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Para melhor conhecer o Islão: origens, calendário, festas e celebrações

Imagem Meca | D.R.

Para melhor conhecer o Islão: origens, calendário, festas e celebrações

Os territórios da atual Arábia Saudita apresentam uma multiplicidade religiosa significativa entre heranças muito recuadas, integrações circunvizinhas e especificidades da cultura local. De facto, e apesar de ser um território francamente menos influenciado do que outros pelas matizes culturais envolventes, as formas de religiosidade aí existentes não deixaram de sofrer algumas influências marcantes, nomeadamente as vindas do Judaísmo e do Cristianismo.

A partir da domesticação do camelo, no começo do primeiro milénio a.E.C. [antes da Era Comum], constituíram-se no deserto arábico rotas de caravanas comerciais (como a "rota do incenso"), que facilitaram as transações cultuais entre o fechado deserto arábico e as restantes culturas do Médio Oriente.

O futuro do Islão permanecerá ligado às longas e lucrativas caravanas, mantendo sempre um certo horizonte de nobreza associado ao caravanismo, criando formas sincréticas entre os monoteísmos com que tomavam contacto, os cultos locais e a novidade civilizacional que seria o Islão nascente.

A nível de religiosidade autóctone, antes do século VII, acima de todos os deuses estava "Ilahi", o «deus» por excelência (como o nome indica, o próprio vocábulo "Ilahi" significa deus, tal como o nosso vocábulo "deus" o significa). Importante também era "Al-Llat", deusa da Lua, devoção provavelmente introduzida a partir da Síria, e análoga à grande Deusa-Mãe cujo culto se encontrava largamente difundido pelo Médio Oriente.

Os coraixitas, a tribo a que pertencia o Profeta Muhammad, prestava uma reverências especial a "Al Uzza", a deusa do planeta Vénus. Era uma das divindades mais proeminentes associadas com a "Caaba", que era já, e desde muito recuadamente, um grande centro de peregrinações.

A "Caaba" era uma estrutura em forma de cubo, sem ornamentação exterior, construída em torno de uma Pedra Negra, de grande valor sagrado. Nela se encontravam imagens de muitas divindades, embora não houvesse nenhuma do Deus Supremo.

Todos os anos se proclamavam tréguas de quatro meses que permitiam a vinda de devotos das tribos circundantes - nos meses Dulcadá ("Dhul-Kadah"), o 11.º; Dulijá ("Dhul-Hijja"), o 12.º; Muarrã ("Muharram"), o 1.º; e Rajabe ("Rajab"), o 7.º. Os ritos implicavam circular em torno da Caaba e entrar numa corrida sagrada entre dois montes vizinhos à cidade. Estes elementos passaram, posteriormente, para o Islão, depois de Muhammad ter estabelecido o monoteísmo.

Sistematizando, antes da atividade do Profeta, aquilo que se pode designar como religião pré-islâmica, correspondia, em especial, a grupos humanos com uma vida nómada, organizados de forma tribal, sem qualquer tipo de relação federal. A religiosidade tradicional da península arábica, quanto às representações e práticas, distribuía-se por três conjuntos fundamentais:

- Culto de pedras (incluindo práticas de adivinhação);
- Sacrifícios aos "djinns" (espíritos da natureza);
- Crenças relativas a figuras divinas femininas (sobretudo "Al-Lat", "Al-Uzza" e "Manat").

Para além destas influências locais, desde o séc. VI a.E.C. que existiam colónias judias a norte; colónias estas que irão influenciar em muito o nascimento de uma religião monoteísta na região. Mais, a partir do séc. IV a.E.C. passou a haver também uma grande comunidade judaica no Iémen, a sul.

Os cristãos eram ativos em Meca, e quer a Igreja Monofisita quer a Igreja Nestoriana tinham um relativo sucesso na evangelização dos povos do Norte da Arábia. Contudo, os cristãos árabes monofisitas eram muitas vezes perseguidos em nome da ortodoxia cristã. Quer pelas perseguições de que eram alvo, quer pela proximidade teológica, os monofisitas abraçaram posteriormente o Islão.

O Islão, que nasce neste contexto cultural e religioso, centrado em "Allah", Deus (é importante ter em conta que este vocábulo tem a particularidade de não ter nem género, nem plural, definindo, assim, por excelência os atributos de Deus Único e Indivisível, Sem Forma Física, Género ou Cor), é uma das três religiões da família Abraâmica. Começou em Meca, quando em 610 Maomé, "Muhammad", recebeu, através do Arcanjo Gabriel, a primeira revelação de Deus que reafirmava a doutrina de Abraão, "Ibrahim", da unicidade de Deus e que fora anteriormente confirmada pelos Profetas Moisés, "Musa", e Jesus, "Isa".

Os muçulmanos são hoje cerca de 1,5 milhões espalhados pelo mundo, concentrando-se predominantemente na Ásia, no Médio Oriente e em África. Têm hoje também uma presença relativamente forte na Europa com 10 milhões de crentes, sendo mesmo em alguns países europeus a segunda religião mais numerosa. Nos Estados Unidos da América estima-se que existam, atualmente, entre 6 a 7 milhões de muçulmanos.*

 

Calendário dos meses do Islão

Calendário de 12 meses lunares (da Lua Nova até à Lua Nova seguinte, cf. Sura 9:36). Começou no ano 622 E.C. (1.º da "Hégira", saída do Profeta Maomé, de Meca para Medina). Em cada ciclo de 30 anos, tem 11 anos com 355 dias e os restantes com 354 dias.

Os meses, do 1.º ao 12.º: Muarrã (29/30 dias), Sáfar (29), Rabi I (30), Rabi II (29), Jumada I (30), Jumada II (29), Rajabe (30), Xabã (29/30), Ramadão (29/30), Xaual (29), Dulcadá (30) e Dulijá (29/30).

 

Festas e celebrações

1 Muarrã: Início do Ano Novo Islâmico, em que se comemora a saída do Profeta Muhammad de Meca para Medina.

10 Muarrã: "'Aashurá": dia de jejum em reparação das faltas do ano anterior. Lembra-se a saída de Noé da arca e a passagem do Mar Vermelho por Moisés.

12 Rabi I: Nascimento do Profeta Muhammad (cerca de 570 E.C.).

27 Rajabe: Celebra-se a "Miraj" (Ascensão): viagem noturna do Profeta Muhammad, guiado pelo anjo Gabriel, através dos céus. Na companhia de outros Profetas, orou e recebeu de Deus diversas instruções, tais como o preceito das cinco orações diárias.

15 Xabã: Celebra-se a "Noite do Perdão", em que os fiéis se dispõem ao perdão ao seu semelhante.

1 Ramadão: Início do mês do Ramadão, sagrado e de jejum.

27 Ramadão: "Layat-Al-Qadr". Já perto do fim do jejum do Ramadão. comemora-se a aparição do anjo Gabriel a Muhammad, em que lhe comunicou a sua escolha por Deus para a missão profética, dando-se a 1.ª Revelação do Sagrado Alcorão ("Nuzul Qur'na").

1 Xaual: "Eid Al-Fitr": festeja-se e agradece-se a Deus o dom de se ter suportado o jejum do Ramadão.

8-13 Dulijá: Peregrinação a Meca. Este é o período recomendado para o cumprimento do 5.º pilar do Islão: fazer a peregrinação a Meca, pelo menos uma vez na vida.

 

O "Hillal"

O "Hillal" (Crescente da Lua Nova, sinal para a contagem do início dos meses, assocaido a uma estrela) é, por excelência, o símbolo (não sagrado) do Islão, que faz ressoar nos comportamentos dos muçulmanos a importância do calendário lunar na regulação de toda a sua vida social e religiosa.

Trata-se de um dos símbolos mais transversais a todo o Médio Oriente, atestado arqueologicamente para muitos templos em cidades onde o calendário e cultos lunares tinham um grande peso, pelo menos desde o terceiro milénio a.E.C.

Atualmente, este símbolo encontra-se presente em muitas das bandeiras dos países islâmicos, assim como na correspondente muçulmana da Cruz Vermelha Internacional.

 

* Estes dados referem-se ao ano aproximado da edição do livro de onde este texto é transcrito (2006).

 

In "Religiões - História, textos, tradições", ed. Paulinas
Publicado em 24.11.2015

 

 
Imagem Meca | D.R.
Antes da atividade do Profeta, aquilo que se pode designar como religião pré-islâmica, correspondia, em especial, a grupos humanos com uma vida nómada, organizados de forma tribal, sem qualquer tipo de relação federal
Os cristãos eram ativos em Meca, e quer a Igreja Monofisita quer a Igreja Nestoriana tinham um relativo sucesso na evangelização dos povos do Norte da Arábia. Contudo, os cristãos árabes monofisitas eram muitas vezes perseguidos em nome da ortodoxia cristã. Quer pelas perseguições de que eram alvo, quer pela proximidade teológica, os monofisitas abraçaram posteriormente o Islão
O "Hillal" (Crescente da Lua Nova, sinal para a contagem do início dos meses, assocaido a uma estrela) é, por excelência, o símbolo (não sagrado) do Islão, que faz ressoar nos comportamentos dos muçulmanos a importância do calendário lunar na regulação de toda a sua vida social e religiosa
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