Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Pio XII: Não se esperam reviravoltas na história, e preconceitos vão atenuar-se com abertura do Arquivo do Vaticano

O Arquivo Apostólico do Vaticano, dirigido pelo cardeal português José Tolentino Mendonça, está pronto para receber, a partir de 2 de março, dezenas de investigadores que pretendem estudar documentos relacionados com o pontificado de Pio XII, nomeadamente a sua ação durante a II Guerra Mundial.

Os 85 estudiosos que requereram acesso tiveram luz verde para analisar todos os conteúdos relativos ao período de 1939 a 1958, explicou o bispo D. Sergio Pagano, prefeito do Arquivo.

Proveniente de mais de uma dúzia de países, a primeira onda de pesquisadores abrange sete especialistas de Israel, 14 da Alemanha, 16 de Itália, 10 dos EUA, 20 da Europa de Leste, e os restantes de França, Espanha e América Latina. «Mas esperamos um aumento dos pedidos após 2 de março», referiu o prelado.

As salas de leitura e os colaboradores do arquivo podem acolher e ajudar no máximo 60 pessoas por dia, pelo que o acesso dos recém-chegados será escalonado ao longo do ano, permitindo que muitos investigadores que buscam outros temas continuem o seu trabalho.



A nacionalidade ou religião das pessoas que solicitavam ajuda não interessava ao papa, só se verificando se as necessidades eram legítimas



Foram precisos cerca de 12 anos para classificar, organizar e catalogar a enorme quantidade de informações do longo pontificado de Pio XII, disse Pagano. O arquivo contém documentos da Secretaria de Estado do Vaticano, da Congregação para a Doutrina da Fé e das nunciaturas (representações diplomáticas) da Santa Sé em todo o mundo, bem como milhares de notas sobre a atividade caritativa de Pio XII na Itália e no estrangeiro.

D. Pagano espera que haja uma pesquisa aprofundada sobre a grande ajuda que o papa prestou às pessoas desesperadamente necessitadas durante e após a guerra, a partir de generosas doações feitas, em grande parte, a partir dos EUA.

«Não houve só um Plano Marshall [programa de financiamento e apoio dos EUA para a reconstrução da Europa após a segunda guerra mundial], mas pode dizer-se que houve também um plano EUA-Vaticano organizado por católicos americanos para ajudar o papa nos seus enormes trabalhos caritativos», destacou.

A nacionalidade ou religião das pessoas que solicitavam ajuda não interessava ao papa, só se verificando se as necessidades eram legítimas.

O responsável revelou que os arquivos guardam cartas de pessoas que admitem ser ateias, mas pediam ajuda ao papa porque viam nele o único líder moral que restava naquela época sombria da história.



Há também estudiosos que querem saber mais sobre o legado teológico e os escritos de Pio XII, que escreveu mais de 40 encíclicas



Referindo-se às acusações de alguns historiadores e grupos judeus de que Pio XII e outros não fizeram o suficiente para impedir a ascensão do nazismo ao poder e o Holocausto, o bispo retorquiu que o papa «falou com os seus esforços, e depois falou com as palavras, pelo que não é verdade que o papa tenha ficado totalmente em silêncio».

A Segunda Guerra Mundial, o Holocausto, a perseguição ao povo judeu, o assassinato de cidadãos italianos em Roma pelas tropas nazistas, e a relação entre a Santa Sé e o partido nazista e o comunismo foram os principais temas de interesse declarados pelos investigadores.

Há também estudiosos que querem saber mais sobre o legado teológico e os escritos de Pio XII, que escreveu mais de 40 encíclicas, e que é «um dos papas mais citados durante o segundo concílio do Vaticano».

Alguns peritos procuram informações sobre dioceses locais e como o papa ajudou entidades que abrigaram refugiados e judeus, por exemplo institutos religiosos.



A par com que tem vindo a lume em arquivos nacionais, «muitos preconceitos [contra o papa] vão desvanecer-se, sem dúvida», mas «vai demorar muitos anos para que se forme uma nova opinião sobre Pio XII



O prelado, com base no que viu dos aquivos, considera que os investigadores não vão encontrar algo de «enormemente novo», ou algum facto que provoque uma «reviravolta» na história.

O material que vai ficar disponível poderá ajudar os estudiosos a «analisar melhor como certos processos foram acionados, como o papa estudou certas questões, quem as analisou, que pessoas contribuíram» para a sua maneira de proceder.

A par com que tem vindo a lume em arquivos nacionais, «muitos preconceitos [contra o papa] vão desvanecer-se, sem dúvida», mas «vai demorar muitos anos para que se forme uma nova opinião sobre Pio XII. Um ou dois anos não será suficiente», declarou o prelado de 71 anos, que trabalhou no Arquivo mais de quatro décadas.

Se o estudo dos registos históricos for feito objetivamente e criticamente, «talvez daqui a 10 anos se forme uma nova impressão do pontificado, que foi notável e que aconteceu num momento muito crítico da história mundial».

D. Pagano está consciente de que alguns dos historiadores irão à procura de algo que não existe, enquanto outros serão apenas curiosos, mas os investigadores sérios sabem que é preciso um tempo muito longo para analisar tantos registos históricos e cruzá-los entre eles.

«Não basta descobrir um documento que fala sobre uma coisa, e depois escrever um livro, porque esse documento está relacionado com outros dez em muitas outras coleções», afirmou. «Por isso, o conselho que dou aos investigadores que veem ao Arquivo do Vaticano é que fiquem muito tempo, o maior tempo possível», de maneira a tirar partido dos seus materiais únicos.


 

Carol Glatz/Catholic News Service
In National Catholic Reporter
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 16.01.2020

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos