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Pastoral da Cultura

Acolhimento da contemporaneidade: a experiência do capelão dos artistas em Bruxelas

Desde o ano 2002, Fr.Alain Arnould, op, é capelão dos artistas em Bruxelas. Ele foi nomeado pelo Cardeal Godfried Danneels, para a catedral de São Miguel e São Gudula de Bruxelas, onde se empenha em estabelecer um contacto do mundo das artes com a Igreja. Combina esta função com o cargo de prior da Comunidade Internacional de S. Domingos de Bruxelas. Neste artigo, Fr. Arnould descreve o seu trabalho e as questões decorrentes.

Pouca coisa me atraía nesta tarefa de capelão dos artistas, quando o cardeal Danneels me propôs assumir este encargo. É certo que a minha trajectória académica compreendia uma formação e um ensino universitário em história da arte, mas o campo de minha preferência eram os sécs. XV e XVI. Eu sou historiador e não artista. Como dizia o meu predecessor, isto quer dizer que eu nunca seria um concorrente para os artistas, o que devia tranquilizá-los. Em Maio de 2002, aceitei, o encargo sem nenhum conhecimento do meio artístico de Bruxelas, mas herdava uma tradição bem sólida na capital da Bélgica. Os últimos bispos da diocese de Malines-Bruxelas, Léon-Joseph Suenens e Godfried Danneels, cuidaram sempre da nomeação de um capelão dos artistas na diocese. Num contexto de pouco clero, é bom salientar esta iniciativa. Penso que eu sou o único capelão com uma profissão particular a ser nomeado na diocese. Tive a oportunidade de poder trabalhar sob o episcopado de um homem aberto e interessado pela arte. Ele deixa-me muito livre e isso facilita muito o trabalho.

 

Conjuntura

Bruxelas é, por excelência, um centro cultural diversificado. Situada no encontro de dois mundos, latino e germânico; a sua população fala francês, holandês ou um dialecto mesclando as duas línguas. Desde a segunda metade do séc. XX, não cessa de acolher imigrantes forçados a deixar o seu país por razões políticas ou económicas. O crescimento material e o desenvolvimento das instituições internacionais, principalmente a União Europeia e a NATO, favoreceu esta movimentação. Hoje em dia, cerca da metade do milhão de habitantes com que conta a cidade não é de origem belga. Estes factores permitiram um crescimento das actividades culturais. Levando em conta o tamanho da cidade, esta dinâmica cultural é superior à das outras capitais europeias. As suas actividades culturais, de modo geral, são mais acessíveis do que em outro lugar por causa da ajuda das autoridades públicas.

 

Cinco aspectos de minha actividade

O meu mandato de capelão não tinha uma agenda determinada: foi preciso fixar prioridades e estruturar as actividades. O que pode ser dividido em cinco categorias.

Liturgia

Durante a quaresma e o tempo de Páscoa, como também da festa de Todos os Santos até o final do tempo de Natal, encarrego-me da celebração da Eucaristia. Estas celebrações acolhem especialmente os comediantes profissionais, que se encarregam das leituras do dia, e os músicos profissionais, que acompanham a liturgia. Estas missas não são somente dos artistas e para eles, são melhor dizendo, missas com os artistas. Também assiste um público que aprecia a contribuição das artes para viver e aprofundar a sua fé.

Fora do momento previsto em qualquer liturgia, estas missas incluem momentos musicais suplementares no começo e no final da celebração, como também texto de conteúdo espiritual em prosa e verso, escolhidos de acordo com os textos do dia ou com o timbre de voz do comediante convidado. O organista da catedral supre a minha incompetência musical, dando assistência para a programação musical destas celebrações. Estou rodeado de uma equipa de voluntários que garante o lado prático da organização geral.

No último domingo do ano, é celebrada a missa anual dos artistas.

Nesta ocasião, são os artistas que compõem a oração dos fiéis, lembrando os artistas que morreram durante o ano. As preces são lidas por um representante da União dos Artistas e a pregação mostra a ligação entre a fé e o trabalho deles.

 

Presença no mundo artístico

Grande parte do meu tempo é consagrada ao encontro com os artistas. É um poço sem fundo. É impossível estar presente em todos os teatros, circos, concertos, salas de cinema, apresentações de dança, exposições, etc. Num ritmo de duas ou três noites por semana, assisto a um espectáculo e, se possível, fico mais um pouco, conversando com os artistas. Os meus predecessores como capelão dos artistas tinham orientado os seus contactos para o mundo da dança e do teatro. A minha formação levou-me a estabelecer contacto com os artistas plásticos, sem deixar de lado, espero, os comediantes e músicos. O mundo da dança e do cinema merece igualmente a minha atenção, mas é um mundo menos acessível. Estes contactos possibilitam a programação das missas festivas e precisamos renová-los continuamente.

O capelão não é esperado, mas é acolhido com curiosidade. É necessário nas conversas interessar-se pela actividade dos artistas e encorajá-los na sua luta. O artista luta consigo mesmo e com o seu público. O que é verdade para todo o trabalho de artista, mas particularmente para o comediante. Em cena está exposto a uma grande fragilidade: está sozinho diante do público, sem instrumento musical. Por outro lado, o artista só vive quando consegue comunicar o seu talento ao público. Ele tem muitas vezes a impressão de viver quando o seu trabalho é comentado nos meios de comunicação. Isso é passageiro e aumenta a sua fragilidade. Uma presença de escuta e encorajamento por parte de um homem de Igreja pode, então, ser significativa.

 

Exposições e concertos

A catedral de Bruxelas acolhe regularmente concertos e exposições.

Recebo frequentemente pedidos e selecciono-os, tendo em atenção a dimensão espiritual da solicitação. A minha escolha orienta-se por alguns critérios. São solicitadas exposições de artistas vivos que nunca expuseram na catedral. Nas suas obras tratam de temas espirituais e até mesmo temas cristãos. É claro que um critério de qualidade está em jogo. A fim de não ser demasiadamente subjectivo, aconselho-me com alguns especialistas em arte contemporânea. As exposições de arte contemporânea na catedral mostram que o lugar é actual e está em harmonia com o mundo de hoje. Os turistas que visitam estes lugares vêm para admirar pedras velhas e consideram, muitas vezes, a catedral como um museu, testemunho de uma idade antiga, quando se acreditava em Jesus Cristo. Diante de obras contemporâneas, são levados a questionar-se sobre o valor da fé cristã no dia de hoje.

A música é por natureza mais presente nas actividades programadas pela catedral. O vasto repertório histórico e contemporâneo de música religiosa proporciona concertos que entram bem no tempo litúrgico e num aniversário. O centenário da morte de Olivier Messiaen foi oportunidade para um recital de órgão. Durante um fim-de-semana, toda a obra para órgão do grande compositor francês foi executada, permitindo uma vivência excepcional e uma forte experiência espiritual. Os 200 anos da morte de Joseph Haydn foi a oportunidade para a execução do quarteto "As sete palavras de Cristo na cruz" durante a Semana Santa.

 

Pedido para administração dos sacramentos

De vez em quando pedem-me para administrar sacramentos. São raros os pedidos porque os artistas, em geral e onde eu exerço minha actividade, estão afastados da Igreja. O posicionamento da Igreja em relação à moral, e as declarações feitas numa ou noutra ocasião não os ajudam a aproximarem-se do mundo eclesial. Muitos estão ligados à fé cristã, mas a instituição inspira pouca confiança no meio deles. A preparação para as celebrações, principalmente os funerais, mais raramente baptizados e casamentos, são ocasião de reencontros; é quando descubro a espiritualidade viva que eles têm e quando pode ser oferecido um pouco mais de formação.

 

Convites

Descobri logo que muitos artistas estão bastante abertos às propostas da Igreja. Sejam eles pouco ou muito enraizados na fé, acolhem com surpresa e alegria um pedido que lhes é feito pelo capelão dos artistas. Um convite para ajudar na liturgia ou numa actividade cultural na catedral é, com algumas excepções, recebido com entusiasmo. Com a mão na massa, propus-me encomendar obras a um ou outro, e esta iniciativa tornou-se uma parte importante do meu apostolado. Em seis anos de actividade, não contando os músicos que trouxeram as suas obras à fonte baptismal, sete compositores, oito escritores, cinco artistas plásticos e doze comediantes receberam de minha parte um pedido para uma criação sua. Os pedidos são programados em função das datas litúrgicas, a fim de acentuar a característica do tempo. Dirijo-me a artistas que gozam de certa reputação, explicando-lhes o meu pedido e apresentando o contexto no qual e para o qual eles irão trabalhar. A sua pertença ou não à fé cristã não é levada em consideração. Espero deles abertura e respeito pela fé, mas não necessariamente uma adesão. Por ocasião do convite, não ofereço uma lista de tarefas, especificando o que quero. Explico de modo geral, deixando-os livres para formular a resposta. Durante o trabalho de criação, não interfiro, a não ser por solicitação expressa. Cada pedido traz o fortalecimento das relações de confiança mútua. Isso não vem sem me trazer algum cansaço, porque não vejo o resultado imediato, ainda que eu tenha feito elogios da obra para os meios de comunicação e para os patrocinadores! Contudo, nunca fiquei decepcionado com o trabalho realizado. As surpresas são ocasionais, mas elas têm sido sempre boas! Graças a estas criações criaram-se fortes laços com os artistas, que descobriram que têm lugar na Igreja para o seu trabalho e que ele é aí apreciado.

Não é sem motivo o facto destas actividades se realizarem dentro e em torno da catedral. Trata-se, primeiramente, de um lugar de grande beleza arquitectónica e de boa acústica, um atractivo para os artistas. Depois é um lugar frequentado por um público numeroso e diversificado, composto de pessoas que rezam e outros que fazem turismo. As galerias e salas de espectáculo recebem um público disseminado. Todos os anos a catedral recebe 350 mil turistas, a que devemos acrescentar 1000 fiéis que, todos os domingos, assistem às celebrações. Para um artista é uma oportunidade almejada de apresentar aí o seu trabalho. Por outro lado, a catedral é um lugar altamente simbólico no âmbito eclesiástico, e com certeza em Bruxelas, também na parte social. Não conheço, nas capitais da Europa, outra catedral que tenha tanta actividade de cultura contemporânea. As iniciativas que envolvem a arte contemporânea são, com certeza, garantidas por outras dioceses, mas elas estabelecem-se em lugares, que, do ponto vista cristão, poder-se-iam qualificar de periféricos: há o trabalho realizado na "Belas Artes na Igreja de São Pedro" em Colónia, mas o lugar não tem o porte simbólico de uma catedral . A mesma coisa para o "Cloitre de Bernardins", recentemente inaugurado em Paris. As suas pretensões são louváveis, mas suas actividades desenvolvem-se num lugar que não reúne o povo de Deus de uma diocese.

Acolher as actividades da arte contemporânea na catedral comporta, contudo, desvantagens de ordem logística e de organização, o que às vezes complica os projectos. (...)

 

Trabalho fora e dentro da Igreja

Os cinco aspectos do meu apostolado que acabo de descrever são destinados a um grupo que eu qualifico, generalizando muito, à margem ou fora da Igreja. Sinto aí mais simpatia do que adesão. Nisso os artistas diferenciam-se do resto da população de Bruxelas! O convite para participar das actividades do capelão é como mãos estendidas para eles. Isso, às vezes, coloca em questão o preconceito que eles têm contra a Igreja e a fé cristã. Espero estar a apresentar para eles uma imagem mais aberta e tolerante do que a imagem recebida através dos meios de comunicação, tremendamente críticos a tudo que é cristão, ou pior ainda, católico.

Há também um trabalho interno na Igreja que não deve ser esquecido e me parece urgente e importante. A partir do Renascimento, no séc. XV, a Igreja latina foi gradativamente afastando-se do mundo das artes. A necessidade dos artistas para expressar as suas emoções ou opiniões pessoais estava em contradição com a ideia de que eles eram chamados a exaltar antes a fé cristã com um objectivo de catequese para os fiéis. O Concílio de Trento, que fez dos artistas instrumento de propaganda contra a Reforma, não resolveu o problema. Na Europa Ocidental, a separação consumou-se nos sécs. XVIII e XIX. Foi preciso esperar até meados do séc. XX para refazer pontos de ligação entre o mundo das artes e a Igreja. Na França, o movimento chamado "Arte Sacra" desempenhou um papel importante nesta reconciliação. Os líderes foram os dominicanos Couturier e Regamey, que contribuíram para a entrada da arte abstracta nas igrejas francesas.

Hoje em dia, a situação inverteu-se. Os artistas ficam felizes ao colocar o seu talento ao serviço da Igreja, mas a reconciliação entre os dois mundos não é sempre vista como um bom empreendimento dentro da Igreja, onde as restrições frente à expressão contemporânea tendem a generalizar-se. Tanto as autoridades eclesiásticas como os fiéis desprezam as expressões artísticas contemporâneas. Consideram a arte contemporânea como desfasada em relação à abordagem e ao sentimento do cidadão comum. Mais ainda, no caso em que a arte contemporânea aparece dentro da igreja. Essas intromissões desconcertam e não são compreendidas. Enquanto que as igrejas antigas das nossas cidades testemunham épocas diferentes que elas atravessaram com obras de arte díspares que aí se encontram, os frequentadores das nossas igrejas não aceitam que as obras de seu tempo possam estar nos lugares onde eles não querem mudar nada.

Consideremos mais de perto a situação das artes plásticas. Antes mencionei o facto de que a maioria dos pintores e escultores não se preocupa em trabalhar grandes episódios bíblicos e verdades cristãs. Há outros artistas preocupados com isso, inserem-se numa tradição que remonta à alta Idade Média. O papa Gregório Magno considerou a obra da arte plástica como a Bíblia dos iletrados, e esta função predominou durante um milénio. Estes artistas ilustradores estão fora do movimento artístico actual. Por uma razão ou outra, estão excluídos do ambiente artístico vigente. Há um verdadeiro isolamento mantido por boa parte dos profissionais do mundo artístico.

Os fiéis dos nossos países estão muito agarrados à expressão narrativa. Gostam de belos cantos, de elogios e tranquilidade, e têm dificuldade de perceber que a sua fé pode também ser aprofundada na linguagem artística. Por ocasião de uma exposição recente na catedral de Bruxelas, sete artistas foram convidados a apresentar uma ds suas obras. A maneira de expressar era variada, mas todos com grande respeito à fé cristã. Colocavam questões sobre a ajuda das organizações não governamentais, a violência na cidade, o entendimento internacional, a oração, a relação com a tradição, etc. O público ficou surpreso ao ver que esta espécie de mostra era acolhida dentro de uma igreja e tem dificuldade em achar esta iniciativa acertada. Uma mostra que não for ilustrativa não obtém logo aprovação.

Colocam-se aqui duas objecções. Comparativamente são iguais às objecções colocadas pelo grande público em relação à arte contemporânea. A recusa de encarar as obras menos figurativas ou ilustrativas baseia-se habitualmente no facto de que elas não são compreensíveis à primeira vista. Esquecem-se que a compreensão de muitas coisas exige o aprendizado de pontos de referência para o conhecimento. Como compreender matemática sem ter adquirido o conhecimento básico de álgebra? Como falar uma língua sem ter estudado gramática? Como compreender a riqueza da Bíblia sem ter feito exegese? A mesma coisa é com a arte. Sem a chave de descodificação da simbologia medieval não conseguimos ver o essencial da obra de Jan Van Eyck. É certo que sem esses pontos de referência para o conhecimento não se chegará a apreciar uma obra de arte contemporânea. É necessário um trabalho educativo para dar aos fiéis estes pontos de referência necessários para a apreciação do valor destas obras contemporâneas e para fazê-los descobrir que podem também ser caminho para a fé. Eu espero que estas exposições na nossa igreja possam contribuir para esta formação.

Outra objecção que os frequentadores das nossas igrejas gostam de fazer é a falta de artesanato de qualidade da arte contemporânea. “Qualquer um pode fazer isso!” “Se isso for arte, qualquer coisa será arte e até eu posso fazer!”. Esquecem-se que um trabalho bem feito, não é necessariamente um trabalho pesado. Poderia ser de outra forma, mas isso está no oposto da nossa ética moderna, que faz uma ligação directa entre o esforço e a produção. Esta objecção ignora igualmente uma evolução artística que dá lugar ao despojamento e à simplicidade, mais do que a um trabalho longo e minucioso. Esta arte faz parte do contexto contemporâneo e tem o seu lugar certo numa Igreja que quer acompanhar o seu tempo.

Uma das obras de nossa programação consistia num lenço de bolso que o artista Kris Martin colocou em frente ao altar-mor da catedral. Ouvi inúmeras vezes as objecções repetidas aqui, Mas ouvi também muitas vezes pessoas maravilhadas que se preocuparam em saber qual o sentido desta obra e qual a intenção do artista. Entre as obras expostas, poucas tinham uma dimensão litúrgica tão forte: o artista depositava as suas lágrimas de alegria e de sofrimento, ali onde Deus vinha alimentar o seu povo com a Eucaristia.

Para estabelecer laços significativos entre a Igreja e as artes, o povo de Deus da nossa região deveria mudar a sua opinião sobre os artistas. Vêm-me à mente duas observações.

Comummente identificamos arte com beleza. Desde Santo Tomás até Urs von Balthasar, os teólogos comentaram amplamente a beleza como uma via de descoberta de Deus; mas desde o começo do séc. XIX, com alguns sinais precursores nos séculos precedentes, a estética não se limita à expressão do belo. A arte toma assim uma dinâmica ética. Ela procura colocar interrogações, provocar por meio do feio e da violência e mostrando o mal. Ora, estou convencido de que a expressão da violência, da miséria, do mal ou do feio pode, como o belo, oferecer um caminho de descoberta de Deus. A experiência da beleza da criação como o trauma de uma catástrofe da natureza ou horror das injustiças pode despertar uma interrogação sobre Deus. Por que seria diferente com a arte? Para abrir este caminho, é preciso da parte do artista uma convicção sincera. Muitas vezes, prevalece a provocação sem fundamento e isso, evidentemente, não abre caminho para o espírito. O diálogo com os artistas contemporâneos dá-se quando aceitamos que os caminhos da arte para Deus são diversificados. Falar de cultura hoje em dia como caminho para chegar até Deus, parece-me então o mais acertado. Neste sentido, há, certamente, um trabalho de discernimento a fazer: nem toda a expressão cultural possibilita a elevação do coração humano à presença de Deus.

Em segundo lugar, o contexto de sociedade não tem muito a ver com a época medieval. Durante um milénio e meio, ela dominou a engrenagem da sociedade da Europa ocidental. O seu avanço, é claro, nem sempre atingiu as camadas sociais com a mesma intensidade e da mesma forma, mas o pensamento cristão tinha uma forte presença no meio da inteligência e também no meio artístico. Actualmente, o testemunho cristão é muito menos presente e vivo nas nossas regiões. Portanto não podemos esperar que os artistas possam desempenhar a sua criatividade dentro de um tema unicamente cristão e que o possam de início, mesmo que eles desejassem. Eles são a imagem do seu tempo. E como as obras não saem de uma cultura cristã, mas de uma cultura que nasceu de filosofias diferentes, daí não sai, tampouco, uma espiritualidade homogénea. Cabe, portanto, à Igreja procurar obras com um potencial de espírito capaz de iniciar um diálogo fecundo. Há uma riqueza espiritual dentro de cada obra e é preciso recolhê-la, onde ela estiver.

 

Qual o papel da arte hoje?

Egon Capellari, bispo de Graz-Klagenfurt na Áustria, fez brilhantemente um resumo do serviço que a arte pode trazer à sociedade em geral e à Igreja em particular. Ela conforta o homem, exalta o espírito e ajuda o ser humano a tomar consciência da realidade em que vive. O autor menciona ainda, de modo especial, o poder da arte de reunir em si toda a realidade da criação, seja ela bela ou feia. Nisto ele acrescenta o cristianismo fundado sobre a encarnação de Deus. É este dogma da encarnação que dá sentido aos laços estreitos entre a arte e a fé cristã, o que deveria ser sempre um estímulo para retomá-los.

Além desta contribuição que a arte pode oferecer ao mundo e à Igreja, parece-me importante o desafio de educar o público da Igreja a uma maior abertura frente à arte contemporânea. Não é o momento aqui de fazer a apologia da arte contemporânea. Como em toda as épocas, temos obras de qualidade e obras sem valor. Nem todas as obras oferecem a mesma contribuição para um diálogo profundo entre a Igreja e a expressão artística. Mas a recusa de estender a mão à expressão artística contemporânea seria dramática. Depende, segundo a minha opinião, da capacidade de a Igreja estar atenta às interrogações de nosso tempo e de entender a linguagem utilizada para colocar estas questões. Deixou de se conceber uma teologia sem a contribuição de Galileu, de Freud ou Einstein; por é que então iremos deixar de lado a expressão de Picasso? A recusa de aceitar esta expressão no seio da Igreja, é correr o risco de ficar alheio a certas questões do mundo contemporâneo e de perder, aos poucos, uma expressão adequada para transmitir a fé cristã, pelo menos para uma parte do público. É somente através da atenção aos sinais dos tempos e das expressões de nosso tempo que a linguagem da pregação do Evangelho poderá evoluir e estar adequada aos ouvidos de um público cada vez mais afastado da mensagem cristã.

 

Fr. Alain Arnould, op
Capelão dos artistas, Bruxelas
In Revista Dominicana de Teologia - Centro de Estudos Superiores da Ordem dos Pregadores do Brasil, Janeiro/Junho 2009
24.06.09

Órgão na Catedral














































































































































































































































































































































































































 

 

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