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A Lenda de S. João Hospitaleiro

Em Abril de 1877, Gustave Flaubert publicou um pequeno volume intitulado “Trois Contes”, em rigor, a sua última obra acabada. O segundo conto chama-se “La Légende de Saint Julien l’Hospitalier”. Os outros são “Un coeur simple” e “Hérodias”. A ordem dos contos não é cronológica no que se refere à sua redacção. “La Légende” foi o primeiro, e o único, a ser escrito numa celeridade inabitual, entre o final de 1875 e o início de 1876. É provável que isso se deva à familiaridade longuíssima e intensa que ele teve com a história do santo. Primeiro, sob a forma dos vitrais do século XIII da catedral de Rouen que ele conhece desde a infância, e depois pela leitura de todas as versões hagiográficas disponíveis, em particular “La Légende dorée” de Jacques de Voragine, bem como de estudos históricos relativos à Idade Média, à caça, aos animais e às armas, à guerra, às lendas e aos elementos maravilhosos e mágicos.

Na verdade, Saint Julien acompanha toda a vida de Flaubert que, repetidas vezes desde 1856, se decide a escrever sobre ele, aumentando de cada vez a riqueza do seu tesouro documental, cujas origens remontam a 1835, quando ele visita, ainda adolescente, a igreja de Nossa Senhora de Caudebec, acompanhado pelo seu professor de desenho, E.H. Langlois, e com a ajuda do qual compara os vitrais das vidas de Santo Eustáquio e Santo Humberto com os de S. Julião em Rouen.



Mas a causa próxima do “Saint Julien” foi a leitura da obra “Essai historique et descriptif sur la peinture en verre”, publicada em Rouen em 1832, da autoria precisamente do seu antigo mestre, E. H. Langlois. No final do conto - “Esta é a história de São Julião Hospitaleiro, mais ou menos como é contada num vitral de igreja, na minha terra” -, Flaubert convida o leitor a um programa de investigação hermenêutica. A cópia e a ilustração de Amadeo respondem-lhe com um desafio equivalente.

Amadeo de Souza-Cardoso copiou a pincel e ilustrou “La Légende de Saint Julien l’Hospitalier”, na versão original, durante a sua estadia na Bretanha no Verão de 1912 (muito provavelmente concluído em Paris), ano de uma fertilidade imensa para o pintor. Trata-se de um “exemplar único-original”, o que Amadeo faz questão de sublinhar na última página do pequeno álbum “12 Reproductions”, publicado por ocasião das suas exposições de 1916 no Porto e em Lisboa, onde essa referência à obra figura ao lado do anúncio dos últimos exemplares disponíveis dos “XX Dessins”.

 

Início de “A Lenda de S. Julião Hospitaleiro”

O pai e a mãe de Julião moravam num castelo, no meio dos bosques, na encosta de uma colina.

As quatro torres, aos cantos, tinham telhados pontiagudos cobertos de escamas de chumbo e a base das muralhas assentava nos rochedos que desciam a pique até ao fundo dos fossos.

As pedras do pátio estavam tão limpas como as lajes de uma igreja. Longas gárgulas em forma de dragões de focinho inclinado cuspiam a água das chuvas para a cisterna; e no peitoril das janelas, em todos os andares, num vaso de barro pintado, crescia um manjericão ou um girassol.



Uma segunda cerca, feita de estacas, rodeava um pomar de árvores de fruto e, logo a seguir, um canteiro com arranjos de flores que desenhavam monogramas, e um caramanchão onde se apanhava o fresco e um jogo da malha para deleite dos pajens. Do outro lado, ficavam o canil, as cavalariças, a padaria, o lagar e os celeiros. A toda a volta, crescia uma pastagem de erva verde, igualmente murada por uma espessa sebe de espinheiros.

Vivia-se em paz há tanto tempo que já não se descia a grade da entrada; os fossos estavam cheios de água; as andorinhas faziam ninho nas fendas das ameias; e o archeiro que durante todo o dia passeava ao longo da cortina recolhia-se na guarita mal o Sol estava mais forte, e adormecia como um santo.



No interior, por toda a parte luziam ferragens; nos quartos, tapeçarias protegiam do frio; e os armários estavam a abarrotar de roupa branca, os tonéis de vinho amontoavam-se nas adegas, as arcas de carvalho rangiam com o peso dos sacos de dinheiro.

Na sala de armas, por entre estandartes e focinhos de animais selvagens, viam-se armas de todos os tempos e de todas as nações, desde as fundas dos Arnalecitas e as azagaias dos Garamantes até aos chifarotes dos Sarracenos e às cotas de malha dos Normandos.

No espeto grande da cozinha podia assar-se um boi; a capela era tão sumptuosa como o oratório de um rei. Havia até, num local afastado, uma sala para banhos como as dos romanos, mas o castelão não a usava, por considerar que era costume de idólatras.


Sempre envolto numa peliça de raposa, andava pela casa, administrava a justiça aos seus vassalos, apaziguava as disputas entre os vizinhos. Durante o Inverno, via cair os flocos de neve, ou mandava que lhe lessem histórias. Mal começava o bom tempo, montava na mula e percorria os carreiros à beira dos trigais que verdejavam, e conversava com os vilões, dando-lhes conselhos. Depois de muitas aventuras, desposara uma donzela de alta linhagem.

A esposa era muito branca, um tanto altiva e grave. O bico do toucado roçava pelo lintel das portas; a cauda do vestido de lã arrastava pelo chão, três passos atrás dela. Governava a casa como o interior de um mosteiro; todas as manhãs, distribuía tarefas às criadas, zelava por compotas e unguentos, fiava na roca ou bordava toalhas de altar. Tanto rogou a Deus que lhe nasceu um filho.

Houve então grandes festejos e um banquete que durou três dias e quatro noites, à luz dos archotes, ao som das harpas, sobre juncadas de folhagem. Comeram-se galinhas do tamanho de carneiros, temperadas com as mais raras especiarias; para entreter os convivas, saiu um anão de dentro de uma empada e, como as escudelas já faltavam porque a multidão não parava de aumentar, tiveram de beber por olifantes e elmos.

A parturiente não assistiu a tais festividades. Continuava tranquilamente no seu leito. Certa noite, acordou e viu, à luz de um raio de luar que entrava pela janela, como que uma sombra em movimento. Era um velho de hábito de burel, terço pendurado à cintura, alforge ao ombro, com todo o aspecto de um eremita. O velho aproximou-se da cabeceira da cama e disse-lhe, sem descerrar os lábios:

- Alegra-te, ó mãe, que o teu filho será santo!

Ela ia dar um grito, mas ele, deslizando pelo raio de luar, foi subindo lentamente e desapareceu. As cantorias do banquete cresceram de tom. O que ela ouviu foram as vozes dos anjos; e a cabeça caiu-lhe de novo sobre o travesseiro, guardado pelo osso de um mártir numa moldura de rubis.

No dia seguinte, todos os servos que foram interrogados declararam não ter visto nenhum eremita. Sonho ou realidade, aquilo devia ser uma mensagem do céu, mas ela tratou de não dizer nada, receosa de que a acusassem de soberba.

Os convivas partiram ao romper do dia; estava o pai de Julião fora da poterna, onde acabava de se despedir do último, quando, de repente, um mendigo lhe apareceu à frente, envolto em neblina. Era um Boémio de barba entrançada, pulseiras de prata nos braços e olhos em brasa. Com ar de iluminado, gaguejou estas palavras sem nexo:

- Ah, ah! O teu filho!... Muito sangue!... Muita glória!... Sempre feliz! A família de um imperador.

E, baixando-se para receber a esmola, perdeu-se entre a folhagem, desapareceu.

O bom do castelão olhou para um lado e para o outro, gritou o mais que pôde. Ninguém! O vento assobiava, esfumavam-se as brumas da manhã.

Considerou que tal visão se devia ao cansaço que sentia na cabeça, por ter dormido pouco. “Se contar o que aconteceu, vão rir-se de mim”, pensou. Todavia, os esplendores reservados ao filho deslumbravam-no, ainda que a promessa não fosse clara e ele duvidasse até de a ter ouvido.

Os esposos esconderam um do outro o seu segredo. Contudo, ambos amavam o filho com igual amor, e, respeitando-o como alguém que fora designado por Deus, tiveram para com ele cuidados infinitos.

 

Texto: Gustave Flaubert
Ilustrações: Amadeo de Souza Cardoso
in A Lenda de S. Julião Hospitaleiro
Originalmente publicado em 23.10.2008. 14.11.12

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