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Paul Valéry: Poesia é a tentativa de representar em linguagem lágrimas, carícias, beijos, suspiros

Na noite de 4 para 5 de outubro de 1892, em Génova, Paul Valéry experimentou uma crise existencial que o faria mudar de vida. Nessa fatídica noite que culminou na conversão, «despojou-se da alma antiga», depois de ter passado por um processo catártico num «covil de espinhos», em leito «duro, duro».

Na madrugada de 5 de outubro, o poeta, escritor e filósofo francês (a 20 de julho passam os 75 anos da morte) decide repudiar os ídolos da literatura para consagrar a sua vida àquilo que indicou como «a via do espírito». Esta decisão é atestada nos seus “cahiers”, diários nos quais anotava, a cada manhã, as suas reflexões. Num passo destes diários escreve: «Tendo consagrado estas horas à via do espírito, sinto-me no direito de ser parvo para o resto do dia».

À luz destas considerações, emerge, legítima, a interrogação: teria Valéry banido a poesia da sua vida? A resposta é não, se bem que tivesse de precisar que «cada poema que não tivesse a precisão exata da prosa não tem qualquer valor», e afirmasse que partilhava o juízo de François de Malherbe segundo o qual «um bom poeta não é mais útil ao seu país do que um bom jogador de bowling».

Valéry tinha 21 anos naquela noite por ele repetidamente indicada como o início do seu «verdadeiro nascimento». Transferindo-se da cidade-natal de Sète para Paris, começou a trabalhar como redator no Ministério da Guerra, permanecendo longe da escrita poética.



Valéry afirmava que a sua poesia devia remeter a imagem de uma festa para o intelecto: «Os outros fazem livros, eu faço o meu espírito». A sua poesia tende a libertar-se das impurezas e escórias que uma superestrutura intelectual inevitavelmente deixa



No que se empenhava assiduamente era na compilação dos diários, manifesto do seu pensamento intelectual e do seu perfil psicológico (estes cadernos serão publicados, não todos, só após a sua morte). Neles destaca-se a crítica aos conceitos «vagos e impuros» - como espírito, metafísica, interioridade – de que se serve a filosofia.

Mas Valéry haveria de regressar ao ventre da poesia, um retorno vivamente encorajado por André Gide. E é assim que veem a luz “La jeune Parque”, “Le cimitière marin” e uma recolha intitulada “Charmes”. Nestas composições é palpável o influxo de Stéphane Mallarmé, que o conduziu a privilegiar o domínio formal da palavra, em prejuízo, por vezes, quer do sentido quer da inspiração. Vem à ideia a célebre sentença de Oscar Wilde: «Para tecer e preservar a beleza de um verso, estou disposto a lançar a verosimilhança pela janela».

As suas poesias valeram-lhe a fama após a primeira guerra mundial, de tal maneira que se torna uma espécie de “poeta oficial”. Consequentemente, foram-lhe confiados cargos deprestigio: em 1924 é eleito presidente do Pen Club francês, e no ano seguindo membro da Academia Francesa. O discurso proferido em honra do seu antecessor, como é tradição na “Académie”, entrou para a história porque durante a oração nunca pronunciou o nome de Anatole France, réu de ter recusado a Mallarmé uma publicação sobre “Le Parnasse contemporain”. Em 1932 é membro dos Conselho dos Museus Nacionais; em 1937 é-lhe atribuída a cadeira de Poética no Collège de France.



A contemplação do poeta entra em simbiose com a onda marinha, instituindo, assim, um vaivém entre o ver e o pensar, entre o espanto diante da beleza luminosa da aparição e a interrogação em torno ao próprio estar



Valéry afirmava que a sua poesia devia remeter a imagem de uma festa para o intelecto: «Os outros fazem livros, eu faço o meu espírito». A sua poesia tende a libertar-se das impurezas e escórias que uma superestrutura intelectual inevitavelmente deixa. O seu propósito é uma poesia que seja berço de alegrias e de tormentos, e que, ao mesmo tempo se configure como um espelho onde possa olhar sem interrupção e com orgulho a força da inteligência.

Liga-se a Valéry o conceito de “poesia pura”. Com o adjetivo “pura”, ele especifica o fundamento da poesia, que é o estudo que a poesia faz. Trata-se de um estudo complexo das complexas relações que se estabelecem entre a linguagem e os efeitos que ela produz nos leitores. A sua poética cinde-se em duas: o significado racional e crítico, e o estudo atento e árduo da linguagem.

A linguagem, em Valéry, estabelece uma ordem precisa, e essa ordem necessita da palavra, a única e fazer-se «sábia e universal». «A poesia é a tentativa de representar ou restituir através da linguagem articulada estas coisas ou esta coisa que obscuramente tentam exprimir os gritos, as lágrimas, as carícias, os beijos, os suspiros».

Como confirmação do controlo formal do texto que Valéry exercia de maneira espasmódica está o facto, sublinhado por vários críticos, de que se se quisesse separar um verso de um outro, a impecável tessitura por ele ordenada e a configuração rítmica por ele forjada se desmoronariam.



Valéry dirá que o primeiro movimento rumo à escrita poética tinha nascido de uma sensação puramente rítmica, vazia de sentido, preenchida de sílabas vãs, que se tinha tornado numa obsessão: em resumo, uma frase musical que se instala na mente, provada de palavras, mas que procura fixar-se na medida métrica do decassílabo



Exemplar é o célebre verso, em “Le cimitère marin”, que recita: “La mer, la mer toujours recommencée». Neste verso, o mar mostra, no som da repetição, o movimento da onda e, ao mesmo tempo, a sua duple ligação com um tempo fora do tempo (“toujours”) e com um retorno sem fim (“recommencée”): um retorno que é renascimento, uma participação, de carácter afetivo, numa criação que recomeça sempre. O poeta contempla o mar não de uma margem, mas do pequeno promontório sobre o qual assoma um cemitério que acolhia os túmulos dos marinheiros e dos peregrinos. A contemplação do poeta entra em simbiose com a onda marinha, instituindo, assim, um vaivém entre o ver e o pensar, entre o espanto diante da beleza luminosa da aparição e a interrogação em torno ao próprio estar – na quietude e na intrepidez, na dúvida e na expetativa –, dentro de um tumulto que é vida.

Na primeira sextilha de “Le cimitière marin” – local onde foi sepultado –, o poeta escreve: «Este teto tranquilo, de pombas sulcado/ entre os pinheiros palpita, entre os jazidos/ O meio-dia preciso nele compõe clarões/ O mar, o mar sempre recomeçado!/ Que recompensa após um pensamento/ Um longo olhar sobre a calma dos deuses». Um «monólogo do meu eu», dirá Valéry da sua composição. «Um monólogo no qual assumem som e forma – observa o crítico literário Antonio Prete – os temas da sua vida afetiva e mental».

Reevocando, muitos anos depois, “Le cimitière marin”, o poeta dirá que o primeiro movimento rumo à escrita poética tinha nascido de uma sensação puramente rítmica, vazia de sentido, preenchida de sílabas vãs, que se tinha tornado numa obsessão: em resumo, uma frase musical que se instala na mente, provada de palavras, mas que procura fixar-se na medida métrica do decassílabo.

Ao mesmo tempo, destaca Antonio Prete, essa medida, enquanto ressoava, mostrava «a sombra dos doze», com o seu «poder», e nesse limitar tendia e ele se retraia (por isso a metade do doze, a sextilha, torna-se a estrofe da composição, e o dobro do doze, vinte e quatro, torna-se o conjunto das estrofes).

Para um poeta como Valéry, permanecer, metricamente, aquém do doze significa não cair na eloquência teatral; ao invés, ativar a sonoridade do decassílabo, com uma mobilidade de cesuras internas, significa olhar para o hendecassílabo de Dante, para o seu exemplo de vitalidade rítmico-sonora e de modulação que conjuga raciocínio e contemplação. «É singular – sublinha Antonio Prete – como esta espécie de inspiração sonora faz germinar os movimentos do pensamento e a eles oferece uma morada musical».


 

Gabriele Nicolò
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Paul Valéry" (det.) | Jacques-Emile Blanche
Publicado em 19.07.2020

 

 
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