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Desigualdades e perda irreparável: Um em cada dez museus pode não voltar a abrir

Um passeio na National Gallery, de Londres, onde se pode entrar gratuitamente sempre que se quiser, dá-nos a impressão de que aquele quadro de que tanto gostamos é, um pouco, também nosso. Uma visita aos museus do Vaticano para admirar a Capela Sistina permite-nos a experiência única de olhar as mesmas maravilhosas imagens sobre as quais Miguel Ângelo pousou o olhar. É esta a beleza dos museus, existe para preservar a arte e permitir-nos fruí-la quando se tem vontade (e possibilidade).

Calcula-se que no mundo existem 95 mil museus, entre pequenos e grandes, número que cresceu 60 por cento em apenas oito anos. Mas a pandemia do Covid-10 abateu-se sobre essas instituições, que encerraram em 90 por centro dos casos, e a ausência de turistas e visitantes, segundo o Conselho Internacional dos Museus, coloca em sério risco a reabertura de pelo menos dez por centro. Muitos foram capazes de reagir ao fechamento organizando visitas virtuais, promovendo conferências pela internet, desenvolvendo atividades nas redes sociais, mas esta realidade abrangeu os museus mais importantes, e não, decerto, os existentes em África ou nos pequenos estados insulares, onde só cinco por cento conseguiu oferecer um serviço pela internet.

Segundo um estudo da UNESCO recentemente publicado, as instituições museológicas são o setor cultural mais envolvido na recessão económica em que a pandemia precipitou o mundo. «As dificuldades de adaptação à redução do número de visitantes, a distância social no interior dos museus e a garantia da segurança do pessoal e do público podem alterar profundamente a experiência cultural. São necessárias decisões a todos os níveis nestes tempos imprevisíveis», declarou a diretora do Queens Museum, de Nova Iorque, Sally Tallant.



São milhões as pessoas, sobretudo nos países em vias de desenvolvimento, para as quais o acesso à cultura através de meios digitais está fora de alcance, o que torna difícil o lançamento de museus virtuais ou o acesso a coleções através da internet



Por isso, até quando houver um regresso à normalidade, devem encontrar-se estratégias diferentes para que o museu possa continuar a desenvolver «o seu papel vital nas nossas sociedades pela difusão da cultura, da instrução, da coesão social e do apoio à economia criativa», afirmou a diretora da UNESCO, Audrey Azoulay, que insistiu «na importância e urgência de reforçar as políticas de apoio para este setor».

O relatório da UNESCO sobre o impacto da pandemia nos museus sublinha como as pessoas confinadas sofreram a perda de elementos culturais fundamentais e da estruturação da sua vida diária social e individual. Foram 85 mil as instituições museológicas em todo o mundo que fecharam as portas durante a crise, e o impacto deste encerramento não é só económico, mas também social. Os museus, sublinha o organismo das Nações Unidas, realizam um papel essencial nas nossas sociedades: não só preservam o nosso património comum, como fornecem espaços que promovem a instrução, a inspiração e o diálogo.

É verdade que a sua distribuição não é equitativa: 65 por cento dos museus está na América do Norte e na Europa Ocidental, 34 por cento divide-se entre a Europa Oriental, a América Latina e os Estados da Ásia-Pacífico, mas só 0,9 por cento em África e 0,5 por cento na região dos Estados árabes. No total, 16 Estados têm uma rede de mais de mil museus, ou oito por cento do total, enquanto 30 por cento dos Estados tem ume rede de um a 10 museus, ou nenhum.



O impacto da crise das instituições culturais, incluindo os museus, requer uma estratégia global que reafirme o papel central da cultura como meio de resiliência, e contribua para reativar a economia e o ecossistema cultural para um futuro melhor para as gerações vindouras



Apesar dos desafios colocados pela crise sem precedentes que estamos a viver, muitas instituições culturais continuaram a servir como fonte de resiliência e apoio às comunidades, imaginando novas modalidades para fornecer acesso à cultura e à instrução no contexto das medidas de confinamento. Mas isso não foi o suficiente, dado que em muitas regiões do mundo a possibilidade de usar a internet não é possível, ou é particularmente cara, com a consequente desigualdade no acesso aos recursos culturais.

O estudo sublinha que a diferenciação digital é agora mais evidente que nunca. São milhões as pessoas, sobretudo nos países em vias de desenvolvimento, para as quais o acesso à cultura através de meios digitais está fora de alcance, o que torna difícil o lançamento de museus virtuais ou o acesso a coleções através da internet. Esta situação é confirmada pela União Internacional das Telecomunicações, que comprova como metade da população mundial não tem acesso à internet.

O mesmo vale para a diferenciação de género na fruição das tecnologias digitais: há menos cerca de 327 milhões de mulheres do que homens que possuem um “smartphone” e não podem aceder à internet. Por isso, de acordo com a UNESCO, o impacto da crise das instituições culturais, incluindo os museus, requer uma estratégia global que reafirme o papel central da cultura como meio de resiliência, e contribua para reativar a economia e o ecossistema cultural para um futuro melhor para as gerações vindouras.

Neste contexto, a tarefa da UNESCO é apoiar os sues Estados-membros na busca de soluções adequadas, porque, explica-se, provavelmente não há uma resposta única, e dado o contexto de cada região do mundo, ou mesmo de cada país, cada museu terá de fazer a sua avaliação e identificar as lições que lhe permitirão adaptar-se a uma nova realidade e a novos desafios.


 

Anna Lisa Antonucci
In L'Osservatore Romano
Imagem: D.R.
Publicado em 04.06.2020

 

 
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