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Meditação

Porquê apresentar a vida como um ato de combate, em vez de um ato de amor?

Segunda e última parte da apresentação de excertos do livro "A biografia do silêncio" (Paulinas), que vai estar nas livrarias esta segunda-feira, 17 de fevereiro. Os primeiros fragementos da obra de Pablo d'Ors foram apresentados em pré-publicação na semana passada (cf. Artigos relacionados).

«Iniciar-se na meditação pressupõe que se tenha chegado ao ponto de já não nos permitirmos culpar as circunstâncias ou os outros. Quando estivermos nesse ponto, deveremos sentar-nos e meditar.»

«Quando se medita, trabalha-se com o material da nossa própria vulnerabilidade. E sempre temos a impressão de que estamos a começar a partir do zero: a nossa casa parece que nunca mais acaba de se construir; pois até acreditamos que estamos a reforçar os alicerces. Na meditação não há, pelo menos aparentemente, uma deslocação significativa de um lado para o outro; o que há é uma espécie de instalação num não-lugar. Esse não-lugar é o agora, o instante é a instância.»

«Graças à meditação, descobri que nenhuma carga é minha enquanto não a puser aos ombros.»

«Quando nos sentamos em silêncio, obtemos um espelho da nossa vida e, ao mesmo tempo, um modo para melhorá-la. A observação, a contemplação, é efetiva. Observar uma coisa não a muda, mas muda-nos a nós. Portanto, a mudança é o melhor barómetro da vitalidade de uma vida.»

«As emoções e os estados anímicos têm o seu funcionamento próprio; mas nós somos infinitamente mais poderosos que eles, se a tal nos propusermos. (…) A força da nossa soberania é avassaladora.»

«Em geral, entre tantas marionetas ilusórias, não conseguimos distinguir o que é real. Por isso, a tarefa de quem se senta a meditar é, fundamentalmente, de limpeza interior. O cenário vazio assusta-nos; dá-nos a impressão de que nos aborrecemos nessa desolação. Mas esse vazio é a nossa identidade mais radical, pois não é senão uma pura capacidade de acolhimento.»

«A descoberta da desilusão é o nosso principal mestre. Tudo o que me desilude é meu amigo.»

«Ajudar alguém é fazer com que veja que os seus esforços estão garantidamente desencaminhados. É dizer-lhe: "Sofres porque esbarras de frente contra um muro. Mas esbarras contra um muro porque não é por aí que deves passar." Não deveríamos chocar com a maioria dos muros em que embatemos. Esses muros não deveriam estar onde estão e nem deveríamos tê-los construído.»

«Todas as nossas ideias devem morrer para que, por fim, reine a vida. E todas quer dizer todas, até a ideia que podemos ter da meditação.»

«A dor deixa de ser tão dolorosa quando nos acostumamos a ela. Não sei bem como cheguei a esta conclusão, nem sei como consegui ser tão perseverante na minha prática diária de meditação, a que sou tão fiel desde há um pouco mais de um quinquénio, como o sou à prática da escrita desde há, aproximadamente, duas décadas.»

«A promessa da meditação é a mais misteriosa de todas quantas conheço, pois não é uma promessa para algo em particular: nem para a glória, nem para o poder, nem para o prazer... Talvez seja uma promessa para a unidade, ou para uma espécie de custosa serenidade, ou para a lucidez, ou... palavras!»

«Assim como o espetador que não gosta de um espetáculo pode abandonar a sua poltrona e, simplesmente, ir-se embora, o verdadeiro homem de meditação permanece no seu lugar mesmo quando a película projetada no seu interior não lhe agrada absolutamente nada. É sobretudo então que deve permanecer.»

«A meditação em silêncio e quietude é o caminho mais direto e mais radical para o nosso interior (não recorre à imaginação ou à música, por exemplo, como acontece noutras vias).»

«Quase todos os frutos da meditação se recebem fora da meditação. Alguns destes frutos são, por exemplo, uma maior aceitação da vida tal qual é, uma assunção mais cabal dos seus limites e dos seus achaques ou dores que se arrastam, uma maior benevolência para com os semelhantes, uma atenção mais cuidada às necessidades alheias, um superior apreço pelos animais e pela natureza, uma visão do mundo mais global e menos analítica, uma crescente abertura ao diferente, à humildade, à confiança em si mesmo, à serenidade... A lista poderia alargar-se.»

«Uma das principais ameaças a todo este processo de purificação interior radica na crença – que, na realidade, é sustentada por quem não meditou ou o fez muito pouco – de que toda esta preocupação com o eu não serve para ajudar os outros.»

«O nosso problema na vida é precisamente este: as hesitações, os medos, as dúvidas sistemáticas, o medo de viver. É mais inteligente lançar-se na aventura. A meditação desmascara os nossos mecanismos de proteção, projeta-os em tamanho gigante no ecrã da nossa consciência, mostra-nos tudo o que per demos por culpa dessas salvaguardas fomentadas pelas convenções sociais e pressões de todos os géneros.»

«Como qualquer outro método sério de análise interior, a meditação silenciosa e em quietude sublinha a falácia de atribuir ao outro o que só a nós corresponde. Na realidade, basta querer alguma coisa com suficiente intensidade para a conseguir. Parece utopia, mas não há nada tão indestrutível como um homem convencido. Nenhum obstáculo é intransponível quando há verdadeira fé. A meditação fortalece tal fé e, com olhar ardente, derrete os obstáculos que se vão encontrando pelo caminho como se fossem blocos de gelo incapazes de resistir ao fogo de uma paixão.»

«No tribunal da nossa consciência temos de prestar contas do que recebemos. Do que vamos deixar no mundo, antes de morrer e de o abandonar.»

«Porquê apresentar a vida como um ato de combate, em vez de um ato de amor? Basta um ano de meditação perseverante, ou até meio ano, para nos apercebermos de que podemos viver de outra forma. A meditação abre uma brecha na estrutura da nossa personalidade, até que, de tanto meditar, a brecha se alarga e a velha personalidade rompe-se e, como uma flor, começa a nascer uma nova. Meditar é assistir a esse fascinante e tremendo processo de morte e renascimento.»

«O caminho da meditação é o do desapego, o da rutura dos esquemas mentais ou preconceitos: é uma desnudação progressiva até acabar por comprovar que se está muito melhor nu.»

«O principal fruto da meditação é tornar-nos magnânimos, quer dizer, dilatar-nos a alma, começando imediatamente a caber nela mais cores, mais pessoas, mais formas e figuras... Na realidade, um ser humano é tanto mais nobre quanto maior for a sua capacidade de hospedagem ou de acolhimento. Quanto mais vazios de nós estivermos, mais caberá dentro de nós. O vazio de si, o esquecimento de si, é diretamente proporcional ao amor aos outros.»

«Depois de ter sido tocado ou infetado, tentado ou arrastado; depois de estar apaixonado ou aflito, sou eu quem decide – como senhor – de que modo hei de viver essa carícia ou essa bofetada, esse grito ou esse gemido; como reagir a essa corrente ou responder a essa chamada.»

«Nenhum homem se perderá irremediavelmente se frequentar a sua consciência e viajar pelo seu território interior. Dentro de nós há um reduto onde podemos sentir-nos seguros: uma ermida ou um esconderijo onde nos podemos esconder porque foram construídos com essa finalidade. Quanto mais se entra lá, mais se descobre que é espaçoso e que está bem equipado. Na verdade, lá não falta nada. É um sítio onde se pode morar.»

«A meditação fortalece a necessária desconfiança no mundo exterior e a incompreensível confiança no nosso verdadeiro mundo, que costumamos desconhecer. Quando meditamos, as nossas feições suavizam-se e a nossa expressão transfigura-se. Continuamos aqui, nesta terra, mas é como se já nem lhe pertencêssemos. Moramos noutro país, pouco frequentado, e atravessamos os campos de batalha sem ser feridos. Embora as flechas se cravem em nós e as balas penetrem nas nossas carnes, essas balas não nos derrubam nem essas flechas fazem com que brote sangue... Saímos desses campos de batalha crivados, mas vivos; caminhando e sorrindo porque não sucumbimos e demonstrámos a nossa eternidade. Meditamos para sermos mais fortes do que a morte.»

 

In A biografia do silêncio, ed. Paulinas
16.02.14

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