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“Queres um café?”: Carta pastoral fala de amizade e acolhimento a partir da arte e do quotidiano

A recente carta pastoral, sobre o tema das relações, escrita pelo bispo da diocese italiana de Pinerolo, D. Derio Olivero, dirige-se a crentes e não crentes, partindo das experiências simples do quotidiano, partilhadas por todos, e da linguagem da arte, que por sua natureza é universal. O título, logo à partida, “Queres um café”, suscita curiosidade e captura imediatamente a atenção.

«O café é o símbolo da nossa constante necessidade de relação. E a relação alimenta-se do dom. Para construir uma relação tenho de dar sem exigir garantias, sem pretender resultados. Partilhar, não exigir. Pôr-se nas mãos do outro, não reduzir o outro ao nosso poder. Toda a relação vive de confiança», assinala o prelado.



Imagem "A dança" | Henri Matisse | D.R.


Como ícone, o documento propõe “A dança”, de Henri Matisse. «A essência da vida», explica no terceiro capítulo - «está em termo-nos de mãos juntas, está em criar um círculo. Com este quadro, o pintor, de modo direto, diz-nos: “Tudo é importante, mas essencial é só a capacidade de construir relações”. Cada bailarino tem um movimento diferente. Dançam juntos, dançam em círculo, mas cada um dança com figuras próprias. Estão juntos, mas são diferentes. Estão juntos, ainda que diferentes. É um círculo muito harmonioso, mas respeitoso da dignidade de cada um. Um esplêndido hino ao respeito pelas diversidades. Um esplêndido hino à fecundidade das diversidades».

Observando o círculo aberto formado pelos bailarinos, o prelado comenta que também cada relacionamento deve ser inclusivo, acolhedor, não fechado, não segregador: «Toda a relação saudável deve criar outra relação. Os bailarinos estão nus. Para entrar numa relação é preciso ser-se autêntico, sem máscaras, sem defesas. Para entrar em relação é preciso ser-se verdadeiro e humilde, capaz de reconhecer as suas qualidades e os seus defeitos». Depois a referência à fé torna-se explícita: «Bailarinos sobre uma colina que dedicam a vida para criar uma dança, um círculo, uma comunidade. Quanto isto se assemelha a uma crucificação! Com os braços estendidos, Cristo convida-nos a entrar na sua “dança”, a acreditar ainda nas relações, a deixar-se impelir pelo Espírito para a verdade de nós próprios. Queres entrar nesta dança?».



Imagem "A espera" | Felice Casorati | D.R.


É igualmente intenso o comentário a um quadro de Felice Casorati, “A espera”: «A mulher adormenta-se sentada, mas não enfraquece. Não arruma a mesa, não vai dormir. Continua a esperar. Não aparece ninguém, mas ela cozinhou para eles. Não aparece ninguém, mas ela espera-os. Continua a oferecer confiança, mesmo na sua ausência. Porque precisamente isto é estar em relação: continuo a acreditar em ti, mesmo quando não o mereces; continuo a trabalhar para ti, mesmo quando não há reciprocidade; continuo a dar mesmo nos dias em que não recebo; continuo a “cozinhar” e a “vigiar” mesmo quando não estás. A amizade é uma longa e tenaz espera».

Com uma referência constante à «mística da fraternidade», de que fala o papa Francisco, a carta ocupa-se quer das relações interpessoais, quer da relação com a criação, entre povos, confissões e fés diferentes. Sublinha amplamente o tema do acolhimento dos migrantes: «Pensai nos vários slogans que dominam a cena: “Primeiro os americanos, depois o resto do mundo”; “Primeiro os ingleses, depois os outros”; “Primeiro os italianos, depois a Europa”; “Primeiro os italianos, depois os imigrantes”. São hoje o pão nosso de cada dia. É certo que não sou um ingénuo, nem um facilitista barato. Sei bem que os problemas ligados aos imigrantes e à relação entre Estados são muito complexos e devem ser enfrentados com atenta reflexão. Mas já não suporto a mentalidade espalhada que considera óbvio e dado como adquirido o slogan: “Primeiro eu, primeiro nós”. Uma sociedade que se encaminha nesta direção ou se torna violenta ou se desfaz. Em qualquer dos casos, morre».



Imagem "Trindade" | Andrei Rublev


A parte conclusiva do documento é totalmente entretecida de espiritualidade, dominada pela luz que se irradia do ícone da Trindade, pintado por Andrei Rublev. Como viático para o caminho da fraternidade, tantas vezes acidentado e íngreme, e como cura para os corações feridos por incompreensões e traições, D. Olivero sugere o sustento seguro da oração, em particular o Salmo 133, o Pai-nosso e a Missa. O domingo, em particular, deveria ser o dia dedicado às relações, na consciência de que a alegria se multiplica quando é partilhada, dada aos outros. Não há nada de mais doce do que fazer esboçar um sorriso em lábios exaustos. E o prelado cita uma bela frase de Roland Barthes: «Não significa portanto nada para vós ser a festa de alguém?».

Muitas vezes os cristãos sentem-se «esculturados», isto é, «mudos em relação à visão concreta do mundo dos homens e das mulheres de hoje». Se esta é a verdadeira questão, «temos de partir precisamente daqui. Antes de tudo, é preciso redizer o cristianismo no quotidiano da vida». E fazê-lo com a consciência de que o ecumenismo é uma dimensão essencial e constitutiva do testemunho cristão.

Entre as primeiras respostas à carta pastoral ocorreu, recentemente, o convite a explicar-lhe os conteúdos no organismo municipal de Pinerolo, onde o bispo debateu as questões do documento com o presidente da autarquia e algumas personalidades institucionais, num clima sereno e repleto de interesse.


 

Donatella Coalova
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem de topo: monkeybusinessimages/Bigstock.com
Publicado em 29.01.2020

 

 

 
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