Este é um segredo, um segredo para conservar o amor e para fazer as pazes. Não é necessário fazer um belo discurso (…). Se tu terminas o dia sem fazer as pazes, no dia seguinte o que tens dentro está frio e duro, e é mais difícil fazer as pazes. Recordai bem: nunca terminar o dia sem fazer as pazes. Se aprendermos a pedir desculpa e a perdoar-nos, o matrimónio durará, avançará. Quando às audiências ou à missa, aqui ou em Santa Marta, vêm esposos idosos, que fazem o 50.º aniversário, pergunto: “Quem suportou quem?” É bonito, isto! Todos se olham, olham-me, e dizem-me: “Ambos!” E isto é bonito! Este é um bonito testemunho!»

FotoREUTERS/Tony Gentile

 

O estilo da celebração do Matrimónio

«Fazei de maneira que seja uma verdadeira festa – porque o matrimónio é uma festa, uma festa cristã, não uma festa mundana. O motivo mais profundo da alegria desse dia está indicado no Evangelho de João: recordais-vos do milagre das bodas de Caná? A certa altura o vinho falta e a festa parece estragada. Imaginai acabar a festa a beber chá! Não, não dá! Sem vinho não há festa!

Sobre a sugestão de Maria, naquele momento Jesus revela-se pela primeira vez e dá um sinal: transforma a água em vinho, e assim fazendo salva a festa das bodas. O que aconteceu em Caná, há dois mil anos, acontece na realidade em cada festa nupcial: o que tornará pleno e profundamente verdadeiro o vosso matrimónio será a presença do Senhor que se revela e dá a sua graça. É a sua presença que oferece o “vinho bom”, é Ele o segredo da alegria plena, aquela que aquece verdadeiramente o coração. É a presença de Jesus nessa festa. Que seja uma festa bonita, mas com Jesus. Não com o espírito do mundo, não! Isto sente-se quando o Senhor está lá.

Ao mesmo tempo, porém, é bom que o vosso matrimónio seja sóbrio e realce o que é verdadeiramente importante. Alguns estão mais preocupados com os sinais exteriores, o banquete, as fotografias, os vestidos e as flores… São coisas importantes numa festa, mas só se são capazes de indicar o verdadeiro motivo da vossa alegria: a bênção do Senhor sobre o vosso amor. Fazei de maneira que, como o vinho de Caná, os sinais exteriores da vossa festa revelem a presença do Senhor e recordem, a vós e a todos, a origem e o motivo da vossa alegria. (…)

O matrimónio é também um trabalho de todos os dias, diria um trabalho artesanal, um trabalho de ourives, porque o marido tem a tarefa de fazer mais mulher a esposa e a mulher tem a tarefa de fazer mais homem o marido. Crescer também em humanidade, como homem e como mulher. E isto faz-se entre vós. Isto chama-se crescer juntos. Isto não vem do ar. O Senhor bendi-lo, mas vem das vossas mãos, das vossas atitudes, do modo de viver, do modo de vos amardes. Fazer-se crescer! Fazer sempre de maneira que o outro cresça. Trabalhar para isto. (…) E os filhos terão esta herança de ter tido um pai e uma mãe que cresceram juntos, fazendo-se – um ao outro – mais homem e mais mulher.

FotoAP Photo/Alessandra Tarantino

 

Papa Francisco
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Trad.: SNPC/rjm
© SNPC | 14.02.14

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FotoPapa Francisco
Praça de S. Pedro, Vaticano
14.2.2014
Foto: REUTERS/Tony Gentile

 

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