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Para quê pagar ordenado aos artistas, se é mais barato tê-los a recibos verdes?

«Para quê pagar a um ator, bailarino, músico ou técnico, um ordenado anual, com contrato e segurança social, se é mais barato tê-lo pontualmente como prestador de serviços a recibos verdes?»

Esta é uma das interrogações que o ator, encenador e investigador Júlio Martin da Fonseca assinala em artigo apresentado esta quinta-feira no “Público”, intitulado “O poder dos sem poder nas artes”.

O texto chama a atenção para a precariedade vivida pela maior parte de artistas e técnicos, com consequências muito graves no seu dia a dia, e que se acentuaram dramaticamente com o cancelamento de centenas de espetáculos, devido à pandemia.

«De facto, a situação tendencialmente precária, intermitente e/ou “multitasking” da generalidade dos trabalhadores, tem sido inspirada pela condição laboral dos artistas ao longo do tempo», acentua.

A tendência, noutras atividades laborais, de substituir os trabalhadores por máquinas, «por ser mais rentável», parece querer ser imitada no domínio das artes: «Porque é que no teatro, na dança e na música, não se poderiam substituir os diversos artistas por apenas alguns “eleitos” de cada área, ou até mesmo impor um “génio” que fosse o único a fazer arte, três em um, diretor, programador e criador, uma voz exclusiva e monocórdica?».



É preciso que os cidadãos se mobilizem contra «os perigos de uma cada vez maior precarização ou mesmo extinção de trabalhos, fazendo mormente dos artistas, já não criadores, produtores e consumidores, mas sim meros criados, dispensáveis e consumíveis»



Por outro lado, observa Júlio Martin, é necessário «refletir sobre o surgimento de festivais e outros eventos similares, com programadores, ou diretores nacionais ou municipais de teatros, com agendas políticas pessoais ou de lobbies».

«Para quê dar apoios a estruturas profissionais de artistas que possibilitem a continuidade de um trabalho cultural, educacional e social, de proximidade, ao longo do tempo com as comunidades, se é possível criar eventos pontuais com mais visibilidade, com menos custos, e com um número menor de criadores, quase sempre os mesmos, que podem ir circulando por determinadas “redes” de acordo com o “gosto” e “amizades” pessoais de programadores indigitados “politicamente” e financiados com dinheiros públicos?», questiona.

As considerações de Júlio Martin emergem entre as críticas que têm sido apontadas para a escassez de apoios que o Ministério da Cultura declara estar disposto a conceder à atividade cultural, sobretudo em contexto do confinamento, que está a causar situações de fome e indigência entre profissionais do setor.

Perante este quadro, os artistas devem declarar-se «“dissidentes” de um sistema de apoios à cultura, estrutural e reiteradamente “confinado” a determinadas correntes ou narrativas da moda, que pretende centralizar decisões, e institucionalizar permanentemente uns poucos, em prejuízo da grande maioria dos criadores e das próprias comunidades de todo o país e de diferentes gerações e sensibilidades artísticas».

«É a hora de se ouvir e dar visibilidade ao que muitos artistas de diferentes gerações têm escrito e dito nestes últimos anos, denunciando uma série de situações no âmbito da cultura que atentam ao mais elementar sentido de clareza e equidade, e que têm sido arredados ou abertamente excluídos de apoios institucionais, e silenciados pela falta de ressonância das suas atividades nos meios de comunicação social», denuncia o texto.

E porque todos, em sociedade, estão «interligados», é preciso que os cidadãos se mobilizem contra «os perigos de uma cada vez maior precarização ou mesmo extinção de trabalhos, fazendo mormente dos artistas, já não criadores, produtores e consumidores, mas sim meros criados, dispensáveis e consumíveis», alerta Júlio Martin.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Público
Imagem: Cordeschi/Bigstock.com
Publicado em 24.05.2020

 

 
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