Projecto cultural
Entrevista

D. Manuel Clemente: "Há uma questão cultural que não está resolvida"

Em entrevista à revista do Público (9.12.2007), D. Manuel Clemente analisa a relação Igreja-Estado desde a Implantação da República e pede o estabelecimento de uma laicidade positiva, que permita esclarecer qual o lugar das confissões e da expressão religiosa na nossa sociedade.

Apresentamos um breve extracto dessa conversa com a jornalista Natália Faria.

 

D. Manuel Clemente
O que entendo é que há uma questão cultural subjacente que não está resolvida (...). Trata-se de esclarecer a tal diferença que existe entre uma laicidade positiva - em que não tendo o Estado uma confissão religiosa explícita permite e até promove que as ideias e as confissões religiosas dos cidadãos se manifestem publicamente, nos campos da saúde, da educação, da família e por aí fora - e uma concepção não laica mas laicista que cria um enorme vazio a tudo o que seja manifestação de convicções religiosas na sociedade. Há aqui um debate público a fazer.

Público
O que temos aqui? Uma procura obsessiva de resolver um passado marcado por uma certa promiscuidade entre o Estado e a Igreja Católica?

D. Manuel Clemente
É perceber o que é o Estado e o que são as confissões religiosas numa sociedade democrática. Isso não está suficientemente esclarecido. No princípio do século XX, havia uma religião oficial promovida pela monarquia, mas promovida até certo ponto porque a monarquia era um colete de forças que reprimia a própria vitalidade religiosa do catolicismo de então, funcionando como uma espécie de gaiola dourada - e o próprio dourado já estava muito fanado. Por isso é que, em 1910, não houve da parte da Igreja uma oposição ao regime republicano, e devo dizer que da parte de muitos deles até houve um certo alívio. Depois, houve efectivamente da parte do grupo mais radical, sobretudo do partido de Afonso Costa, que não é todo o republicanismo português nem por sombras, uma política de perseguição sistemática à Igreja Católica, nomeadamente a partir de 1911 com a Lei da Separação. Depois, a política do Estado Novo, concretamente a partir dos anos de 1930, foi de relativa aproximação à Igreja Católica, mas que sempre impediu a expressão política do catolicismo, concretamente com o fecho do Centro Católico Português, e nunca permitiu que a Acção Católica enveredasse pelo campo da política propriamente dita e que evoluísse para uma democracia cristã em termos de partidos como eles se organizaram na Europa do pós-guerra. Também nunca permitiu que a Igreja tivesse uma presença suficientemente compacta no campo do ensino. Repare que é só no final do regime que a Igreja consegue satisfazer a velha pretensão de fazer uma universidade católica. Portando, houve com o Estado Novo alguma recuperação de uma visão católica tradicional do país mas sem que isso significasse uma liberdade franca de organização católica e de projecção política dos católicos.

Público
Não deixa de ser verdade que o ideário da Igreja Católica casava muito bem com o do Estado Novo.

D. Manuel Clemente
Isso visto mais de perto leva a outras conclusões, não obviando a que uma grandíssima parte dos dirigentes católicos, quer eclesiásticos quer leigos, fossem coincidentes com o Estado Novo na visão nacionalista de um Portugal que se havia de recompor. Mas foi assim até à II Guerra Mundial. A partir dos anos 60, as coisas são diferentes. Aliás, uma das componentes que levará ao regime do 25 de Abril foi a dos católicos liberais que estão presentes quer nalguns sectores da Acção Católica quer na ala liberal da Assembleia Nacional da altura.

Público
A própria Igreja Católica teve preponderância no desencadear da revolução?

D. Manuel Clemente
Basta falar do D. António Ferreira Gomes mas também dos leigos que fizeram parte da ala liberal da Assembleia Nacional.

Público
Mas são figuras de excepção numa organização muito conservadora.

D. Manuel Clemente
É preciso perceber que em Portugal até aos anos 60 o perigo comunista era visto como algo de negro, de muito condicionante de qualquer liberdade interna. Em grande parte da sociedade portuguesa havia uma certa condescendência com o regime autoritário porque viam aí uma salvaguarda em relação ao perigo comunista. Mas notávamos nalguns sectores da Igreja, na Acção Católica operária e universitária, e da parte de algumas figuras como o bispo do Porto, propostas de mudança mesmo no campo político-partidário.

Público
D. António Ferreira Gomes além de ter tido problemas com o regime teve-os dentro da própria organização católica.

D. Manuel Clemente
O que significa que, dentro da própria Igreja, havia também uma certa tensão geracional. Havia aquelas pessoas que vinham da luta da I República e que se aproximaram facilmente do ideário do Estado Novo e as que já eram de outra geração e já apanharam melhor as correntes do humanismo católico que se foram desenvolvendo entre as duas guerras e que iam no sentido de um regime pluripartidário, concretamente de uma democracia cristã como ela apareceu na Europa do pós II Guerra Mundial.

Público
Por que é que a Igreja está a reclamar intervenção activa nas comemorações do centenário da República?

D. Manuel Clemente
É para entrar neste debate. Para esclarecer questões que muitas vezes nem sequer estão enunciadas correctamente. Para mostrar que, relativamente à I República, da parte da Igreja a questão nunca foi o regime mas algumas práticas dos sectores mais radicais do republicanismo e, a partir daí, fazer o tal debate acerca do que é o lugar das confissões religiosas e do que haja de ser a expressão religiosa em termos individuais e colectivos numa sociedade democrática.

Público
Numa altura também que a Igreja Católica em Portugal começa a sentir o chão fugir-lhe dos pés?

D. Manuel Clemente
Não tenho essa sensação. Se compararmos a situação da Igreja em Portugal, mesmo em termos de prática religiosa, no princípio do século XX o saldo é positivo em todos os campos.

© Público

Publicado em 13.12.2007

 

 

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D. Manuel Clemente
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