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Ramalho Eanes prefacia e assiste ao lançamento de livro sobre D. Manuel Martins e Eugénio Fonseca

O general Ramalho Eanes é uma das personalidades que vai marcar presença na apresentação do livro “Testemunho de duas vidas compartilhadas”, no qual o presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, descreve alguns dos momentos mais significativos, e desconhecidos do grande público, que viveu com o primeiro bispo da diocese de Setúbal, D. Manuel Martins.

A sessão, marcada para 20 de janeiro no salão nobre da Câmara Municipal de Setúbal, conta com a presença da presidente da autarquia, Maria das Dores Meira, e de Guilherme d’Oliveira Martins, administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, a quem cabe a apresentação do volume publicado pela Paulinas Editora.

«Justa e de prospetiva conveniência é a revisitação da personalidade e obra de D. Manuel Martins. Justa e conveniente porque ele foi uma figura maior da Igreja em Portugal e da história recente do nosso país», acentua o primeiro presidente da República eleito após a transição para o regime democrático, a 25 de abril de 1974.

No prefácio, Ramalho Eanes recorda que a chegada a Setúbal de D. Manuel Martins, em 1975, vindo da diocese do Porto, «foi batida pelos ventos uivantes da desconfiança e descrença nos poderosos, sentidos pelas gentes com salários em atraso ou desempregados vivendo na miséria ou sob sua ameaça, porque, como diz Eugénio da Fonseca, nesta obra, “era voz recorrente que do Norte reacionário nada poderia vir de bom”».



«Atento e responsável, D. Manuel Martins assumiu, sem tibieza, o difícil papel de ouvir, de atuar, de confrontar o poder político com a situação e sua responsabilidade de a debelar, porque entendia que “ser Bispo é gritar contra as injustiças”»



Vinte e três anos mais tarde, em 1998, depois de resignar, a partida de Setúbal «foi marcada pelo calor afetivo, reconhecido e agradecido, no carinhoso adeus ao Bispo, que, pela sua palavra e ação em prol de todos, dos mais desfavorecidos em especial, que sempre defendeu, com denodo, não regateando custos pelo desacordo expresso, pela sua divergência fundamentada, pelo seu combate, contra tudo e todos, pela conquista da dignidade de todos».

Em pleno segundo mandato como chefe de Estado, Ramalho Eanes testemunhou que «na península de Setúbal, entre 1982 e 1986, a crise económica e a falta de resposta do poder político atropelaram a verdadeira liberdade de muitos, esmagaram, com o desemprego e os salários em atraso, a sua dignidade, fragilizaram a própria solidariedade».

«Na sua ofensiva, não contra o poder, mas pelo poder ético e politicamente atento e responsável, D. Manuel Martins apelou, reclamou, exigiu que o Estado não perdesse a oportunidade e se mostrasse presente e eficaz», acentua Ramalho Eanes.

O texto realça que nada intimidou o bispo falecido em 2017, «nem mesmo quando o poder insinuou haver conivência objetiva do Bispo com o Partido Comunista e a [central sindical] Intersindical; nem mesmo quando o poder político levantou o espantalho de um eventual conflito com o poder eclesiástico. Responsável e corajoso, tenaz e atento, justo e forte, conhecia bem a sua ecuménica missão e as suas responsabilidades».

«Atento e responsável, D. Manuel Martins assumiu, sem tibieza, o difícil papel de ouvir, de atuar, de confrontar o poder político com a situação e sua responsabilidade de a debelar, porque entendia que “ser Bispo é gritar contra as injustiças”, frisa Ramalho Eanes.



«Tenho por D. Manuel Martins uma profunda admiração, por tudo quanto disse, e, ainda, pelo facto de D. Manuel Martins ter sido um homem que cedo descobriu a sua missão, e que resposta de constante perfetibilização, pessoal e social, lhe deu, e, com verdadeiro amor cristão, muito deu a todos os seus irmãos e ao País»



O ex-presidente lembra que o prelado, «com a sua autoridade» Episcopal,  criticou «repetidamente, o poder, a propósito da desumanidade nas prisões, da praga do desemprego, da ofensa dos salários em atraso, do flagelo das barracas, da vergonha do trabalho infantile».

Os apelos à sociedade civil «para que se tornasse exigentemente participativa, para que saísse do seu amorfismo tradicional e cumprisse o papel que lhe cabe na construção da sociedade moderna em Portugal», e a defesa da família, que «tem direito indeclinável a uma casa e a um trabalho», são igualmente destacados no prefácio.

Ramalho Eanes testemunha a «amizade» e a «gratidão» que ele e a mulher desenvolveram: «Tenho por D. Manuel Martins uma profunda admiração, por tudo quanto disse, e, ainda, pelo facto de D. Manuel Martins ter sido um homem que cedo descobriu a sua missão, e que resposta de constante perfetibilização, pessoal e social, lhe deu, e, com verdadeiro amor cristão, muito deu a todos os seus irmãos e ao País».

«Repetitivo e supérfluo seria (…) dizer tudo quanto aqui reafirmei. Porém, tratando-se de D. Manuel Martins, qualquer repetição é proveitosa porque a dignidade da sua vida, a nobreza do seu pensamento e sentimentos, a sua ousadia oportuna, enfim, a sua ímpar e exemplar personalidade, continuam a ser, verdadeiramente, um exemplo, uma fonte de inspiração», conclui Ramalho Eanes.

Eugénio Fonseca, que ao longo de 42 anos construiu uma amizade cada vez mais sólida com D. Manuel Martins, e a quem o prelado dirigiu as últimas palavras, considera que era imperioso narrar as «vivências partilhadas pelos dois»: «Senti que a história precisava delas, por já ter sido amputada por não ser o próprio a escrevê-las, pois seriam mais completas e enriquecidas».

A apresentação do livro está prevista para as 21h30.


 

Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 15.01.2020

 

Título: Testemunho de duas vidas compartilhadas
Autor: Eugénio Fonseca
Editora: Paulinas Editora
Páginas: 248
Preço: 13,00 €
ISBN: 978-989-673-728-3

 

 
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