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Santo António lido por D. Manuel Clemente, patriarca de Lisboa

Manuel Clemente tinha sido ordenado padre há três anos quando, em 1982, interveio no Colóquio Antoniano promovido pela Câmara Municipal de Lisboa para evocar o 750.º aniversário da morte de Santo António (1195-1231), doutor da Igreja e padroeiro secundário de Portugal.

É da intervenção do historiador, intitulada "Santo António e a reforma do clero do seu tempo", que apresentamos alguns excertos. A conferência incide na argumentação que o religioso franciscano moveu contra a dissolução dos costumes no clero, que, segundo a sua ótica, fomentava as heresias e causava o afastamento de uma conduta saudável de vida por parte dos restantes fiéis.

 

Santo António e a reforma do clero do seu tempo

O seu [Santo António] primeiro campo de apostolado foi a Romanha. Concretamente Rimini, onde o catarismo já seduzira muitos. Mas, nos fins de 1224, já estava no sul de França, onde a oposição era a mesma. A Cruzada contra os albigenses, na variedade dos seus sucessos, começara. em 1209 e prolongar-se-ía até 1229. Em bula de 14 de dezembro de 1223, o Papa Honório III lamentava a Luis VIII de França que na região de Albi os hereges atacassem publicamente a Igreja, arruinassem a Fé e chegassem a escarnecer do Salvador. (...)

E (...) a posição do nosso Santo? Oiçamo-lo agora a ele, colhendo do que deixou.

Em primeiro lugar, o mesmo tom profético de denúncia dos desvios do clero. Denúncia que não é branda nem lhe foi fácil. Ele próprio o reconheceria: «Também hoje os fariseus (os prelados soberbos e carnais) se esforçam por apanhar o pregador de Jesus no que diz ao povo (. .. ). "Sai daqui, homem de visões, foge para a terra de Judá e come lá o teu pão e lá profetizarás". Isto costumam dizer os fariseus do nosso tempo aos pregadores, quando estes lhes repreendem a malícia».

Mas, ainda que difícil, a denúncia era imposta pela evangelização: «O povo não pode purificar-se destes vícios (avareza e luxúria) (...) porque os vê nos prelados».  «Com o mau exemplo da sua vida (o mau prelado), põe fora os súbditos antes de poderem voar, isto é, antes de poderem desprezar o mundo e amar os bens celestes, expulsa-os do reino da fé e do bom propósito. Ai! quantos pelo mau exemplo dos pre­lados se convertem aos hereges, abandonando o ninho da fé!».

Como ouvimos, o mesmo motivo: o mau exemplo dos prelados é a causa da heresia; é o exemplo que falta. O exemplo, primeira obrigação do ministro, desde São Gregório, desde sempre, porque o Evangelho há de ser vida para ser convite. Assim como se estava, eram entes cegos onde deviam ser sentinelas: «Pode porventura um cego guiar outro cego? (...) O cego é o prelado ou o sacerdote perverso, privado da luz da vida e . da. ciência (...). Mas porque se dá isto? Porque as sentinelas da Igreja são todas cegas, privadas da luz da vida e da ciência; são cães mudos que têm na boca a rãzinha do diabo e por isso não podem ladrar contra o lobo (...). O cego e o coxo não deviam entrar no templo. E a estes se confia hoje a guarda do templo. Com estes guardas cegos muitos se cegam e com eles descem juntos ao barranco da condenação».

E nisto gritavam os dois vícios maiores. Os que já tinham aliás motivado, duzen­tos anos antes, a reforma gregoriana e apesar de tudo permaneciam: simonia e nicolaísmo, Tentações estruturais da sociedade medieval, a que a reforma mendicante procurara dar um remédio total:

«Mulher formosa e insensata são os clérigos: Mulher, porque são moles e corruptos, expondo-se, quais meretrizes, nas causas e tribunais por dinheiro; formosa, pelo esplendor das vestes, multidão de sobrinhos e talvez de filhos, e multiplicação de prebendas; insensata, porque não entendem o que eles mes­mos ou os outros dizem, clamam todo o dia na Igreja e ladram como cães. E não se entendem a si mesmos, porque o corpo está no coro, mas o coração está no tribunal. Se ainda escutam a pregação, não a entendem; pregar a clérigos e falar a insensatos, que utilidade há numa e noutra coisa senão barulho e trabalho?». Desabafo des­consolado, que não lhe abrandava porém a veemência.

Contra a simonia, levantava-se com uma força onde ecoam os ditames gregorianos: «Todo aquele, pois, que vender ou der o espiritual ou o anexo ao espiritual por oração ou dinheiro, por palavra ou dom, por promessa ou oferta, por temor ou amor terreno e carnal, é símoníaco, e não pode salvar-se, a não ser que renuncie e faça verdadeira penitência (...). Ai, portanto, daqueles que de bom grado recebem presentes, que cegam os olhos dos sábios. Edificam Jerusalém no sangue, isto é, com os seus consanguíneos, sobrinhos e sobrinhinhos, concedendo-lhes benefícios eclesiásticos». (...)

«Entrando numa barca, que era a de Simão, rogou-lhe (o Senhor) que se afastasse um pouco da terra. O Senhor roga ao prelado da sua Igreja. que a afaste um pouco da terra, isto é, que afaste do amor dos bens terrenos os que foram confiados ao seu governo. Mas se é apegado à terra, giboso e curvado para. a terra, como afastará os outros da terra? (...) Os prelados do nosso tempo (...) têm mulher e filhos (...). A subsistência do sacerdote, com efeito, hoje é uma mistura de coisas, a palha do negócio terreno e o trigo da oferta eclesiástica. Comem tal mistura os jumentinhos, isto é, os filhos dos sacerdotes». [E ainda:] «(Nesses prelados) não há forma alguma de virtude, nenhuma espécie de bons costumes, mas apenas o pus dos pecados, exceto os traços das unhas, com que roubam os pobres (...). Alguns prelados da Igreja não têm força no espírito e não conseguem resistir às tentações do diabo. Têm porém a força máxima da rapina e da luxúria».

É difícil escolher entre os tantos e tantos passos em que o nosso Santo se insurge contra estes vícios maiores do clero do seu tempo. (...) Não havia maior vigor nem maior indignação nos protestos dos hereges; mais relevará assim o equilíbrio do nosso autor. Equilíbrio e, ainda uma vez, a ironia: «Foi dito a Pedro três vezes: Apascenta, e nem uma só lhe foi dito: Tosquia. (...)

Ainda duas outras tentações: a vontade de dominar e a sabedoria mundana. Quanto à vontade de dominar, repete São Bernardo: «Não temo tanto o fogo como temo o prazer de dominar (...) [que] força a sair da contemplação íntima de Deus para a solicitude exterior (...). Ai, quantos religiosos, mortos para o mundo, sepultados nos claustros, suscitou esta pitonisa, isto é, o amor de dominar, do sono da contemplação, do repouso e da paz, e os trouxe para o público». E quanto à sabedoria do mundo, a substituir a meditação da Escritura e da sua Teologia, a reprovação antoniana não é menor; sabedoria que o Santo via desviada na Filosofia e nas Leis, nos alvores da Escolástica e do empolamento canónico: «A prata da eloquência e o ouro' da sabedoria não livrarão Túlio e Aristóteles no dia do furor do Senhor». Ou então: «A senhora é a teologia, a escrava é a lei justiniana e a ciência lucrativa. Hoje a escrava está à frente da senhora; Agar, à frente de Sara; a lei justiniana, à frente da lei divina. Os prelados do nosso tempo (...) nas cúrias episcopais fazem grande ruído com a lei de Justiniano e não com a lei de Cristo».

Mas, depois disto, o distanciamento.

O distanciamento em relação à heterodoxia que, da contestação dos vícios saltava, mais tarde ou mais cedo, para a negação do dogma. E a afirmação duma outra sensibilidade. Na oração, por exemplo: «Roguemos humildemente e com lágrimas ao Senhor Jesus Cristo que expulse da sua Igreja os vendeiros e compradores simoníacos e ponha fora da casa da nossa consciência, outrora sua, os sobreditos vícios, e faça-a casa de oração santa, para que possamos chegar à casa da Jerusalém celeste».

É um acento novo e creio que nos põe na direção certa. Ainda mais, quando precisa: «O pastor que abandona o rebanho a si confiado é um ídolo na Igreja (...), retém a imagem do Senhor, não a verdade». Inciso precioso, este do «retém a imagem», sabendo nós o sentido essencial, constitutivo, que tem a noção de imagem para o nosso Santo. Censurável e contraproducente que seja, o pastor é ainda imagem de Cristo pastor: ortodoxíssíma afirmação sacramental e demarcação nítida do antisacerdotalismo herético seu coevo.

Fica assim aberto, ainda uma vez, o caminho da recuperação da verdade do ministério, o que solicita a oração dos fiéis: «Devemos rezar para que os anciãos da casa de Israel (...) não permaneçam nos seus erros e não adorem pinturas de ídolos, que são os seus vícios, e não suba o fumo do sacrilégio que se opõe a Deus».

E sobretudo, e contrariamente ao que vimos noutros, as denúncias de Santo António, clérigo também, não se resumem ao clero, não se contêm em nenhum anticlericalismo. É a Igreja toda e não Só os pastores que tem de melhorar, como corpo, da cabeça. aos pés: «Desde a planta do pé até ao alto da cabeça não há nele (no corpo) nada são (...). Desde a planta do pé ao alto da cabeça (desde os últimos aos primeiros; desde os leigos aos clérigos, desde os ativos aos contemplativos) não há nele (no corpo) nada são». Em ambiente maniqueu, não há em Santo António nenhuma contaminação. Nem a Igreja é já o céu dos eleitos: «Assim como a Igreja está entre o céu e o inferno, assim indistintamente reúne bons e maus, Pedro e Judas, azeite e amurca».

Tempos difíceis, os de Santo António. Vimos a abrir como da contestação do clero se seguiu rapidamente até ao cisma e à heresia. Também nisto nenhuma ambiguidade da parte do nosso autor: «As obras da carne são manifestas: (...) discórdias, quando se formam partidos na Igreja; seitas, isto é, heresias».

Obras da carne, porque os conhecia bem, aos falsos humildes: «A humildade do hipócrita, sem raiz no coração, pretende parecer grande nas obras. Porém, a verdadeira humildade, quanto mais profundamente se mete, mais se inclina, e desta maneira se exalta (...). Também se chamam melancólicos os homens que fogem do trato humano, nos quais abunda o negro fel».

E ainda é mais claro noutro passo: «Há quatro espécies de orgulho, no dizer da Glossa: quando alguém possui um bem e julga ter ele vindo de si mesmo; ou se dado por Deus, considera-o dado em razão dos seus méritos; ou jacta-se de possuir o que não possui; ou despreza os outros e procura pôr em evidência o que possui. Daqui o provérbio: Incha falsamente dos seus méritos e quer passar à frente de todos (...). Que são os outros homens, senão toda a gente, exceto ele? Como se dissesse: Só eu sou justo; os demais são pecadores».

Há entre Santo António e a heresia coeva uma fronteira inultrapassável, a sua descoberta maior: a humildade. Se o orgulho é tantas vezes o pai da heresia, Santo António é o mais ortodoxo dos Doutores. Mas há ainda no espólio antoniano um trecho notável, que tem decerto por detrás o seu conhecimento dos meios heréticos, haurido nas controvérsias em que andou. Creio-o um documento imprescindível para a compreensão do tempo, uma análise finíssima dos motivos e das atuações dos heterodoxos que conheceu. Vem no Sermão do oitavo Domingo depois do Pentecostes, curiosamente a seguir a mais uma denúncia dos maus pastores:

«O hipócrita cava os sepulcros na noite da simulação. Penetra nas casas das mulheres, na frase do Apóstolo; por meio de palavras doces e bênçãos seduz os inocentes e desta forma se alimenta dos cadáveres dos pecadores. Imita as vozes, que são os louvores dos homens, persegue os estábulos dos pastores, que são os lugares onde se prega, e de ouvido atento aprende a pregar, a fim de com a sua pregação enganar os homens, que vêm a si durante a noite. Simula também os vómitos humanos, que são as confissões dos pecadores. Acusa-se pecador, não se considerando tal; atrai os homens com falsos suspiros ou gemidos, para o crerem santo ao vê-lo assim a gemer. Engana ainda algumas vezes os próprios justos, demasiado crédulos na sua fingida devoção (...).

Aqueles eram os defeitos, esta a doutrina. (...)

«Vi sete candelabros de ouro. Nestes candelabros notam-se os sete predicados necessários ao prelado da Igreja: pureza de vida, ciência da divina :Escritura, eloquência de língua, instância de oração, misericórdia para com os pobres, disciplina para com os súbditos, cuidado solícito do povo que lhe foi confiado». Ou, reforçando as virtudes que mais urgiam e lhe eram mais caras: «O rei montado na jumenta é o bispo que governa a plebe a si confiada (...). Este rei deve ser manso, justo, salvador e pobre». À maneira de Jesus portanto, pobre e montado numa jumenta, porque «a divindade absteve-se aos olhos humanos do poder do próprio fulgor. Prateiem, portanto, as suas palavras os prelados com a humildade da humanidade de Jesus Cristo para que mandem benigna e afavelmente, próvida e misericordiosamente, porque o Senhor não está no vento, no movimento, no fogo, mas no sibilar ténue da brisa». A humildade à maneira de Cristo, princípio, meio e: fim da vivência antoniana, é também o padrão da reforma.

Mas a humildade de Santo António - será preciso demonstrá-lo ainda? - não tem nada a ver com a timidez. É uma força afável: «O pregador, portanto, deve sentar-se na cadeira da humildade (...). (Há de ser) príncipe pela constância do espírito, para que, à semelhança. do leão fortíssimo, não tema a investida de alguma das bestas (...). Deve tocar duramente os corações dos ouvintes; se, porém, ele em pessoa é tocado pela afronta, deve ser doce e afável». (...)

Cristo pobre, exemplo de prelados, prelados exemplares para a salvação do povo. Resumindo assim, resumimos com o Santo, quando repete São Gregório: «Livre de vícios tem de estar quem tem o cuidado da correção das faltas alheias». Tinha sido a grande descoberta de São Domingos ao contactar com os cátaros e foi depois a dos outros mendicantes e a raiz do seu sucesso: «Despreza-se a pregação daquele de cuja vida se diz mal (...). Se o pregador fala somente sem que a sua vida também se faça ouvir, não sai agua da pedra».E, continuando a constatar: «A linguagem é viva quando falam as obras. Cessem, por favor, as palavras; falem as obras. Estamos cheios de palavras, mas vazios de obras (...). Em vão se gaba do conhecimento da lei quem destrói com as obras a doutrina».

Humildemente, a edificar na doutrina e na vida: Assim há de proceder o prelado. Mas, se é bispo, há de cumprir o étimo. Principalmente em tempo de heresia: «Ó prelado, conhece diligentemente o aspeto do teu rebanho, isto é, do teu súbdito, se tem na fronte o Tau da paixão do Senhor, recebido no Batismo, ou então, se o raspou e escreveu por cima o sinal da besta. E considera os teus rebanhos, não suceda que algum infecionado com a doença da heresia ou do cisma mate os outros». (...)

Concluamos: «Contra a corrente dos pseudo-espirituais e heréticos (Cátaros, Fraticelli, Valdenses, etc.), António demonstra que membros da Igreja não são só os santos (...) mas também ()S pecadores». É este o ponto de demarcação a reter. Entre as vozes de reforma do seu tempo, a de Santo António ecoa a de São Francisco: É de dentro. É de dentro da Igreja que fala, não só institucional, mas misticamente, a partir da compreensão ortodoxa do seu mistério. Como bom mendicante, leva o ímpeto reformador à questão da pobreza dos ministros; mas esta pobreza é entendida, bem a seu modo, em termos de humildade: configuração dos ministros com Cristo Pastor, em cuja humildade transparece a autenticidade da missão. Por isso, um coração indiviso, concretamente, arredado da simonia e do nicolaísmo. Por isso, a coerência entre a palavra e a vida. - E as fontes? As essenciais: A Escritura constantemente meditada e a conformação com o Príncipe dos Pastores.

Tocando assim no âmago da missão, a sua proposta é simultaneamente prática e fundamental: «As prédicas do Doutor Evangélico têm sobretudo em vista a reforma dos costumes. É sobretudo esta a sua finalidade. Mas a própria síntese teológica a que Santo António recorre ordena o conhecimento das verdades reveladas à vida e ao amor. De facto, põe a teologia nas mãos dos bispos como instrumento de apostolado e indica como finalidade da ação dos teólogos a promoção da vida cristã, da. fé, do amor de Deus e do próximo no coração dos fiéis e a extirpação dos vícios contrários». Proposta que mantém hoje toda a veemência.

 

Dr. Manuel Macário Clemente
Faculdade de Teologia de Lisboa - Universidade Católica Portuguesa
In Colóquio Antoniano, Lisboa, 1982
12.06.13

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