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IndieLisboa

Prémio Árvore da Vida deve ser visto como abertura da Igreja Católica à «irreverência, inovação e juventude»

Nuno Sena, um dos diretores do IndieLisboa, festival internacional de cinema independente, considera que o patrocínio da Igreja Católica ao prémio “Árvore da Vida” deve ser visto como uma abertura à «irreverência, inovação e juventude».

«Não tenho uma interpretação nada monolítica da Igreja Católica em Portugal e da sua relação com a cultura. Acho que há diferentes sensibilidades, orientações e formas de lidar com a questão cultural, com manifestações de grande pluralismo, mas tenho pena que subsista pontualmente alguma intolerância, embora ache que essas manifestações sejam minoritárias face à capacidade de aceitar e ouvir outras formas de entender o fenómeno religioso e a organização social e moral», afirmou.

Em entrevista ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, Nuno Sena faz o balanço do IndieLisboa, que termina este domingo, 6 de maio, perspetiva a 10.ª edição, marcada para abril de 2013, e apresenta a sua opinião sobre a relação da Igreja Católica em Portugal com o meio artístico.

 

Que balanço faz desta edição do IndieLisboa?

Este é o antepenúltimo dia do Festival [4 de maio] mas penso que é possível já dizer que é uma edição conseguida do ponto de vista da organização, programação e resposta do público.

Foi uma edição preparada sob enorme pressão a todos os níveis, com mais dificuldades devido a um orçamento mais reduzido do que em 2011 e porque foi feita num contexto nacional muito deprimente. Apesar destes fatores teve a mesma dedicação e empenho das anteriores. Sentimos que não podíamos abrandar o passo nem reduzir as nossas ambições de manter o nível e a dimensão do festival. Foi uma edição de esforço para chegar aos mesmos resultados de outras que também já tinham sido realizadas em perda de aceleração.

O balanço é positivo porque resistimos à crise e à principal dificuldade deste ano, que era fazer uma edição com a mesma quantidade de público nas salas [mais de 35 mil pessoas, a segunda maior audiência de sempre] e com o mesmo número de sessões.

Estou também muito contente com a resposta do público, da crítica cinematográfica e dos convidados profissionais nacionais e estrangeiros, assim como com as atividades paralelas. O festival não é apenas os filmes que passam em sala; é também a maneira como eles se apresentam e se ligam numa programação coerente, envolvendo-os num conjunto de eventos mais vasto. Penso que neste aspeto esta edição foi das mais afinadas.

 

O IndieJúnior tem sido sinal da vossa preocupação na educação dos mais novos para o cinema...

Para nós é uma questão fundamental porque passa pela formação de públicos para edições mais à frente do festival. Após oito realizações do IndieJúnior alguns dos jovens que participaram na primeira vez já são espectadores das outras secções do festival. É uma espécie de serviço educativo do IndieLisboa que está a dar frutos.

Este ano houve um trabalho de maior envolvimento em comparação com outras secções. Conseguimos que as sessões escolares, preparadas com meses de antecedência através do contacto direto com professores e responsáveis pedagógicos, tivessem ligeiramente mais alunos, apesar de ser cada vez mais difícil para as escolas garantir o transporte das crianças por causa da redução do apoio financeiro. Mas foi sobretudo nas sessões para as famílias que sentimos um crescimento muito acentuado.

O IndieJúnior [dirigido a audiências dos 3 aos 15 anos] vai ser este ano responsável por praticamente 1/3 dos espectadores do festival, sendo a sua secção mais importante.

Pedimos aos filmes do IndieJúnior o que pedimos aos que passam noutras secções: que nos enriqueçam enquanto espectadores, que nos abram portas para a linguagem do cinema e para a relação com os outros e com o mundo.

 

Como vai ser o futuro do IndieLisboa?

O futuro vai ser condicional. Gostaríamos que fosse o mesmo festival deste ano, que continuasse a ter uma programação ambiciosa, exigente, inovadora, arrojada, que trouxesse as pessoas à sala para verem e discutirem os filmes, fazendo do festival uma festa do cinema. Para isso são precisas muitas pessoas e algum dinheiro. O IndieLisboa não foi, não é nem quer ser um festival de luxo, em que o dinheiro é gasto em coisas menos importantes, mas precisa de um mínimo para poder funcionar bem. E esse mínimo, para o próximo ano, está longe de estar assegurado. Por isso daqui a um ano estaremos provavelmente a falar de um IndieLisboa menos forte. Daqui a seis meses saberemos com o que poderemos contar.

 

Como encara a presença da Igreja Católica neste festival?

Essa novidade, que tem três anos, já foi completamente integrada no festival. Não faz parte das preocupações dos programadores pensarem nos filmes que vão ser mais adequados para esse público, e concretamente para o júri “Árvore da Vida”.

Eu acho que o IndieLisboa está aberto ao que vem da sociedade. Há a ideia de que o festival tem de chegar a públicos muito diversificados, com ligações a questões religiosas, sociais, políticas e económicas que reflitam o estado do mundo, e o IndieLisboa tem de retribuir essa atenção, dando-lhes qualquer coisa que os motive e enriqueça enquanto espectadores. As nossas escolhas de programação não seriam diferentes se a Igreja Católica não patrocinasse o prémio.

Se há coisa que o cinema pode fazer é tornar nosso outro ponto de vista. Ao ver objetivado num filme assuntos que a atividade jornalística não pode tratar, por ser mais reativa do que reflexiva, o IndieLisboa pode ser um espaço, por exemplo, para as questões sociais e morais – porque não? O cinema é uma construção humana e por isso tem de ter, obviamente, preocupações éticas, e há cineastas que fazem essas questões as principais do seu trabalho.

A relação do cinema com o humano e sobre o que é ser um com os outros são problemas que os filmes do IndieLisboa não deixam de refletir, sejam mais ou menos explicitamente de temática religiosa. Muitos não o são mas acabam por tratar dessas questões.

 

Como olha para a relação da Igreja Católica em Portugal com a cultura?

Para ser muito sincero acho que há setores da Igreja, eventualmente de pendor mais conservador, que me surpreendem pelas reações negativas que têm em relação a algumas manifestações culturais. Acho que a cultura não é uma ameaça. A cultura deve ser vista também como uma oportunidade de confronto com outro ponto de vista sobre algo que temos como certo, mas que estará sempre aberto a discussão enquanto houver opiniões diferentes sobre o mesmo assunto.

Sinto por vezes que as posições mais conservadoras e menos abertas ao diálogo são mais escutadas dentro da Igreja do que as tendências mais dialogantes e generosas no convívio com a opinião do outro. Quando há polémica os pontos de vista extremos são amplificados, enquanto que as posições mais moderadas são sufocadas pelo ruído de fundo.

Dito isto, não tenho uma interpretação nada monolítica da Igreja Católica em Portugal e da sua relação com a cultura. Acho que há diferentes sensibilidades, orientações e formas de lidar com a questão cultural, com manifestações de grande pluralismo, mas tenho pena que subsista pontualmente alguma intolerância, embora ache que essas manifestações sejam minoritárias face à capacidade de aceitar e ouvir outras formas de entender o fenómeno religioso e a organização social e moral. As tensões existentes na sociedade encontram-se também, naturalmente, no seio de uma organização tão vasta como a Igreja Católica.

 

A Igreja poderia aproveitar melhor o patrocínio ao prémio “Árvore da Vida”?

Penso que este prémio devia ser visto como uma abertura da Igreja Católica a manifestações culturais que, no caso do IndieLisboa, têm um cunho de irreverência, inovação e juventude, no que ela tem de rebeldia, contestação e até de fratura. Neste sentido é um diálogo interessante entre algumas propostas do festival, que eventualmente poderão causar mais suscetibilidade ou até ferir, mas penso que não há de ter medo disso. Pelo contrário, é preciso aceitar que as propostas fraturantes coexistam no Indie com propostas que têm uma aproximação muito grande a ideais que partilhamos com o ideário católico.

 

Rui Jorge Martins
© SNPC | 06.05.12

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