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Porque vieste incomodar-nos?
Além da epifania, diafania

Seremos nós, humanos, corpos opacos? O corpo de carne que nos constitui não vive senão da sua própria opacidade e invisibilidade. Além da carne que mostra o corpo na sua rigidez física, permanecemos opacos, indemonstráveis em absoluto. O pintor Mark Rothko é genial na expressão dessa opacidade sofrida do espaço e do tempo. A in-carnação, sermos pessoas em “carne e osso” (Husserl), além de epifania, aparição e revelação, é diafania, trans-parência. Além de possibilidade, efetividade, é também impossibilidade de aparição absoluta. O Deus que se dá a conhecer é o Deus que se subtrai à possibilidade de ser possuído como ídolo. Se o homem crente (nem sempre religioso) responde confiadamente (fides) a um chamamento, o homem religioso (nem sempre crente) vive uma identidade cristalizada em determinada prática, ritualidade, simbólica ou moralidade. Norberto Boobio descreve esta ambivalência dizendo que “a verdadeira diferença está entre quem, para dar um sentido à própria vida, coloca com seriedade e empenho as perguntas, e procura a resposta, ainda que não a encontre, e aquele a quem nada importa, a quem basta repetir aquilo que foi dito em criança”.

Pierre Gisel coloca a pergunta fundamental: o que é, no cristianismo, do teológico – de Deus e do crer -, e o que é da relação com o mundo e o cosmos, a partir do momento em que se pode distinguir a “religião”, que diz respeito ao homem e a uma virtude sapiencial, do “teologal”? Os ‘sistemas religiosos’ rígidos vivem a partir da agregação identitária, e não tanto da relevância ou da conversão (La Passion de Jeanne d'Arc, captada extraordinariamente pelo cineasta Carl Theodor Dreyer (1928), sobre este ponto é sintomática). Um rito a cumprir sem empenho crente seja na resposta seja na praxis. Onde é possível ser-se perfeitamente devoto e viver acriticamente num sistema de castas ou de apartheid, desde que isso não afete a minha identidade religiosa enquanto tal. Um sistema onde tudo está estruturado e institucionalizado, desde profecia à caritas e até o Espírito! Por isso o ‘sistema’ nem sempre convive bem com a impossibilidade e a liberalidade surpreendente do Espírito. A vida sistémica tem as suas vantagens mas poderá não deixar ver e aparecer algo mais do que aquilo que se dá a ver, sentir, pensar e imaginar fora desse mundo.

Imagem Igreja da Encarnação, Póvoa de Varzim

Sobre isto, o discurso do Grande Inquisidor d’Os Irmãos Karamázov de Fiódor Dostoiévski é absolutamente provocador (Ivan Karamázov imagina um cardeal-Inquisidor em diálogo com Cristo preso numa masmorra russa, figura tipo do próprio Dostoiévski): «-És Tu? És Tu? […] Não respondas, cala-Te. O que poderias dizer-me? Sei bem de mais o que me dirias. Também não tens o direito de acrescentar seja o que for àquilo que foi dito por Ti anteriormente. Por que vieste incomodar-nos? É que vieste incomodar-nos e Tu próprio sabe-lo muito bem. Sabes o que te vai acontecer amanhã? Não sei quem és nem quero saber: que sejas Tu mesmo ou apenas uma aparência d’Ele, amanhã mesmo condeno-Te e queimo-Te na fogueira como o pior dos hereges, e aquele mesmo povo que hoje Te beijava os pés, amanhã, ao meu primeiro sinal, correrá para a Tua fogueira para alimentar com brasas […] E seremos nós quem dará de comer em Teu nome, e mentiremos dizendo que é em Teu nome».

Imagem Rothko

A presente nostalgia dos tempos originários – veja-se o retorno constante ao medievo ou ao gótico –, talvez pela áurea mitológica de que o que está na origem é que é autêntico e verdadeiro, é o resultado de um abaixamento da esfera celeste. O céu desceu demasiado à terra, diz-se! O peso da gravidade é real! Mas não é o tempo presente um dom de Deus? Porquê uma nostalgia revivalista que nos faz esquecer o tempo e o espaço presente como kairós de transfiguração segundo a potência do Espírito? Da epifania à diafania é o caminho da vida profunda do humano, da interioridade, que recebe o hálito do Espírito criador. A matéria do corpo é trans-formada pela presença do Espírito de Deus. A incarnação de Cristo é diafania, “imagem do Deus invisível” (Col 1,15). O Logos transparece na sua corporeidade, sem a ela se reduzir, porque se autotranscende. Verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Transparecer é transcendencer-se. Não somente epifania, revelação de, mas transparência corpórea da opacidade do Verbo existente na relação íntima com Deus. Deus cria de modo sempre novo e bilateral, o seu modo de agir é múltiplo. Criar teologicamente é chamar a uma relação que faz o real existir, que chama o homem, ser de linguagem criativo, a uma cor-respondência e a uma corresponsabilidade.

ImagemMatisse

Na in-carnação transparece a origem, o princípio, prenhe de eternidade, de Kairós, e não um início ou um começo, de kronos. “É em Cristo que habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Col 2,9).Gerado não criado instituí uma diferença que abre espaço à alteridade, ao ser Filho, e por isso também nós, filhos no Filho, somos gerados do Alto e gerados no o/Outro. Esta transparência absoluta não se resolve na recuperação nostálgica de uma originariedade perdida mas na tensão projetiva do futuro de Deus que vem ao presente da história. É o futuro de Deus que se faz trans-parente (revela-se e vela-se simultaneamente) na história presente dos homens. Modo de presença que convida a ser e a vir à existência. Deus abre-se pacientemente na escatologia da vida aparente (que se dá a ver na complexidade ambivalente do real) de Deus. O futuro a Deus pertence e Ele fá-lo iniciar com aqueles e naqueles que se deixam já no presente agarrar por esse futuro.

ImagemIgreja da Encarnação, Póvoa de Varzim

O tempo é dativo, é-nos dado, e consentido. Por isso o tempo é prenhe de Deus, de eternidade, onde o Eterno ‘preenche e abraça todas as coisas’ (Anselmo). O ad-vento, o devir num e-vento, não é senão essa trans-parência de Deus no espaço frágil do corpo, onde Deus se faz carne, abraçando a complexidade constitutiva do cosmos e do humano. Esta trans-parência do espiritual, de Deus, do Filho e do Espírito, no cosmos e no humano, recusa uma imersão do divino na materialidade, da interpretação gnóstica que espiritualiza a matéria corpórea, desvalorizando-a. O perigo real é o de uma “fratura ontológica” (Bourguet), de uma cultura preocupada com o cuidado da alma, reduzindo o corpo a um objeto manipulável. É aqui que o cristianismo deve entrar com toda a sua força profética e competência, porque durante muito tempo, e talvez ainda hoje, inconscientemente potenciou esta visão de um corpo cárcere da liberdade e da alma. A presença imanente de Deus no criado é uma presença real mas discreta que respeita a autonomia própria do cosmos. Uma presença transparente na Palavra e no Espírito, feita carne em Jesus Cristo: “este homem […] Deus o ressuscitou dos mortos e disto nos somos testemunhas” (At 11, 12.15). Mais do que isto, ou além disto, poderá ser ‘comércio agradável’, ‘sistema religioso’ sem religação nem relação, opacidade sem revelação nem transfiguração ética do humano que nos é comum.

 

 

João Paulo Costa
© SNPC | 15.12.13

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ImagemMark Rothko

 

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