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Para uma espiritualidade inscrita no quotidiano

Os nossos quotidianos são muito propensos à dispersão. Perdemo-nos em múltiplos afazeres e atividades, onde nem sempre vislumbramos o que lhes dá unidade. Este é um desgaste presente na vida de muitas pessoas. Um reboliço sem fim que provoca um cansaço, cuja origem nem sempre é fácil de identificar. Um cansaço e, por vezes, também angústia, que vamos tentando compensar de várias formas.

Este é um terreno fértil para a multiplicação de necessidades e de desejos. Dispersão provoca mais dispersão. Neste contexto, o nosso desejo fundamental está sujeito a uma progressiva erosão. Vai-se apagando. Nem nos damos conta, A multiplicidade, tão presente no nosso quotidiano, não impede a presença da rotina. Também, com frequência, nos queixamos de que é tudo sempre tão igual e sem novidade. Igualmente, a rotina pode suscitar uma multidão de desejos: que aconteça algo que rompa com o sempre igual.

A rotina não é uma realidade de leitura unívoca. Pode contribuir para um certo adormecimento diante da vida, mas também pode ser uma mestra de sensibilidade. Tudo depende de como nos situamos ou, melhor dito, a partir de onde nos situamos. A rotina quotidiana pode endurecer-nos o coração. Já não esperamos nada de novo, a menos que aconteça algo de extraordinário (isso, sim, gostaríamos que acontecesse); movemo-nos no mundo do conhecido, do dominado, do esgotado.

Conhecemos bem as tarefas que temos a realizar, como conhecemos as pessoas com quem nos encontramos todos os dias. Tudo está catalogado. Movemo-nos como se tudo o que nos rodeia fosse uma realidade que parou no tempo e da qual, obviamente, nada há a esperar.

Diante deste quadro adotamos, habitualmente, uma de duas atitudes: ou cultivamos uma certa indiferença para não nos perturbarmos muito ou, então, estamos na vida como quem carrega um peso insuportável, assumindo o papel de vítima.

Tudo muda, e muda radicalmente, quando a nossa rotina quotidiana é vivida com atenção. Ao dizer atenção, dizemos de uma faculdade interior, a que poderíamos também chamar o olhar do coração. «Só se vê bem com o coração» - como nos recorda Saint-Exupéry no Principezinho. Quando vivemos a partir do coração, cada gesto, ainda que exteriormente igual, é sempre original, cada palavra é pronunciada como se o fosse pela primeira vez, o outro, com quem me cruzo todos os dias, é agora olhado como revelação do Mistério, o qual pede respeito e veneração. Quando vivemos a partir do coração surge a novidade, porque a atenção própria do coração remete-nos constantemente para o presente. E este é sempre novo, porque é um fluir incessante.

Rümü escreveu: «O ser humano é uma casa de hóspedes. Cada manhã, um novo recém-chegado. Uma alegria, uma tristeza, uma maldade, que vem como um visitante inesperado. Diz-lhes que são bem-vindos e recebe-os a todos! Ainda se são um coro de penúrias que vaziam a tua casa violentamente. Trata cada hóspede com todas as honras, ele pode estar a criar-te um espaço para uma nova delícia. O pensamento obscuro, a vergonha, a malícia, recebe-os à porta sorrindo e convida-os a entrar. Agradece a quem quer que venha, porque cada um foi enviado como um guia do além.»

Gastamos demasiada energia a tentar exercer um controle sobre os acontecimentos de modo a que nada de desagradável se aproxime de nós. Perdemos muito quando não cultivamos uma recetividade confiante que nos dispõe a aprender com cada situação. Vale a pena revisitar este texto do profeta Isaías: «Os meus planos não são os vossos planos, os vossos caminhos não são os meus caminhos - oráculo do Senhor» (Is 55,8).

Não podemos reter a vida, pois ela é movimento. Queiramos ou não, tudo e todos somos movimento. Somos acontecer, pois somos «sopro do Espírito». E «nascer do Espírito» é estar na vida ao ritmo do vento: «sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai» (Jo3,8). A atenção e a escuta a um movimento que não tem origem em nós, mas que se faz nosso, são decisivas para uma espiritualidade do quotidiano.

É tão limitativo, tão empobrecedor, remeter a experiência espiritual para momentos e lugares específicos. A vida no Espírito não pode ser emoldurada. É como um campo aberto que convida a ampliar o espaço interior. Quanto mais escavamos no nosso interior - espaço infinito de investigação - tanto mais crescemos em sensibilidade no olhar sobre as coisas mais simples e mais rotineiras do nosso quotidiano. Do homem novo nasce um olhar novo. Aquele que descobre a alegria de ser habitado, a alegria da comunhão no seu próprio corpo, abre-se ao exterior com renovada capacidade de assombro.

Há dias em que as «paisagens» mais conhecidas, na nossa casa, no nosso local de trabalho, na nossa cidade, ganham uma intensidade luminosa até então não vislumbrada. É como se tudo fosse convite à adoração e à contemplação. Isto não é, de modo nenhum, incompatível com a realidade, tantas vezes dura, que temos de viver. Há pessoas que vivem quotidianos muito difíceis, onde a dor e o sofrimento estão tão presentes, mas, misteriosamente, não perdem essa capacidade de assombro, de descobrir beleza, onde tantos só veem opacidade e sem sentido. São capazes de ver um fio frágil, invisível para tantos, que une toda a realidade. Nos contornos desenhados por este fio veem o rosto bondoso de Deus; é aí que reside a sua secreta confiança.

Etty Hillesum escreveu no seu Diário: «O jasmim nas traseiras da minha casa encontra-se agora completamente destruído pelas chuvadas e temporais dos últimos dias. As suas florzinhas brancas boiam dispersas nas lamacentas poças negras do telhado raso da garagem. Mas, algures em mim, essejasmim continua a florir sem impedimentos, tão exuberante e delicado como sempre floriu. E espalha odores pela casa onde habitas, meu Deus. Como vês, trato bem de ti. Não te trago somente as minhas lágrimas e pressentimentos temerosos, até te trago, nesta tempestuosa e parda manhã de domingo, jasmim perfumado. E hei de trazer-te todas as flores que encontre pelo caminho, meu Deus, e a sério que são muitas. Hás de ficar sinceramente tão bem instalado em minha casa quanto é possível. E já agora, para te dar um exemplo ao acaso: se eu estivesse encerrada numa cela acanhada e uma nuvem passasse ao longo da minha janela gradeada, então eu iria trazer-te essa nuvem, meu Deus, se pelo menos ainda tivesse forças para isso

Só um coração iluminado pode reparar nas muitas flores que se encontram nos caminhos que percorremos todos os dias, porque um coração iluminado sabe, por experiência própria, que nos alicerces da alegria está o que é frágil, o que não conta, o que de algum modo é marginal, o que não é da ordem do necessário, mas do gratuito. Quando vivemos radicados no coração, os nossos dias tão iguais podem transformar-se na nossa mais bela oração. «Vela com todo o cuidado sobre o teu coração, porque dele jorram as fontes da vida.» (Pr 4,23)

Fotograma

 

Carlos Maria Antunes
In Só o pobre se faz pão, ed. Paulinas
Fotogramas: Bill Viola
13.05.13

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